Por Dr. Luis Pimenta
“Ele sabe a matéria, mas não termina a atividade.” “Ela é quietinha, só parece estar longe.” “Todo dia algum material fica para trás.” Essas descrições podem motivar uma investigação de TDAH, mas também podem ter outras explicações. Para compreender o que acontece, é preciso olhar além das notas e da quantidade de movimento.
Neste artigo, a idade escolar corresponde aproximadamente aos 6 aos 11 anos. A divisão é apenas uma referência: as exigências mudam conforme a série, o ambiente e o desenvolvimento de cada criança. O foco é perceber como ela consegue acompanhar as tarefas e a rotina, e de quanto apoio precisa.
Por que as dificuldades podem ficar mais visíveis na escola?
A entrada no ensino fundamental aumenta as demandas para ouvir instruções, esperar, registrar informações e concluir atividades. Dificuldades que antes eram menos perceptíveis podem chamar atenção nesse contexto. Isso não significa que a escola causou o transtorno. AAP: sinais iniciais de TDAH.
Uma observação útil é comparar situações. A criança acompanha melhor uma atividade breve e acompanhada do que uma tarefa longa e independente? Precisa de ajuda para compreender o conteúdo ou para organizar o que já sabe? Essas perguntas orientam a investigação sem antecipar uma resposta.
Desatenção: pode aparecer como dificuldade para acompanhar e concluir
A desatenção pode se manifestar em detalhes esquecidos, perda de instruções, distração durante atividades e dificuldade para chegar ao final de uma tarefa. A criança pode iniciar algo e se desviar antes de terminar. Esses sinais precisam ser persistentes e interpretados no contexto do desenvolvimento. CDC: sintomas de TDAH.
Exemplo ilustrativo: a professora orienta “leia o texto, responda às perguntas e entregue a folha”. A criança lê, responde parte das questões e guarda a atividade sem entregá-la. Para entender o episódio, vale perguntar qual etapa se perdeu, se ela entendeu a orientação e se isso se repete.
Outro exemplo ilustrativo: a aluna permanece sentada e não interrompe ninguém, mas frequentemente perde a sequência da explicação. Como seu comportamento não atrapalha a turma, a dificuldade pode receber menos atenção. TDAH pode ocorrer com predomínio de desatenção, sem hiperatividade evidente. AAP: apresentações e sintomas.
Organização: saber fazer e conseguir executar são coisas diferentes
Planejar etapas, separar materiais e lembrar compromissos fazem parte das demandas escolares. No cotidiano, dificuldades de organização podem aparecer como mochila desorganizada, trabalhos iniciados tarde ou materiais que não chegam ao lugar certo. NIMH: manifestações do TDAH.
Exemplo ilustrativo: uma criança explica oralmente o conteúdo com facilidade, mas leva muito tempo para começar a lição. Procura o livro, percebe que falta o lápis, abre outra página e precisa de ajuda para retomar. Descrever essas etapas é mais útil do que resumir o problema a “preguiça”.
Observe também o apoio que existe nos bastidores. Pergunte quem confere a agenda, prepara a mochila, lembra cada prazo e acompanha cada exercício. A nota final não mostra, sozinha, como o trabalho foi realizado.
Hiperatividade e impulsividade na sala e nas amizades
A criança pode se levantar em momentos inadequados, mexer repetidamente em objetos, falar antes de ouvir a pergunta inteira ou ter dificuldade para aguardar sua vez. Nas relações, interromper brincadeiras e conversas pode gerar conflitos. A avaliação considera o conjunto dos comportamentos, sem reduzir a criança a eles. AAP: informações para famílias.
Exemplo ilustrativo: no trabalho em grupo, um aluno responde pelos colegas e usa materiais antes de combinar. O adulto pode reconhecer sua vontade de participar e ajudá-lo a esperar uma etapa. Ao registrar a situação, interessa saber se isso ocorre repetidamente e como afeta a convivência.

Boas notas ou concentração em jogos descartam TDAH?
Nenhuma dessas observações resolve a questão isoladamente. O diagnóstico depende de um padrão de sintomas e prejuízos em diferentes contextos, não apenas do boletim. Da mesma forma, uma dificuldade restrita a uma matéria não deve ser automaticamente atribuída ao TDAH. CDC: diagnóstico.
Vale perguntar: a criança consegue acompanhar uma conversa, uma orientação e uma tarefa cotidiana? Há sofrimento ou conflitos? Quanto tempo e ajuda são necessários? A comparação entre diferentes atividades ajuda a entender as dificuldades e os recursos que ela já possui.
