Fobias específicas em crianças e adolescentes: quando o medo preocupa?

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Fobias específicas. Ilustração 3D de uma menina observando um cachorro em um parque, acompanhada por uma adulta que oferece apoio.

Por Dr. Luis Pimenta

Medo do escuro, de cachorros, de trovões ou de tomar uma vacina pode fazer parte da infância. Para os pais, a dúvida costuma aparecer quando o medo começa a mudar os planos da família: “Isso é esperado para a idade ou precisamos procurar ajuda?”.

A fobia específica é um transtorno de ansiedade em que um objeto ou uma situação provoca medo intenso e desproporcional ao perigo real, com sofrimento importante ou prejuízo na vida cotidiana. A pessoa evita o que teme ou enfrenta a situação com muita ansiedade. O diagnóstico depende do conjunto dessas características e de sua persistência. 1

Conhecer os medos comuns em cada fase ajuda a compreender o desenvolvimento. Também é necessário observar quanto espaço o medo está ocupando na vida da criança ou do adolescente.

O que são fobias específicas?

Nas fobias específicas, o medo está ligado a algo relativamente delimitado. Os grupos incluem:

  • Animais: cachorros, insetos, aranhas ou outros animais.
  • Ambiente natural: alturas, tempestades ou água.
  • Sangue, injeções e ferimentos: ver sangue ou passar por determinados procedimentos médicos.
  • Situações: entrar em elevadores, viajar de avião ou permanecer em espaços fechados.
  • Outros estímulos: situações associadas a vomitar ou engasgar, por exemplo.

Esses exemplos descrevem possíveis focos de uma fobia. Ter medo de algum deles, isoladamente, não estabelece o diagnóstico. 1

É razoável manter distância de um animal agressivo ou evitar uma área durante uma tempestade perigosa. A avaliação considera o risco real e o contexto em que o medo acontece.

Quais medos são comuns em cada faixa etária?

Os medos mudam com o desenvolvimento. As faixas abaixo são aproximadas: não representam prazos para um medo aparecer ou desaparecer. 2

Faixa etária aproximadaExemplos de medos e preocupações que podem fazer parte do desenvolvimento
Primeiro ano de vidaEstranhamento de pessoas pouco familiares, especialmente na segunda metade do primeiro ano. Por volta de 8–9 meses, alguns bebês choram ou se agarram ao cuidador diante de um rosto desconhecido.
1–2 anosMedo de se separar dos pais ou cuidadores, com choro nas despedidas, na entrada da creche ou na hora de dormir.
3–6 anosEscuro, monstros, personagens imaginários, sonhos assustadores e barulhos fortes, como trovões. A imaginação pode tornar uma ameaça inventada muito convincente.
7–12 anosFerimentos, violência, tempestades, desastres e perda de pessoas próximas. Notícias e acontecimentos reais podem despertar preocupações.
13–18 anosJulgamento dos colegas, rejeição, aparência, apresentações, provas e desempenho escolar. Questões sociais e acontecimentos do mundo também podem preocupar.

Há sobreposição entre as fases e variação individual. Base: Nemours KidsHealth. 2

Medos comuns por idade. Primeiro ano: Estranhamento de pessoas pouco familiares. 1–2 anos: Medo de ficar longe dos cuidadores. 3–6 anos: Escuro, monstros, sonhos e barulhos fortes. 7–12 anos: Ferimentos, tempestades e perda de pessoas próximas. 13–18 anos: Julgamento, rejeição, provas e desempenho. Faixas aproximadas, com variações individuais. Medos comuns não são uma lista de diagnósticos.

Medo esperado para a idade também merece acolhimento

“Comum” não significa que a criança esteja fingindo ou que deva enfrentar tudo sozinha. Significa que aquela experiência pode ser compreendida dentro do desenvolvimento, considerando também sua intensidade e repercussão. 3

Uma criança de 5 anos, por exemplo, pode pedir companhia depois de um sonho assustador. Esse episódio é diferente de uma rotina em que, por medo intenso e persistente, ela deixa de dormir adequadamente e passa a evitar vários ambientes da casa. O exemplo ilustra por que a idade e o nome do medo não bastam para avaliar a situação.

