Por Dr. Luis Pimenta
“Meu filho se distrai muito.” “A professora diz que ele não termina as atividades.” “Em casa, tudo precisa ser lembrado várias vezes.” Quando essas situações se repetem, muitos pais começam a se perguntar se pode ser TDAH.
Para saber se uma criança tem TDAH, é necessária uma avaliação clínica que considere seu desenvolvimento, os sintomas em diferentes ambientes e o impacto na vida diária. Não é possível confirmar o diagnóstico apenas por um comportamento, um teste on-line ou uma queixa da escola. 1
O papel dos pais é reunir informações e buscar ajuda para compreender as dificuldades. Você não precisa chegar à consulta com um diagnóstico pronto.
Quando vale suspeitar de TDAH?
A suspeita envolve desatenção e/ou hiperatividade–impulsividade persistentes, incompatíveis com o desenvolvimento. Na avaliação, o profissional verifica: 2
- Persistência: sintomas presentes por pelo menos seis meses.
- História desde a infância: vários sintomas já existiam antes dos 12 anos, mesmo que o diagnóstico não tenha sido feito naquela época.
- Mais de um ambiente: sinais em pelo menos dois contextos, como casa, escola ou atividades sociais.
- Repercussão: interferência no funcionamento escolar, social ou familiar.
Esses pontos não são um teste para os pais. O profissional considera o conjunto dos critérios e outras explicações. 2
O período de seis meses é um critério diagnóstico, não uma recomendação para adiar ajuda quando a criança já está sofrendo.

Quais sinais podem chamar atenção em cada idade?
As expectativas mudam com o desenvolvimento. Na adolescência, a agitação pode diminuir e dificuldades de organização se tornar mais evidentes. 2, 3
| Fase aproximada | Exemplos de situações a investigar | Cuidado na interpretação |
|---|---|---|
| Pré-escola, 4–5 anos | Dificuldade muito frequente para esperar brevemente a vez ou participar de atividades compatíveis com a idade. | Crianças pequenas precisam se movimentar e dependem de ajuda dos adultos. Compare expectativas e demandas com o desenvolvimento. |
| Idade escolar, 6–11 anos | Perder materiais repetidamente, deixar atividades incompletas ou interromper colegas com frequência. | Descreva em quais tarefas isso acontece e se há dificuldades para compreender o conteúdo. |
| Adolescência, 12–17 anos | Esquecer entregas, perder prazos e se atrapalhar para organizar tarefas de diferentes matérias. | Escute o adolescente e recupere a história escolar anterior. A ausência de agitação visível não encerra a investigação. |
Os exemplos são ilustrativos, não critérios diagnósticos separados por idade. Uma criança não precisa apresentar todas essas situações para merecer atenção.
Antes dos 4 anos, o diagnóstico é particularmente difícil. Preocupações importantes com comportamento ou desenvolvimento devem ser discutidas com o pediatra, sem presumir que toda agitação seja TDAH. 3
Como diferenciar uma dificuldade ocasional de um padrão que merece avaliação?
Mais útil que perguntar apenas “ele se distrai?” é descrever a situação com detalhes. Considere dois exemplos hipotéticos:
- Uma criança esquece o estojo em um dia em que saiu de casa com pressa.
- Outra perde materiais várias vezes por semana, deixa tarefas pelo caminho e precisa de ajuda frequente tanto em casa quanto na escola, ao longo de meses.
O segundo relato oferece mais motivos para investigar, mas ainda não informa a causa. O próximo passo é entender o conjunto, sem transformar a comparação em diagnóstico.
Procure registrar:
- O que aconteceu e em qual atividade.
- Com que frequência isso se repete.
- Que dificuldade trouxe para a criança.
- Qual apoio foi oferecido e o que mudou depois.
Essas anotações podem ser breves. O objetivo é levar exemplos compreensíveis à consulta, sem vigiar cada movimento do seu filho.
Meu filho é quieto ou consegue se concentrar no videogame. Ainda pode ter TDAH?
Sim. Conseguir manter atenção em uma atividade muito envolvente não exclui TDAH. O desempenho pode variar conforme a tarefa e o contexto; esse comportamento também não confirma o transtorno. 4
Também é possível ter TDAH com predomínio de desatenção, sem hiperatividade evidente. Crianças que não atrapalham a aula podem ter dificuldades que passam despercebidas. 5
Por isso, pergunte tanto sobre comportamento quanto sobre a realização das atividades. “Ficou sentado” e “conseguiu acompanhar o que precisava fazer” são informações diferentes.
O que pode parecer TDAH, mas ter outra explicação?
Dificuldades de atenção e comportamento podem aparecer em várias condições. A avaliação precisa considerar outras causas e também a possibilidade de condições coexistirem. 6
| Possibilidade | Por que entra na investigação? |
|---|---|
| Problemas de sono | Podem comprometer concentração e memória durante o dia. |
| Ansiedade | Preocupações e inquietação podem se confundir com manifestações de TDAH. |
| Dificuldades de aprendizagem | Problemas em habilidades escolares específicas podem tornar algumas atividades especialmente difíceis. |
| Depressão, estresse ou mudanças importantes | Podem acompanhar alterações emocionais e de comportamento que exigem compreensão própria. |
Ter ansiedade ou uma dificuldade de aprendizagem não exclui TDAH. Identificar cada problema ajuda a escolher o cuidado adequado. 6
Leia também: ansiedade infantil ou TDAH: como diferenciar e quando podem coexistir.