O que mais pode explicar dificuldades escolares?
Problemas de sono, ansiedade, depressão e dificuldades específicas de aprendizagem podem se parecer com TDAH ou coexistir com ele. A investigação também pode incluir audição e visão, conforme a história e a avaliação clínica. Não há um teste único que confirme o diagnóstico. CDC: avaliação diagnóstica.
Por exemplo, perder-se principalmente na leitura pode exigir investigação dessa habilidade. Já uma mudança recente após uma situação estressante pede atenção à história emocional. Esses exemplos mostram por que “não se concentra” é o começo da conversa, não sua conclusão.
A investigação do TDAH considera sintomas por pelo menos seis meses e prejuízos em mais de um ambiente. Esse prazo não significa esperar para buscar ajuda quando há preocupação com o desenvolvimento ou sofrimento. Diretriz da AAP.
Como família e escola podem observar melhor
Em vez de pedir apenas “um relatório sobre o comportamento”, proponha perguntas concretas:
- Em quais atividades a dificuldade aparece?
- Qual etapa exige mais ajuda: começar, continuar, revisar ou entregar?
- O que muda quando a instrução é curta ou há apoio visual?
- Como estão as brincadeiras, os trabalhos em grupo e as amizades?
- Quais habilidades, interesses e situações de sucesso a escola percebe?
Registre exemplos de dias diferentes, sem transformar a rotina em vigilância. Também converse com a criança: “Qual parte fica mais difícil para você?” pode trazer informações que os adultos ainda não perceberam.
Como ajudar no dia a dia
A colaboração entre família, escola e profissionais permite escolher estratégias conforme as necessidades. Intervenções comportamentais em sala e ensino de habilidades de organização fazem parte das abordagens utilizadas para TDAH. CDC: TDAH na sala de aula.
Como aplicação prática, pode-se testar uma lista curta para a mochila, dividir uma atividade em etapas visíveis e combinar pausas planejadas. Um lugar fixo para o material reduz o que precisa ser lembrado. Instruções podem ser checadas com uma pergunta acolhedora: “O que você vai fazer primeiro?”. AAP: organização do ambiente doméstico.
O apoio deve ser revisto: funcionou? Ficou trabalhoso demais? A criança consegue assumir uma parte com menos ajuda? Evite expor suas dificuldades diante da turma.
Quando procurar avaliação e como é o cuidado?
Procure avaliação quando houver dificuldades recorrentes na aprendizagem, na convivência ou na rotina, especialmente quando o apoio habitual não estiver sendo suficiente. Leve relatos da escola, exemplos de casa e informações sobre o desenvolvimento. Saiba mais em Como saber se meu filho tem TDAH?.
Se o diagnóstico for confirmado, o cuidado pode reunir orientação à família, intervenções escolares, estratégias comportamentais e medicamentos, conforme indicação individual. Para crianças a partir dos 6 anos, diretrizes incluem a combinação de tratamento medicamentoso e comportamental. O objetivo é melhorar o funcionamento e o bem-estar, acompanhando benefícios e dificuldades ao longo do tempo. CDC: tratamento.
Perguntas frequentes
Toda criança com TDAH vai mal na escola?
O desempenho varia. Avaliar apenas notas deixa de mostrar como a criança se organiza, participa e realiza as atividades.
Se é quieta, pode ter TDAH?
Pode haver predomínio de desatenção. Isso pode ocorrer em meninas e meninos; ser quieto, por si só, também não é sinal de transtorno.
É preciso esperar uma reprovação?
Não. Dificuldades persistentes e sofrimento merecem atenção antes de uma reprovação. A avaliação pode esclarecer quais apoios são necessários.
Leia também O que é TDAH? e visite a página de TDAH.
Conteúdo educativo. Os exemplos são fictícios e não substituem avaliação individual.
Referências
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Wolraich ML et al. Clinical Practice Guideline for the Diagnosis, Evaluation, and Treatment of Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder in Children and Adolescents. Pediatrics. 2019;144(4):e20192528. doi:10.1542/peds.2019-2528.
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American Academy of Pediatrics. Early Signs of ADHD in Children; Understanding ADHD: Information for Parents.
- American Academy of Pediatrics. Simplifying, Organizing, and Structuring the Home Environment.
- National Institute of Mental Health. Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder: What You Need to Know.
- CDC. Symptoms of ADHD; Diagnosing ADHD; ADHD in the Classroom; Treatment of ADHD.





