Por Dr. Luis Pimenta
Durante o dia, a criança parece cansada. À noite, demora para ir à cama, levanta várias vezes ou diz que não consegue “desligar”. Para a família, o sono se torna mais um momento difícil da rotina.
Problemas de sono podem acompanhar o TDAH, mas não devem ser atribuídos automaticamente ao transtorno. Entender o que acontece à noite é parte importante da avaliação e do tratamento.
“Não dorme bem” pode significar problemas diferentes
Há crianças que resistem a encerrar as atividades. Outras se deitam, mas demoram a adormecer. Algumas acordam repetidamente ou dormem por um tempo aparentemente suficiente e ainda assim despertam cansadas.
Cada situação pede perguntas diferentes. A rotina pode estar pouco previsível, a criança pode sentir medo ou o horário de deitar pode não acompanhar seu ritmo de sono. Na adolescência, a tendência a dormir mais tarde pode entrar em conflito com horários escolares cedo.
No TDAH, dificuldades de transição, ansiedade associada e efeitos de medicamentos podem participar. Há também transtornos do sono que precisam de cuidado próprio. [1,2]
Dormir mal pode parecer desatenção
Uma noite ruim pode comprometer o dia seguinte. Crianças nem sempre demonstram cansaço apenas ficando sonolentas: podem apresentar irritabilidade, inquietação e dificuldade para acompanhar atividades.
Isso não significa que todo TDAH seja causado pelo sono. Significa que o sono precisa ser considerado quando há dificuldades de atenção e comportamento.
Exemplo fictício: um menino passa a parecer muito distraído nas aulas. Os pais contam que ele ronca alto e acorda cansado. Esse relato direciona a investigação do sono; não é adequado concluir apenas que o TDAH piorou.
O que merece ser observado?
Registre por alguns dias os horários de deitar, adormecer e despertar, além das interrupções percebidas. Anote também como a criança funciona durante o dia. Um diário simples pode ajudar a consulta, sem substituir a avaliação.
Informe ronco habitual, pausas respiratórias percebidas, engasgos durante o sono, despertares frequentes e desconforto nas pernas ao repousar. Movimentar-se na cama, sozinho, não define um diagnóstico.
Se houver dificuldade respiratória importante ou coloração arroxeada, procure atendimento urgente. Não espere apenas uma consulta de rotina.

Como construir uma rotina favorável
- Mantenha horários regulares e viáveis: inclusive um horário de despertar relativamente estável.
- Prepare o encerramento do dia: avise a transição e reduza atividades muito estimulantes perto de dormir.
- Organize um ritual breve: higiene, história ou conversa tranquila, conforme a idade.
- Reveja telas e cafeína: observe seu uso à noite; energéticos não são uma solução para cansaço.
- Investigue preocupações: medo e ansiedade precisam de escuta, além de ajustes de horário.
Essas são medidas iniciais, não uma garantia de resolução. Intervenções comportamentais de sono podem ajudar crianças com TDAH e problemas de sono, mas devem ser adequadas à dificuldade identificada. [1]
E a medicação?
Se o sono mudou após início ou ajuste de um medicamento, comunique ao médico. O plano pode precisar de revisão. Não suspenda o tratamento nem ofereça melatonina, sedativos ou outros produtos por conta própria.
Tratar o TDAH não dispensa investigar ronco, ansiedade ou outros problemas que coexistam. Da mesma forma, melhorar a rotina de sono não substitui o tratamento do transtorno quando ele é necessário.
Quando procurar ajuda?
Procure avaliação quando o problema persiste, compromete o funcionamento durante o dia ou mantém a família em sofrimento. Ronco frequente e suspeita de pausas respiratórias merecem atenção médica.
Sono faz parte do cuidado, e não é apenas uma questão de obediência na hora de deitar. Um plano eficaz depende de compreender a criança e o que está dificultando seu descanso.
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Referências
- Hiscock H, Sciberras E, Mensah F, et al. Impact of a behavioural sleep intervention on symptoms and sleep in children with attention deficit hyperactivity disorder, and parental mental health: randomised controlled trial. BMJ. 2015;350:h68.
- Wolraich ML, Hagan JF Jr, Allan C, et al. Clinical Practice Guideline for the Diagnosis, Evaluation, and Treatment of Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder in Children and Adolescents. Pediatrics. 2019;144(4):e20192528.





