Por Dr. Luis Pimenta
Nem sempre a ansiedade aparece como inquietação, preocupação evidente ou medo excessivo. Às vezes, o que chama a atenção é uma dor de barriga que volta, uma dor de cabeça frequente ou a sensação de que está faltando ar.
A criança pode não dizer “estou ansiosa”. Pode dizer “minha barriga está doendo” — e essa dor é real.
Para muitas famílias, a dúvida surge depois de consultas com o pediatra e dos exames considerados necessários: “Se não apareceu nada que explique, por que meu filho continua sentindo isso?”.
Essa pergunta merece escuta, não uma resposta apressada. A ansiedade pode participar desses sintomas, mas exames sem alterações não comprovam, sozinhos, uma origem emocional. É preciso compreender a criança, sua saúde e o contexto em que o desconforto acontece.
Quando a investigação não encontra uma “causa”
Não identificar uma doença que explique a queixa é diferente de concluir que não existe sofrimento.
Na dor abdominal funcional, por exemplo, podem existir alterações na sensibilidade e no funcionamento do aparelho digestivo, sem uma lesão que apareça nos exames habituais. O intestino e o cérebro se comunicam continuamente; estresse e ansiedade podem influenciar essa comunicação. Isso não transforma a dor em algo inventado. [1,2]
Também não significa que toda dor funcional seja causada por um transtorno de ansiedade. Há diferentes fatores envolvidos, e o diagnóstico depende da avaliação clínica.
O cuidado pode, portanto, mudar de direção: além de investigar doenças quando indicado, passa a incluir o funcionamento do organismo, as emoções e o impacto dos sintomas na vida da criança. Não é necessário escolher entre cuidar do corpo ou da saúde mental.
1. Dor de barriga recorrente: a queixa que volta
Imagine uma criança que reclama de dor abdominal várias manhãs por semana. Já foi avaliada pelo pediatra, que não identificou sinais de uma doença que explique o quadro. Ainda assim, a dor atrapalha a saída de casa e a participação nas aulas.
Em uma conversa mais ampla, pode aparecer o medo de errar na frente da turma, uma dificuldade de aprendizagem ou um conflito com colegas. Em outra criança, o contexto pode ser uma mudança familiar. Esse exemplo é ilustrativo, não uma regra para interpretar toda dor antes da escola.
A dor pode acompanhar náusea ou vontade de evacuar. Observar quando ocorre ajuda o profissional, mas o horário, o local da dor ou a melhora nos fins de semana não estabelecem um diagnóstico. [1]
Em vez de perguntar “você está inventando para não ir?”, uma abordagem possível é: “Eu acredito que está doendo. Vamos entender o que acontece e como ajudar”.
Perda de peso, sangue nas fezes, febre persistente ou mudança importante no padrão da dor precisam ser comunicados ao pediatra, mesmo que uma avaliação anterior tenha sido tranquilizadora. [1]
2. Dor de cabeça: o estresse pode participar, mas não explica tudo
A criança pode reclamar de peso, aperto ou dor na cabeça, pedir para interromper atividades ou procurar um lugar mais tranquilo. Estresse, sono inadequado e mudanças na rotina podem participar das crises. [3,4]
A expressão “dor de cabeça emocional” precisa ser usada com cuidado: não é um diagnóstico específico. Crianças também podem ter enxaqueca e outros tipos de cefaleia, que podem ser influenciados pelo estresse. Não encontrar alterações em exames não torna a dor automaticamente “psicológica”. [3]
Um exemplo ilustrativo é o adolescente que começa a ter dores frequentes em uma fase de provas. A avaliação deve considerar tanto as características da dor quanto o sono, a alimentação, as cobranças e outros aspectos de sua saúde — sem presumir uma explicação única.
Se as dores se repetem ou prejudicam a rotina, vale procurar o pediatra e levar informações sobre os episódios e os medicamentos utilizados.

3. Falta de ar: ansiedade e asma não são a mesma coisa
A ansiedade pode vir acompanhada de respiração acelerada, aperto no peito ou sensação de não conseguir completar uma inspiração. Para a criança, essa experiência pode ser assustadora e aumentar ainda mais o desconforto. [5,6]
Em algumas situações, episódios de falta de ar inicialmente atribuídos à asma precisam ser reavaliados: a ansiedade pode estar participando do quadro ou ser a principal explicação para determinados episódios. Isso só pode ser estabelecido por avaliação profissional.
Asma e ansiedade também podem coexistir. Ter ansiedade não exclui doença respiratória, e ter asma não significa que todo desconforto respiratório tenha a mesma origem. Uma doença respiratória pode provocar medo, e esse medo pode intensificar a percepção de falta de ar. [5]
Por isso, a mensagem não é “trocar a bombinha por uma explicação emocional”. É revisar o diagnóstico e o plano de cuidado com o médico quando os episódios se repetem ou não evoluem como esperado.
