Por Dr. Luis Pimenta
“Meu filho recebeu um diagnóstico de ansiedade. Isso significa que vai precisar tomar remédio?”
Não. Nem toda criança ou adolescente com um transtorno de ansiedade precisa de medicação. O diagnóstico ajuda a compreender a dificuldade; a escolha do tratamento depende também do sofrimento, do impacto na rotina, da idade, do contexto e da resposta às intervenções. [1,3]
Para muitas crianças, a psicoterapia, especialmente a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), associada à orientação da família e ao apoio da escola, pode ser suficiente. Em outras, o medicamento pode oferecer um benefício importante e fazer parte do cuidado desde o início.
A indicação, a escolha do medicamento e os ajustes são decisões médicas, discutidas com os responsáveis e, de forma adequada à idade, com a própria criança ou adolescente.
Quando o médico pode considerar a medicação?
A intensidade dos sintomas e o quanto eles limitam a vida são elementos importantes. A medicação pode ser considerada quando há sofrimento relevante, prejuízo significativo ou resposta insuficiente à psicoterapia. Em quadros moderados ou graves, a associação com TCC pode ser indicada desde o início. [1,3]
Antes disso, é necessário compreender o que está acontecendo. Medos esperados do desenvolvimento, conflitos familiares, bullying, dificuldades de aprendizagem e outros transtornos podem produzir comportamentos parecidos com ansiedade. Um medicamento não resolve sozinho um problema real na escola ou em casa.
O objetivo do cuidado é permitir que a criança volte a participar da vida com menos sofrimento: estudar, conviver, brincar, dormir e desenvolver autonomia. A decisão não deve se basear apenas no desejo de que ela fique mais quieta.
Leia também sobre o diagnóstico da ansiedade infantil.

O que significa primeira ou segunda linha?
Primeira linha medicamentosa é a opção geralmente priorizada quando existe indicação de remédio, considerando as evidências de benefício e segurança. Isso não significa que o medicamento seja necessário para toda criança.
Segunda linha costuma se referir a alternativas consideradas quando a primeira opção não foi suficiente, não foi tolerada ou não é adequada à situação. Não existe uma escada única que toda criança deva percorrer. A diretriz da AACAP reconhece tanto os ISRS quanto os IRSN como opções com evidência, com suporte mais amplo para os ISRS. [1]
Os medicamentos abaixo são apresentados pelos nomes genéricos. A presença de um nome neste artigo não significa que ele seja indicado para qualquer idade ou para todos os tipos de ansiedade.
Primeira escolha medicamentosa: os ISRS
Os inibidores seletivos da recaptação de serotonina — ISRS são a principal classe utilizada quando há indicação de tratamento medicamentoso para ansiedade na infância e na adolescência. [1,4]
Entre os medicamentos com estudos em ansiedade pediátrica estão sertralina, fluoxetina, escitalopram e fluvoxamina. A quantidade de evidência varia conforme o medicamento, a idade e o transtorno estudado. Citalopram também pertence à classe, mas tem evidência pediátrica menos robusta e não deve ser considerado automaticamente equivalente às opções mais estudadas. [1,2,6]
Embora sejam conhecidos como antidepressivos, esses medicamentos também podem tratar transtornos de ansiedade. Receber essa prescrição não significa que a criança tenha depressão.
Eles modificam a sinalização da serotonina, uma das substâncias envolvidas na comunicação entre células nervosas. Isso não demonstra que a ansiedade seja simplesmente uma “falta de serotonina”: seu desenvolvimento envolve fatores biológicos, psicológicos e ambientais. [5]
Quais efeitos adversos podem acontecer?
Podem ocorrer náusea, desconforto abdominal, diarreia, dor de cabeça, alterações do sono e do apetite. Algumas pessoas apresentam sonolência; outras, dificuldade para dormir. Também podem ocorrer alterações da função sexual, assunto que merece abordagem cuidadosa e reservada com adolescentes. [2,3]
Um efeito que exige atenção é a ativação: aumento de inquietação, irritabilidade, impulsividade ou insônia, principalmente no início ou após mudanças de dose. A família deve comunicar essas alterações ao médico. [2]
Paroxetina também é um ISRS, mas geralmente é evitada nessa população por seu perfil menos favorável, incluindo maior dificuldade relacionada à interrupção do tratamento. O fato de dois medicamentos pertencerem à mesma classe não os torna intercambiáveis sem avaliação. [3,4]
Alternativas com evidência: os IRSN
Os inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina — IRSN incluem duloxetina e venlafaxina. Podem ser considerados como alternativas, frequentemente após intolerância ou resposta insuficiente a um ISRS, embora a escolha não siga uma sequência obrigatória. [1]
A duloxetina tem estudo controlado em crianças e adolescentes com transtorno de ansiedade generalizada. A venlafaxina também foi estudada em ansiedade pediátrica, mas a tolerabilidade, os efeitos cardiovasculares e os sintomas de retirada merecem atenção. [1,4,7]
Quais efeitos adversos podem acontecer?