Todos esses medos são fobias específicas?

Não. A tabela reúne medos e preocupações do desenvolvimento, não uma lista de diagnósticos. Quando o problema central é ficar longe dos responsáveis, pode ser necessário investigar ansiedade de separação. Quando predomina o medo de julgamento ou humilhação, a avaliação pode apontar para ansiedade social. 3

Como uma fobia específica pode aparecer no dia a dia?

A ansiedade pode aparecer no corpo, com palpitações, tremor, tontura ou náusea. Também pode surgir antes do encontro com aquilo que provoca medo, durante a antecipação de uma situação. 1, 4

Nas crianças, pode haver choro, irritação, resistência ou necessidade intensa de ficar perto de um adulto. Nem todas conseguem explicar o que estão sentindo. 3

Os exemplos a seguir são hipotéticos e ilustram dificuldades que merecem ser compreendidas na avaliação.

Em casa e nos passeios

Uma criança que teme insetos pode deixar de brincar no quintal e pedir que os adultos examinem cada cômodo antes de entrar. Um adolescente com medo de elevador pode desistir de visitar um amigo que mora em um andar alto, mesmo querendo participar do encontro.

Na escola

Uma atividade sobre animais pode despertar dias de preocupação. Em outra situação, o aluno pode evitar o pátio por receio de encontrar um cachorro nas proximidades e perder parte da convivência com os colegas.

Perguntar apenas se ele “gosta da escola” talvez não esclareça a dificuldade. Uma pergunta mais concreta seria: “Tem algum lugar ou alguma atividade lá que você está tentando evitar?”.

Nas consultas, vacinas e exames

O anúncio de uma coleta de sangue pode desencadear grande sofrimento. A família pode começar a adiar o exame repetidamente porque não sabe como ajudar. A dificuldade passa a envolver também o acesso a um cuidado necessário.

Essas situações precisam de um plano de atendimento que considere tanto o medo quanto as necessidades de saúde.

Quando suspeitar de fobia específica e procurar ajuda?

Procure avaliação quando o medo produz sofrimento importante ou limita sono, alimentação, escola, convivência, lazer ou cuidados de saúde. A frequência, a intensidade e as atividades evitadas ajudam o profissional a compreender a gravidade. 5

Algumas perguntas úteis para observar a rotina são:

  • O que meu filho gostaria de fazer, mas está deixando de fazer por medo?
  • Quanto tempo ele passa preocupado antes da situação?
  • Que mudanças a família precisa fazer para evitar aquilo que ele teme?
  • Ele consegue participar com algum apoio ou o sofrimento continua muito intenso?

A persistência, tipicamente por seis meses ou mais, integra os critérios diagnósticos da fobia específica. Isso não significa esperar seis meses para buscar ajuda se já existe sofrimento ou prejuízo. 1, 5

Se o medo de engasgar ou vomitar está restringindo a alimentação, a avaliação também deve investigar causas médicas e dificuldades alimentares. Não se deve presumir que toda recusa seja uma fobia. 3

Como é feita a avaliação?

A avaliação é clínica. O profissional conversa com a criança ou o adolescente e seus responsáveis, considera o desenvolvimento, a história de saúde, o início dos sintomas e suas consequências. Questionários podem ajudar, mas não substituem a entrevista e a observação. 5

Também é importante distinguir medo de desconforto sensorial ou dor. Por exemplo, evitar um som porque ele é muito incômodo exige compreender essa experiência, inclusive quando há diferenças do neurodesenvolvimento. 3

É necessário ter vivido um trauma?

