Psicoterapia para ansiedade infantil: como a TCC ajuda crianças e adolescentes

Home / Ansiedade / Psicoterapia para ansiedade infantil: como a TCC ajuda crianças e adolescentes

Veja também:

Psicoterapia para ansiedade infantil: terapeuta conversa com uma criança acompanhada pela mãe.

Por Dr. Luis Pimenta

Uma criança pode ouvir muitas vezes que está segura e, mesmo assim, continuar com medo. Pode querer participar de uma atividade, dormir no próprio quarto ou conversar com os colegas, mas sentir que não consegue. Nesses momentos, explicar que “não precisa ficar assim” costuma ser insuficiente.

A psicoterapia oferece um espaço para compreender essas dificuldades e trabalhar formas de lidar com elas. No tratamento dos transtornos de ansiedade na infância e na adolescência, a Terapia Cognitivo-Comportamental, conhecida como TCC, é uma das principais opções e a abordagem psicológica com maior respaldo científico. [1,2]

Seu objetivo é ajudar a criança a compreender o que sente, desenvolver recursos e recuperar a participação na vida cotidiana. Quando há indicação de medicamento, esses cuidados podem atuar juntos.

Qual psicoterapia é mais indicada para a ansiedade infantil?

A TCC é uma abordagem de primeira linha para os transtornos de ansiedade em crianças e adolescentes. Ela organiza o tratamento a partir das dificuldades de cada pessoa, com objetivos concretos e estratégias adequadas ao desenvolvimento. [1,2]

Isso não significa que toda criança precise do mesmo programa ou que outras abordagens não possam ajudar. A escolha considera a avaliação clínica, a idade, as condições associadas e as necessidades da família. Também importa que o profissional tenha experiência com ansiedade infantil e com as técnicas que pretende utilizar.

Para muitas crianças, especialmente em quadros leves a moderados, a psicoterapia pode ser o tratamento principal, sem necessidade de medicação. Em outras situações, o plano precisa combinar intervenções desde o início. [1]

Como a TCC funciona, em uma linguagem simples?

A TCC trabalha a relação entre o que a criança pensa, o que sente no corpo, suas emoções e o que faz diante de uma situação. [6]

Imagine uma criança que precisa responder a uma pergunta na sala de aula. Ela pensa: “Vou errar e todos vão rir”. O coração acelera, surge vergonha e ela abaixa a cabeça para não ser chamada.

Quando consegue escapar, sente alívio. Mas perde a oportunidade de descobrir que talvez ninguém risse, que poderia acertar ou que conseguiria lidar com um erro. Se isso se repete, participar pode parecer cada vez mais difícil.

Esse é um exemplo ilustrativo de como evitar uma situação pode aliviar o desconforto naquele momento e, ao mesmo tempo, manter o medo. A terapia ajuda a compreender esse ciclo e a experimentar outras respostas. [7]

O que acontece nas sessões?

Compreender a dificuldade antes de propor mudanças

O tratamento começa pela compreensão da criança e de seu contexto. Um mesmo comportamento pode ter explicações diferentes. Recusar uma atividade escolar, por exemplo, pode envolver medo de julgamento, dificuldades de aprendizagem ou uma experiência de humilhação.

Se existe um problema real no ambiente, ele também precisa ser enfrentado. A proposta não é ensinar a criança a suportar situações de violência ou transformar toda dificuldade em ansiedade. [4]

Reconhecer a ansiedade e seus sinais

A criança aprende a identificar o que acontece quando fica ansiosa: pensamentos, sensações e comportamentos. Recursos para lidar com a tensão podem fazer parte desse trabalho. Entender essas experiências ajuda a conversar sobre elas e a participar do tratamento. [6]

Examinar previsões assustadoras

O terapeuta ajuda a perceber quando uma possibilidade está sendo tratada como uma certeza: “Se eu errar, ninguém mais vai gostar de mim”. Juntos, procuram interpretações mais realistas e maneiras de verificar essas previsões. [6]

Perguntas como “O que você imagina que vai acontecer?” e “Como poderia lidar com isso?” abrem espaço para pensar. Não é preciso prometer que nada desagradável acontecerá: aprender a lidar com imprevistos também faz parte da vida.

Aproximar-se, aos poucos, do que provoca medo

Uma parte central da TCC para ansiedade é a exposição, nome dado à prática planejada de entrar em contato com situações temidas e seguras, reduzindo a evitação. [4,7]

O termo pode assustar, mas o trabalho é construído com a criança, em etapas e com apoio. Não consiste em surpreendê-la com aquilo que teme, humilhá-la ou obrigá-la a enfrentar um desafio sem preparação.

No exemplo da sala de aula, o plano poderia começar com uma fala breve para o terapeuta, depois para uma pessoa conhecida e, mais adiante, em um pequeno grupo. Essa sequência é apenas ilustrativa: os passos dependem da avaliação, da dificuldade e das condições da escola.

O aprendizado pretendido é algo como: “Posso sentir ansiedade e, com apoio e prática, conseguir participar”. Não é necessário eliminar toda ansiedade antes de tentar.

Levar o aprendizado para o cotidiano

Parte do trabalho acontece entre as sessões, com experiências combinadas e possíveis de realizar. Na ansiedade social, por exemplo, a prática de situações temidas é um componente recomendado do tratamento. [4]

O terapeuta acompanha o que aconteceu, identifica obstáculos e ajusta o plano. Uma tentativa difícil traz informações importantes; não deve virar motivo de bronca.