Não suspenda, aumente ou substitua a medicação prescrita por conta própria. Se a criança tem asma, siga o plano de ação recebido. Uma falta de ar intensa, nova ou diferente das crises habituais não deve ser tratada em casa como “apenas ansiedade”. [5,7]
4. Tremores: quando a criança sente o corpo tremer
As mãos podem tremer ao segurar um objeto, ou a criança pode contar que sente as pernas bambas ou o corpo “tremendo por dentro”. Essas sensações podem acompanhar ansiedade intensa, mas não são exclusivas dela. [6,8]
Cansaço, cafeína e alguns medicamentos também podem tornar os tremores mais perceptíveis. Se são persistentes, aumentam ou atrapalham atividades, precisam de avaliação. [8]
Leve à consulta a lista de medicamentos e suplementos utilizados. Não interrompa um tratamento por suspeitar que ele esteja causando tremores; essa decisão deve ser discutida com o profissional responsável.
5. Taquicardia e palpitações: “meu coração está disparado”
O coração pode acelerar em situações de tensão. A criança pode perceber as batidas mais fortes e ficar assustada com essa sensação.
Palpitação é a percepção dos batimentos; taquicardia é uma frequência cardíaca aumentada, interpretada conforme a idade e a situação. Não existe um único número que sirva para todas as crianças, em qualquer momento. [9]
Atividade física, febre, desidratação, cafeína, medicamentos e alterações do ritmo cardíaco são outras possibilidades que o médico considera. Por isso, episódios recorrentes ou sem explicação clara merecem avaliação, sobretudo quando acompanhados de tontura, desmaio, dor no peito ou falta de ar. [9]
Sentir o coração acelerar não confirma ansiedade e, isoladamente, também não confirma transtorno do pânico.
Quando procurar atendimento imediato
Mesmo em uma criança que já recebeu diagnóstico de ansiedade, procure atendimento de urgência diante de:
- Dificuldade importante para respirar, esforço visível para respirar, lábios azulados ou alteração da consciência. [7]
- Palpitações acompanhadas de desmaio, dor importante no peito ou dificuldade respiratória. [9]
- Dor de cabeça súbita e muito intensa ou acompanhada de alterações neurológicas, como dificuldade para falar ou fraqueza. [3]
Esses exemplos não esgotam os sinais de alerta. Se a criança parece muito doente ou o quadro é intenso e diferente do habitual, não espere para atribuí-lo à ansiedade.
O que observar sem transformar a casa em um consultório
Um registro breve pode ajudar: quando começou, quanto durou, o que a criança estava fazendo e como o episódio afetou suas atividades. Não é necessário interrogá-la nem verificar seu corpo repetidamente.
Na consulta, também vale contar sobre mudanças no sono, na escola e em casa. A criança pode precisar de tempo para falar do que vive — e nem sempre reconhecerá uma preocupação associada ao sintoma.
Problemas com colegas, dificuldades escolares, mudanças familiares e outras fontes de estresse merecem atenção por si mesmos. Investigar o contexto não significa culpar os pais ou a escola; significa ampliar a compreensão do sofrimento. [10]
Como ajudar depois da avaliação
O plano depende do que foi identificado. Pode envolver acompanhamento pediátrico, orientações à família e à escola e cuidado psicológico ou psiquiátrico quando indicado. No caso de sintomas digestivos funcionais, intervenções psicológicas podem integrar o tratamento da dor, mesmo sem um transtorno de ansiedade associado. [1,11]
Em casa, acolha a queixa e siga as orientações combinadas. Evite frases como “é coisa da sua cabeça” ou “você não tem nada”. Uma alternativa é: “O que você sente é real. Estamos entendendo o que acontece e temos um plano para cuidar disso”.
O objetivo não é apenas reduzir sintomas: é ajudar a criança a recuperar segurança e participação nas atividades, respeitando sua condição clínica e corrigindo problemas reais do ambiente.
Reconhecer não é diagnosticar
Dor de barriga, dor de cabeça, tremores, coração acelerado e falta de ar podem ser formas de apresentação da ansiedade. Mas nenhum desses sintomas, isoladamente, identifica sua causa.
A pergunta mais útil não é somente “isso é ansiedade?”, e sim: “O que está acontecendo com esta criança e de que cuidado ela precisa?”
Para entender essa avaliação, leia também Diagnóstico da ansiedade infantil: por que é preciso olhar além dos sintomas e conheça os conteúdos da página sobre ansiedade infantil.
Conteúdo informativo. Não substitui avaliação individual nem orienta mudanças em tratamentos prescritos.
Referências
- Patel S; Bousvaros A (editor). Functional Abdominal Pain. GiKids / North American Society for Pediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition. 2021.
- GiKids / NASPGHAN. Irritable Bowel Syndrome. Material educativo sobre distúrbios da interação intestino-cérebro.
- The Royal Children’s Hospital Melbourne. Clinical Practice Guidelines: Headache.
- American Academy of Pediatrics. Helping Children Handle Stress. HealthyChildren.org.
- Dartford and Gravesham NHS Trust. Anxiety and respiratory illness. Atualização de 21 de outubro de 2024.
- National Institute of Mental Health. Panic Disorder: What You Need to Know.
- NHS. Shortness of breath.
- NHS. Tremor or shaking hands.
- Kilinc O, Snyder CS. Fast, Slow and Irregular Heartbeats (Arrythmia). American Academy of Pediatrics / HealthyChildren.org.
- Klein B, Rajendram R, Hrycko S, et al. Anxiety in children and youth: Part 1—Diagnosis. Paediatrics & Child Health. 2023;28(1):45–51.
- GiKids / NASPGHAN. Cognitive-Behavioral Therapy.