Podem ocorrer náusea, desconforto gastrointestinal, dor de cabeça, tontura, boca seca, alterações do sono e do apetite. Ativação também pode acontecer. É necessário acompanhar pressão arterial e frequência cardíaca, além de peso e crescimento conforme o caso. Alterações sexuais também são possíveis. [2,3,7]
A interrupção abrupta, especialmente da venlafaxina, pode provocar sintomas de retirada. Isso reforça a importância de um plano médico para mudanças ou suspensão.
Outros medicamentos: usos específicos e evidência mais limitada
As opções a seguir não formam uma lista de tratamentos equivalentes aos ISRS e IRSN. Algumas podem ser utilizadas pontualmente; outras têm evidência principalmente em adultos ou em grupos pediátricos específicos. Não devem ser apresentadas como o “próximo remédio” automático quando uma criança não melhora. [1,2,5]
Os efeitos descritos são os conhecidos para os medicamentos; nas opções pouco estudadas em ansiedade infantil, não há dados suficientes para estabelecer com precisão sua frequência nesse contexto.
| Classe e exemplos genéricos | Papel e limites na ansiedade infantil | Efeitos adversos e cuidados relevantes |
|---|---|---|
| Benzodiazepínicos: clonazepam, lorazepam e alprazolam | Podem ter uso breve e excepcional, sob supervisão. Não são a base habitual do tratamento continuado da ansiedade pediátrica. | Sonolência, tontura e redução da coordenação; podem prejudicar memória e atenção ou provocar desinibição. Há risco de dependência e abstinência, sobretudo com uso prolongado. [2] |
| Anti-histamínicos sedativos: hidroxizina; difenidramina aparece em referências internacionais | Às vezes usados por períodos curtos em situações específicas. A sedação não comprova tratamento do transtorno, e a evidência para controle sustentado da ansiedade infantil é limitada. | Sonolência e boca seca; podem ocorrer agitação paradoxal e, em situações de risco, alterações do ritmo cardíaco. [2] |
| Ansiolítico serotoninérgico não benzodiazepínico: buspirona | Os ensaios pediátricos disponíveis em ansiedade generalizada não demonstraram superioridade sobre placebo. Não tem o mesmo respaldo das opções de primeira linha. | Tontura, sensação de cabeça leve e cansaço. [2,8] |
| Antidepressivo de outro perfil farmacológico: mirtazapina | Evidência pediátrica ainda limitada. Um pequeno estudo em jovens com TEA e ansiedade não demonstrou diferença estatisticamente significativa frente ao placebo; seus resultados não podem ser generalizados para toda criança ansiosa. | Sonolência, aumento do apetite e ganho de peso; também pode ocorrer tontura. [9,10] |
| Antidepressivos tricíclicos: imipramina e clomipramina | Não são escolhas usuais para os transtornos de ansiedade comuns na infância. A clomipramina tem papel em TOC, que é um diagnóstico diferente e exige abordagem própria. | Boca seca, sonolência, constipação e ganho de peso. A segurança cardíaca e a toxicidade em superdosagem exigem cuidados adicionais. [2,5] |
| Gabapentinoides: pregabalina e gabapentina | Aparecem em referências de ansiedade em adultos, mas faltam evidências robustas para recomendá-los rotineiramente para ansiedade pediátrica. | Sonolência, tontura e dificuldade de coordenação; ganho de peso e inchaço podem ocorrer, particularmente com pregabalina. [5,11] |
| Betabloqueador: propranolol | Pode ser considerado em situações selecionadas de ansiedade de desempenho, com evidência pediátrica limitada. Não é tratamento habitual do conjunto de preocupações e evitações de um transtorno de ansiedade. | Cansaço, tontura, queda da pressão e redução da frequência cardíaca. Pode provocar broncoespasmo e é contraindicado em asma. [2,12] |
O uso de medicamentos para outra condição associada também precisa ser diferenciado do tratamento da ansiedade em si. Ter TDAH, TOC ou outro diagnóstico pode mudar o plano, mas não torna todas as medicações dessas condições tratamentos para ansiedade.
E se o primeiro medicamento não ajudar?
Antes de concluir que “nenhum remédio funciona”, o médico precisa rever a hipótese diagnóstica, a regularidade do uso, o tempo de tratamento, a dose prescrita, os efeitos adversos e as condições associadas. Também importa avaliar o acesso à psicoterapia e se permanecem fatores de sofrimento no ambiente.
Em algumas situações, pode ser considerada a troca por outro ISRS; em outras, um IRSN ou uma estratégia individualizada. Associar vários medicamentos não deve ser uma resposta automática à persistência de sintomas.
Referências gerais como o Stahl ajudam a compreender as classes e seus mecanismos. Uma opção descrita para adultos, porém, não se torna automaticamente uma recomendação para crianças. Por isso, as decisões pediátricas devem considerar estudos nessa faixa etária e diretrizes específicas. [1,5]
Quanto tempo demora para melhorar?