Não é obrigatório identificar um acontecimento traumático. Algumas fobias estão ligadas a experiências assustadoras; em outras, o início é menos claro. Observar o medo de outras pessoas também pode influenciar a aprendizagem. Nenhum desses fatores, sozinho, explica todos os casos. 4

Fobia de elevador é a mesma coisa que agorafobia?

Não necessariamente. Na agorafobia, há medo de situações nas quais escapar ou conseguir ajuda seria difícil diante de sintomas incapacitantes. Uma fobia situacional pode se restringir ao elevador. A distinção exige avaliar o motivo do medo e os demais sintomas. 6

Qual é o tratamento das fobias específicas na infância e adolescência?

Terapia cognitivo-comportamental com exposição planejada

A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é recomendada para fobias específicas em crianças e adolescentes. Um componente central é a exposição: praticar o contato com aquilo que provoca medo, de forma planejada, segura e adaptada à pessoa. 6, 7

O terapeuta combina etapas e objetivos com a criança e a família. A prática permite testar previsões assustadoras e aprender formas de lidar com o desconforto. A proposta é recuperar participação e autonomia, com respeito à segurança real. 7

Existem diferentes formatos. No estudo ASPECT, realizado com participantes de 7 a 16 anos, uma intervenção com avaliação prévia e sessão intensiva de exposição apresentou resultados semelhantes aos da TCC em várias sessões no acompanhamento de seis meses. Isso não significa que uma sessão resolva todos os casos: a indicação e a evolução são individuais. 7

Qual é o papel dos medicamentos?

Medicamentos não são o tratamento de rotina da fobia específica isolada. A diretriz da AACAP não inclui esse diagnóstico nas recomendações medicamentosas, porque ele não estava representado como transtorno principal nos estudos farmacológicos analisados. 6

Classes como os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) podem ser consideradas quando existe outro transtorno de ansiedade associado com indicação de tratamento. Isso exige avaliar qual condição se pretende tratar. A avaliação médica é imprescindível para decidir sobre medicação e acompanhar benefícios e efeitos adversos. 6

O medo de agulhas precisa de algum cuidado diferente?

Pode precisar. Algumas pessoas apresentam tendência a desmaiar diante de sangue ou injeções. É importante informar esse histórico à equipe, pois ele modifica o planejamento. Em casos selecionados, o profissional pode ensinar técnicas específicas, como a tensão muscular aplicada, além do tratamento do medo. 8

O tratamento da fobia e o controle da dor durante um procedimento são cuidados complementares. Preparação adequada e medidas para reduzir dor continuam necessárias. O plano deve permitir o acesso aos cuidados indicados sem depender de sustos, ameaças ou improvisação no momento da vacina ou do exame. 8

O que os pais podem fazer para ajudar no dia a dia?

Escute antes de tentar convencer

Pergunte o que a criança imagina que pode acontecer. Evite ridicularizar, comparar com irmãos ou exigir que demonstre coragem. Conversar com respeito ajuda a compreender a experiência dela. 9

Uma fala possível é:

“Percebi que isso dá muito medo em você. Quero entender melhor para encontrarmos uma forma de ajudar.”

Combine o enfrentamento e respeite o plano terapêutico

Não surpreenda a criança com o objeto temido para “provar que não faz mal”. A aproximação deve ser combinada e, quando há fobia, orientada pelo profissional. 9

Tratar medo de animais, por exemplo, não exige tocar em um animal desconhecido. Os objetivos precisam fazer sentido para a vida da criança e preservar cuidados de segurança.

Observe quando a rotina passa a girar em torno da evitação

Cancelar repetidamente atividades ou mudar toda a organização familiar para impedir qualquer contato com o medo pode fazer parte da chamada acomodação familiar. Intervenções para ansiedade infantil trabalham a redução planejada dessas adaptações, junto do apoio à criança. 10

Essa pesquisa abrange transtornos de ansiedade na infância e não significa que uma mesma orientação sirva para toda fobia. A família pode discutir com a equipe o que manter, o que modificar e em qual ritmo. Acolhimento e supervisão necessários à idade continuam fazendo parte do cuidado.