Como funciona a avaliação de TDAH?
A avaliação inclui entrevistas, história do desenvolvimento e da saúde, conversa com a criança ou adolescente e informações de pessoas que acompanham sua rotina. A análise pode envolver condições como alterações de sono, audição ou visão, conforme a situação. 1
Qual é o papel da escola?
Relatos dos professores ajudam a compreender aprendizagem, comportamento e estratégias já utilizadas. Cadernos, atividades e relatórios anteriores podem complementar a história. 3
Em vez de pedir apenas “um relatório sobre TDAH”, você pode solicitar exemplos: em quais tarefas há dificuldade? O aluno entende a orientação? O que acontece quando a atividade é dividida em etapas? Há situações em que participa melhor?
Se família e escola descrevem comportamentos diferentes, é preciso investigar o motivo. A diferença não deve ser ignorada nem resolvida escolhendo automaticamente um dos relatos. Da mesma forma, ficar tranquilo em uma consulta não exclui o diagnóstico. 7
Questionários ou avaliação neuropsicológica confirmam TDAH?
Questionários são instrumentos de apoio; não fecham o diagnóstico sozinhos. Precisam ser interpretados junto com a história e o funcionamento da criança. 7
A avaliação neuropsicológica pode ser indicada para esclarecer questões específicas, como dificuldades cognitivas ou de aprendizagem. Não é obrigatória em todos os casos. Exames de sangue, eletroencefalograma, testes genéticos e exames de imagem também não são solicitados de rotina para confirmar TDAH; podem ser necessários por outras indicações clínicas. 7
Você pode iniciar a investigação pela consulta, sem contratar previamente uma bateria de exames.
O que levar à consulta quando há suspeita de TDAH?
Um roteiro simples pode facilitar a conversa:
- Sua principal preocupação. Escolha duas ou três situações que mais afetam a rotina.
- Quando começou. Anote o que lembra e possíveis mudanças recentes.
- Informações da escola. Separe relatórios, exemplos de atividades e observações dos professores, se disponíveis.
- Rotina de saúde. Conte sobre sono, medicamentos em uso e acompanhamentos anteriores.
- A perspectiva do seu filho. Registre o que ele considera difícil e em que gostaria de receber ajuda.
- O que já foi tentado. Inclua estratégias que ajudaram e as que não funcionaram.
Esse roteiro é uma sugestão de organização, não uma exigência para ser atendido. Não é necessário ter todos os documentos para procurar orientação.
O que fazer enquanto a avaliação acontece?
Ofereça instruções claras, ajude a organizar as tarefas e reconheça avanços específicos. Essas medidas podem apoiar o cotidiano, sem substituir a investigação. 8
Uma conversa possível seria: “Percebi que está difícil terminar as atividades. Quero entender o que atrapalha e pensar com você em formas de ajudar”. Com adolescentes, convide-os a escolher uma dificuldade concreta para começar.
Buscar avaliação não significa que a criança necessariamente receberá um diagnóstico ou uma prescrição. Se o TDAH for confirmado, o cuidado pode combinar intervenções comportamentais, participação da família e da escola e, quando indicado, medicamentos estimulantes ou não estimulantes. A decisão depende de avaliação individualizada. 9
Quando procurar um psiquiatra da infância e adolescência?
Vale buscar orientação quando as dificuldades se repetem, comprometem a vida diária ou geram dúvidas que família e escola não conseguem esclarecer. O pediatra pode ser um ponto de partida, e a avaliação em psiquiatria da infância e adolescência pode ajudar a compreender os sintomas e condições associadas.
Você não precisa ter certeza de que é TDAH para marcar uma consulta. Pode começar pela pergunta: “O que está dificultando o desenvolvimento do meu filho e como podemos ajudá-lo?”.
Conheça a formação e a atuação do Dr. Luis Pimenta e acesse os conteúdos da página sobre TDAH.
Este conteúdo é educativo e não substitui uma avaliação individualizada.
Referências
- Centers for Disease Control and Prevention. Diagnosing ADHD [Internet]. 2026 [citado em 14 set 2026].
- National Institute of Mental Health. Attention-deficit/hyperactivity disorder: what you need to know [Internet]. Bethesda: NIMH; 2024 [citado em 14 set 2026]. NIH Publication No. 24-MH-8300.
- American Academy of Pediatrics. Diagnosing ADHD in children: guidelines & information for parents. HealthyChildren.org [Internet]. 2017 [citado em 14 set 2026].
- American Academy of Pediatrics. 8 ADHD myths & misconceptions. HealthyChildren.org [Internet]. 2018 [citado em 14 set 2026].
- American Academy of Pediatrics. Understanding ADHD: information for parents. HealthyChildren.org [Internet]. 2019 [citado em 14 set 2026].
- Centers for Disease Control and Prevention. Other concerns and conditions with ADHD [Internet]. 2026 [citado em 14 set 2026].
- Bélanger SA, Andrews D, Gray C, Korczak D. ADHD in children and youth: part 1—etiology, diagnosis, and comorbidity. Paediatr Child Health. 2018;23(7):447–453. Reafirmado pela Canadian Paediatric Society em 2024.
- Centers for Disease Control and Prevention. Treatment of ADHD [Internet]. 2026 [citado em 14 set 2026].
- Feldman ME, Charach A, Bélanger SA. ADHD in children and youth: part 2—treatment. Paediatr Child Health. 2018;23(7):462–472. Reafirmado pela Canadian Paediatric Society em 2024.





