Por quanto tempo meu filho vai precisar tomar a medicação?

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Criança e mãe em consulta de acompanhamento com o médico

Por Dr. Luis Pimenta

Quanto tempo criança toma medicação? Não existe um prazo único para crianças e adolescentes que tomam medicação para ansiedade ou para o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). A duração depende do que levou à prescrição, de quanto o tratamento ajuda, dos efeitos adversos e de como a criança está no dia a dia. Mesmo sem saber de saída a data de parar, dá para combinar desde o começo o que vamos observar e quando vamos reavaliar [1][2].

Por que eu faço a pergunta da insulina?

Quando me perguntam "Doutor, mas até quando ele vai tomar esse remédio?", às vezes devolvo uma pergunta:

"Se eu estivesse falando que seu filho tem diabetes e prescrevendo insulina, você me faria essa mesma pergunta?"

É claro que faria sentido perguntar sobre a duração em qualquer tratamento. O que eu quero entender é o que está por trás da pergunta: a família quer organizar os próximos meses ou teme que começar um remédio para a saúde mental seja assumir um compromisso para a vida toda? A comparação ajuda a conversar sobre esse receio. Insulina e medicamentos psiquiátricos têm indicações e trajetórias diferentes. O ponto em comum é que, quando há uma necessidade de saúde, vale entendê-la e tratar enquanto houver indicação.

O que a enxaqueca ajuda a entender sobre começar?

Imagine uma situação: você tem enxaqueca e reconhece uma dor que, pela sua experiência, costuma aliviar se você se deitar por 10 a 15 minutos de olhos fechados. Nessa hora, você tomaria um analgésico? Agora imagine uma dor mais forte, daquelas em que você já sabe que repousar não costuma bastar. Você consideraria tomar a medicação prevista no seu plano de cuidado?

Uso essa analogia para falar da necessidade de iniciar. Quando escolho acompanhar sem prescrever, pode ser porque ainda não há uma indicação clara naquele momento. A decisão também considera os riscos do remédio e o que já é possível fazer com outros apoios. Quando o sofrimento é persistente ou as dificuldades comprometem a escola, as relações ou a vida em casa, pode ser hora de discutir se a medicação tem um papel. O diagnóstico é parte dessa avaliação; a experiência da criança no dia a dia ajuda a decidir o que ela precisa. A analogia vale para a decisão de iniciar. A forma de usar cada remédio é outra conversa: um antidepressivo, por exemplo, não é tomado apenas no dia em que a ansiedade aperta [1].

Como o prazo muda entre ansiedade e TDAH?

Na ansiedade, a primeira melhora não costuma ser a hora de parar. Uma criança pode voltar a entrar na escola e ainda passar a noite anterior muito preocupada. Quando um antidepressivo, como os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS), funcionou e foi bem tolerado, a diretriz da Academia Americana de Psiquiatria da Infância e Adolescência (AACAP) descreve uma abordagem geralmente aceita. Ela consiste em continuar uma dose eficaz por aproximadamente 12 meses depois da remissão, quando os sintomas já cederam de forma sustentada [1]. A própria diretriz diz que alguns jovens com quadros graves e crônicos podem precisar de tratamento mais longo. Ela também afirma que os efeitos do uso prolongado dos ISRS em jovens ainda precisam de pesquisa [1]. Esse prazo é uma referência, não uma contagem a partir da primeira receita nem uma data para a família suspender o remédio. A gravidade, a história de recaídas, a rotina e a evolução com a terapia cognitivo-comportamental (TCC) ajudam a decidir o momento. A diretriz também recomenda acompanhar por vários meses depois da suspensão, para perceber se os sintomas voltam. Em geral, a suspensão deve ocorrer em um período relativamente livre de estresse [1].

No TDAH, a pergunta é se o medicamento ainda ajuda o suficiente diante das demandas atuais. A rotina muda conforme a criança cresce. Pode haver mais autonomia, mas também mais tarefas para organizar e menos supervisão. O instituto de saúde do Reino Unido (NICE) recomenda que um profissional com formação e experiência no manejo do TDAH revise a medicação pelo menos uma vez por ano. A revisão é feita em conversa com a pessoa e, quando faz sentido, com a família, sobre continuar ou não o tratamento. Ela inclui os efeitos de doses esquecidas, reduções planejadas e períodos sem tratamento [2]. A mesma diretriz propõe considerar períodos de teste com suspensão ou redução da dose [2]. Essa revisão pode levar a manter, ajustar ou testar uma redução ou retirada supervisionada, conforme o equilíbrio entre benefício e efeitos adversos. A pausa nas férias escolares aparece na diretriz como opção quando o remédio afeta de forma significativa a altura da criança. O objetivo é permitir que ela recupere o crescimento [2]. Fora dessa situação, não há obrigação de fazer uma pausa nas férias nem uma idade em que todos devam parar.

Como eu converso sobre a possibilidade de retirar?

Nas consultas, eu volto à pergunta: o que mudou desde que começamos? Quero ouvir a criança ou o adolescente, a família e, quando faz sentido, a escola. Um exemplo fictício: uma criança que antes evitava trabalhos em grupo hoje consegue participar. Além de saber que ela voltou a participar, quero entender como se sente nessas situações, quais apoios tem e se o ganho se manteve ao longo dos meses.