Ilustração de uma criança desenhando em sessão de psicoterapia, acompanhada pela mãe e pelo terapeuta.

A TCC funciona com crianças pequenas?

Existem estudos de TCC adaptada para crianças de 4 a 7 anos, com participação dos pais. O atendimento precisa considerar a linguagem, a capacidade de compreender emoções e o nível de desenvolvimento. [5]

Para uma criança pequena, conversar sobre medo pode envolver desenhos, histórias e brincadeiras. Os cuidadores ajudam a levar o trabalho para as situações de casa. Não se espera que ela compreenda explicações abstratas como um adulto.

Na adolescência, é importante construir objetivos que façam sentido para o jovem e favorecer sua participação nas decisões. A relação de confiança com o profissional também precisa de espaço. [4]

Por que a psicoterapia é uma base tão importante do tratamento?

Porque o cuidado envolve mais do que aliviar um momento de ansiedade. A terapia trabalha maneiras de reconhecer dificuldades, testar previsões, enfrentar situações e ampliar a autonomia. [6,7]

Na prática, isso pode significar voltar a apresentar um trabalho, permanecer em uma atividade ou fazer algo que vinha sendo evitado. São objetivos que aproximam o tratamento da vida da criança.

A participação da família ajuda nesse processo. Os pais podem aprender a acolher o sofrimento e apoiar tentativas, sem precisar resolver cada situação pelo filho. Esse trabalho não pressupõe culpa dos cuidadores; oferece ferramentas para uma dificuldade que afeta toda a família. [4,7]

Psicoterapia e medicação: uma substitui a outra?

Psicoterapia e medicação têm funções diferentes e podem se complementar. Fazer terapia não elimina automaticamente a necessidade de medicamento quando ele está indicado. Da mesma forma, a melhora com medicação não torna desnecessário o trabalho psicoterápico previsto para aquela criança.

Os medicamentos têm evidências de eficácia no tratamento de determinados transtornos de ansiedade. Podem reduzir sintomas e sofrimento, favorecendo o funcionamento cotidiano. Seu benefício não deve ser entendido como simplesmente “mascarar” o problema. A TCC, por sua vez, trabalha diretamente habilidades, interpretações e comportamentos relacionados à ansiedade. [2]

Em um importante estudo com crianças e adolescentes com ansiedade de separação, ansiedade generalizada ou ansiedade social, tanto a TCC quanto a medicação ajudaram; a combinação apresentou melhor resposta no período estudado. Isso apoia o tratamento combinado em situações indicadas, sem significar que todas as crianças precisem das duas intervenções. [3]

Quadros moderados ou graves podem justificar a combinação desde o início. A decisão é individual: não é obrigatório esperar a psicoterapia “falhar” para considerar medicação. A prescrição e o acompanhamento dos efeitos e riscos cabem ao médico. [1,2]

Como perceber se a terapia está ajudando?

Vale conversar com o profissional sobre mudanças concretas: a criança participa mais? Evita menos situações? Consegue realizar atividades importantes com maior autonomia? O sofrimento diminuiu? A avaliação da resposta deve acontecer ao longo do tratamento. [1]

Uma semana difícil não define todo o resultado. Se o avanço não aparece, o plano merece ser revisto, incluindo a compreensão do problema, as estratégias utilizadas e as barreiras à participação. Não existe uma quantidade de sessões que garanta o mesmo resultado para todos.

O objetivo é que a ansiedade ocupe menos espaço e a criança tenha mais liberdade para aprender, brincar, conviver e crescer.

Para conhecer outros aspectos do cuidado, acesse a página sobre ansiedade na infância e na adolescência.

Referências

  1. Bobbitt S, Kawamura A, Saunders N, Monga S, Penner M, Andrews D. Anxiety in children and youth: Part 2 — The management of anxiety disorders. Canadian Paediatric Society. Paediatrics & Child Health. 2023;28(1):60–66.
  2. Walter HJ, Bukstein OG, Abright AR, et al. Clinical Practice Guideline for the Assessment and Treatment of Children and Adolescents With Anxiety Disorders. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry. 2020;59(10):1107–1124.
  3. Walkup JT, Albano AM, Piacentini J, et al. Cognitive behavioral therapy, sertraline, or a combination in childhood anxiety. New England Journal of Medicine. 2008;359:2753–2766.
  4. National Institute for Health and Care Excellence. Social anxiety disorder: recognition, assessment and treatment. Clinical guideline CG159. 2013. Recomendações para crianças e adolescentes.
  5. Hirshfeld-Becker DR, Masek B, Henin A, et al. Cognitive behavioral therapy for 4- to 7-year-old children with anxiety disorders: a randomized clinical trial. Journal of Consulting and Clinical Psychology. 2010;78(4):498–510.
  6. American Academy of Child and Adolescent Psychiatry. Psychotherapy for Children and Adolescents: Different Types. Facts for Families, nº 86.
  7. American Academy of Child and Adolescent Psychiatry; American Psychiatric Association. Anxiety Disorders: Parents’ Medication Guide. Seção sobre tratamentos psicossociais.

Gostou do post? Compartilhe!

Por:

Foto de Dr. Luis Pimenta

Dr. Luis Pimenta

Psiquiatria da Infância e Adolescência – CRM 163289 | RQE 70571