Valorize tentativas concretas

Reconheça o esforço em uma etapa combinada, mesmo que ainda exista medo. Elogios específicos ajudam a mostrar o que a criança conseguiu praticar. 11

Por exemplo: “Você conseguiu participar da atividade que tinha combinado com a terapeuta”. Depois, vale perguntar o que foi difícil e levar essa informação ao acompanhamento.

Combine apoios com a escola e cuide da rotina

Família, escola e equipe podem planejar como apoiar a participação do aluno e acompanhar sua evolução. Metas possíveis e comunicação regular ajudam a ajustar o cuidado às dificuldades observadas. 11

Também vale observar a exposição a vídeos, jogos ou notícias assustadoras e adequá-la à idade. Sono regular e oportunidades de convivência e lazer complementam o cuidado. 9, 11

Se o medo está impedindo seu filho de participar de atividades ou receber cuidados de saúde, uma avaliação pode esclarecer a dificuldade e orientar os próximos passos. Conheça a formação e a trajetória do Dr. Luis Pimenta e os demais conteúdos sobre ansiedade na infância e adolescência.

Referências

  1. Substance Abuse and Mental Health Services Administration. DSM-IV to DSM-5 specific phobia comparison. In: Impact of the DSM-IV to DSM-5 changes on the National Survey on Drug Use and Health. Rockville (MD): SAMHSA; 2016. Table 3.11.
  2. Nemours KidsHealth. Childhood fears and worries. Revisão médica: Zachary Radcliff. Atualizado em setembro de 2023.
  3. Klein B, Rajendram R, Hrycko S, Poynter A, Ortiz-Alvarez O, Saunders N, et al. Anxiety in children and youth: Part 1 — Diagnosis. Paediatr Child Health. 2023;28(1):45–51.
  4. National Health Service. Phobias. Revisado em 11 de março de 2026.
  5. The Royal Children’s Hospital Melbourne. Clinical practice guidelines: anxiety — identification and management. Atualizado em abril de 2024.
  6. Walter HJ, Bukstein OG, Abright AR, Keable H, Ramtekkar U, Ripperger-Suhler J, et al. Clinical practice guideline for the assessment and treatment of children and adolescents with anxiety disorders. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2020;59(10):1107–1124. doi:10.1016/j.jaac.2020.05.005.
  7. Wright B, Tindall L, Scott AJ, Lee E, Cooper C, Biggs K, et al. One session treatment (OST) is equivalent to multi-session cognitive behavioral therapy (CBT) in children with specific phobias (ASPECT): results from a national non-inferiority randomized controlled trial. J Child Psychol Psychiatry. 2023;64(1):39–49. doi:10.1111/jcpp.13665.
  8. McMurtry CM, Taddio A, Noel M, Antony MM, Chambers CT, Asmundson GJ, et al. Exposure-based interventions for the management of individuals with high levels of needle fear across the lifespan: a clinical practice guideline and call for further research. Cogn Behav Ther. 2016;45(3):217–235. doi:10.1080/16506073.2016.1157204.
  9. American Academy of Pediatrics. Fears & phobias in children: how parents can help. HealthyChildren.org. Atualizado em 27 de setembro de 2023.
  10. Lebowitz ER, Marin C, Martino A, Shimshoni Y, Silverman WK. Parent-based treatment as efficacious as cognitive-behavioral therapy for childhood anxiety: a randomized noninferiority study of supportive parenting for anxious childhood emotions. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2020;59(3):362–372. doi:10.1016/j.jaac.2019.02.014.
  11. Bobbitt S, Kawamura A, Saunders N, Monga S, Penner M, Andrews D. Anxiety in children and youth: Part 2 — The management of anxiety disorders. Paediatr Child Health. 2023;28(1):60–66.

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Dr. Luis Pimenta

Psiquiatria da Infância e Adolescência – CRM 163289 | RQE 70571