Se houver motivo para considerar a retirada, combinamos um momento viável, o que observar e quando conversar de novo. O modo de retirar depende do medicamento. Para os ISRS e para os inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina, a AACAP recomenda retirada lenta, em redução gradual. A síndrome de descontinuação foi descrita depois de doses esquecidas ou de suspensão abrupta [1]. Uma revisão de 2023 recomenda que o médico converse com a família, desde o início, sobre essa possibilidade [3].

Se aparecerem sintomas depois de um ajuste, avalio o que mudou, quando começou e quanto interferiu na rotina. Pode ser uma dificuldade passageira, um efeito da redução ou o retorno do problema que motivou o tratamento. Uma revisão sistemática de 2025, com 12 estudos e 690 participantes de 2 a 18 anos, descreveu náusea, dor de cabeça e diarreia entre os sintomas depois de parar antidepressivos. Os autores notam que esses sintomas podem se parecer com o problema original ou piorá-lo [4]. A família não precisa decidir sozinha se deve retomar, reduzir ou suspender o remédio.

No encontro na clínica, algumas mães temiam iniciar e outras pediam que a possibilidade de medicar fosse considerada porque já viam o filho sofrer. As duas posições ajudam a lembrar o que queremos acompanhar: se a criança está sofrendo menos e conseguindo viver melhor. Se seu filho está começando agora, uma boa pergunta para levar à consulta é: "O que vamos observar para saber que está ajudando, e quando vamos conversar de novo sobre a necessidade de continuar?"

Quando procurar o médico antes da consulta marcada?

Entre em contato com quem prescreveu o remédio, sem esperar a próxima consulta, se acontecer qualquer uma destas situações:

  • Os sintomas que motivaram o tratamento voltaram ou pioraram depois de uma redução ou de uma mudança de remédio.
  • Apareceu mal-estar, náusea, dor de cabeça ou irritabilidade depois de esquecer doses ou de parar.
  • Seu filho ou adolescente diz que quer parar, ou parou por conta própria.
  • Um efeito adverso está atrapalhando o sono, o apetite ou a rotina da escola.
  • Seu filho fala em se machucar ou em morrer. Procure atendimento imediato.

Perguntas frequentes

Meu filho vai tomar remédio para sempre?

Não há como prometer isso de saída, nem o contrário. O que se combina é quando reavaliar: no TDAH, pelo menos uma vez por ano [2]; na ansiedade, depois da remissão, com acompanhamento por vários meses [1].

Posso parar quando ele melhorar?

Melhorar não é o mesmo que ficar em remissão de forma sustentada. Na ansiedade, a referência descrita pela AACAP é continuar por aproximadamente 12 meses depois da remissão [1]. Converse com o médico antes de suspender.

O que acontece depois que o remédio é retirado?

A AACAP recomenda acompanhar por vários meses depois da suspensão, para perceber se os sintomas voltam [1]. Um sintoma novo pode ser uma dificuldade passageira, um efeito da redução ou o retorno do problema que motivou o tratamento.

A pausa nas férias é obrigatória?

Não. O NICE cita a pausa planejada nas férias escolares como opção quando o remédio afeta de forma significativa a altura da criança [2].

Leia também sobre quando medicamentos são indicados na ansiedade infantil e sobre o medo de que o remédio vicie.

Se você quiser conversar sobre o tratamento do seu filho, atendo presencialmente em Bauru, no Jardim América, e por teleconsulta, de segunda a sexta, das 8h às 19h. O agendamento pode ser feito pelo WhatsApp.

Dr. Luis Pimenta, Médico Pediatra Pós Graduado em Psiquiatria da Infância e Adolescência · CRM-SP 163.289 · RQE 70.571
Atendimento presencial em Bauru e região, e teleconsulta.
Publicado em 7 de novembro de 2026 · Revisado em 7 de novembro de 2026

Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica.

Referências

  1. Walter HJ, Bukstein OG, Abright AR, et al. Clinical Practice Guideline for the Assessment and Treatment of Children and Adolescents With Anxiety Disorders. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2020;59(10):1107-1124. doi:10.1016/j.jaac.2020.05.005
  2. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Attention deficit hyperactivity disorder: diagnosis and management. Diretriz NG87, 2018, atualizada em 2019. Seções 1.8.7 e 1.10. Diretriz NG87
  3. Khan YS, Khoodoruth MAS, Albobali Y, Haddad PM. SSRI withdrawal syndrome in children and adolescents: a narrative literature review. Expert Opin Drug Saf. 2023;22(5):381-390. doi:10.1080/14740338.2023.2224557
  4. Wang J, Cosci F. Acute and persistent withdrawal syndromes following discontinuation of antidepressants in children and adolescents: a systematic review. Ther Adv Psychopharmacol. 2025;15:20451253251404780. doi:10.1177/20451253251404780

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Psiquiatria da Infância e Adolescência – CRM 163289 | RQE 70571