ISRS e IRSN não costumam funcionar como um medicamento de alívio imediato. O benefício aparece progressivamente ao longo de semanas, e a avaliação adequada pode exigir ajustes e acompanhamento por mais tempo. [2]
Melhorar também não significa interromper o tratamento imediatamente. O médico planeja a manutenção e, quando indicado, a retirada gradual, considerando a estabilidade, o funcionamento e o contexto da criança.
Sintomas de retirada não são sinônimo de dependência. Antidepressivos não costumam produzir o padrão de busca compulsiva associado à dependência, mas sua interrupção abrupta pode causar mal-estar, tontura, irritabilidade e alterações do sono. Benzodiazepínicos apresentam um risco distinto de dependência. Não se deve iniciar, trocar ou suspender medicamentos por conta própria. [2,5]
Quais mudanças devem ser comunicadas ao médico?
O acompanhamento deve observar tanto os benefícios quanto mudanças no sono, apetite, comportamento, humor e funcionamento cotidiano. Agitação importante, irritabilidade intensa ou comportamento muito diferente do habitual merecem contato rápido com o prescritor.
Os antidepressivos têm advertência sobre possível aumento de pensamentos ou comportamentos suicidas em jovens. Isso exige monitoramento, especialmente no início e após ajustes, sem significar que esse efeito acontecerá com toda criança. O sofrimento do próprio transtorno também precisa ser considerado. [1,3,4]
Falas sobre morrer ou se machucar, autoagressão ou risco imediato exigem avaliação urgente. Nessa situação, mantenha a criança acompanhada e procure um serviço de urgência. Reações graves, como dificuldade respiratória, desmaio ou confusão importante, também precisam de atendimento imediato.
O medicamento substitui a psicoterapia?
A medicação pode reduzir o sofrimento e facilitar a retomada de atividades. A psicoterapia trabalha habilidades para lidar com pensamentos, sensações, medos e comportamentos de evitação. Quando ambas estão indicadas, uma não torna a outra dispensável. [1,4]
Algumas crianças melhoram com psicoterapia sem precisar de remédio. Outras se beneficiam da combinação. Precisar de medicação não representa fracasso da criança, dos pais ou do terapeuta; não precisar também não significa que o sofrimento seja pouco importante.
Conheça o papel da TCC no tratamento da ansiedade infantil.
O que a família precisa saber sobre a prescrição?
Vale sair da consulta entendendo por que aquele medicamento foi escolhido, qual benefício se espera, quais efeitos observar e como entrar em contato se houver problemas. Informe todos os medicamentos, suplementos e outras substâncias utilizados.
Alguns usos em psiquiatria infantil são off-label, isto é, fora da indicação ou faixa etária prevista na bula daquele produto. Isso não significa necessariamente ausência de evidência, mas exige justificativa clínica, explicação à família e acompanhamento. Evidência científica e aprovação regulatória são questões diferentes; uma aprovação em outro país não equivale automaticamente à indicação em bula no Brasil. [3]
A mensagem principal permanece: o diagnóstico de ansiedade não determina sozinho a necessidade de medicação. O plano é construído para aquela criança, com avaliação médica e acompanhamento da resposta.
Referências
- Walter HJ, Bukstein OG, Abright AR, et al. Clinical Practice Guideline for the Assessment and Treatment of Children and Adolescents With Anxiety Disorders. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry. 2020;59(10):1107–1124.
- American Academy of Child and Adolescent Psychiatry; American Psychiatric Association. Anxiety Disorders: Parents’ Medication Guide. 2020. Seções sobre escolha, efeitos adversos e acompanhamento dos medicamentos.
- Bobbitt S, Kawamura A, Saunders N, et al. Anxiety in children and youth: Part 2 — The management of anxiety disorders. Paediatrics & Child Health. 2023;28(1):60–66.
- Rapee RM. Perturbações de ansiedade em crianças e adolescentes: natureza, desenvolvimento, tratamento e prevenção. In: Rey JM, Martin A, eds. IACAPAP e-Textbook of Child and Adolescent Mental Health. Capítulo F.1. Edição em português, 2020; texto original atualizado em 2018.
- Stahl SM. Stahl psicofarmacologia: bases neurocientíficas e aplicações práticas. 5ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2022. Capítulos sobre antidepressivos e transtornos de ansiedade. Utilizado como referência de farmacologia geral, em conjunto com as evidências pediátricas.
- Strawn JR, et al. A Multicenter Double-Blind, Placebo-Controlled Trial of Escitalopram in Children and Adolescents with Generalized Anxiety Disorder. Journal of Child and Adolescent Psychopharmacology. 2023;33(3):91–100. Errata: 2023;33(5):200.
- Strawn JR, Prakash A, Zhang Q, et al. A randomized, placebo-controlled study of duloxetine for the treatment of children and adolescents with generalized anxiety disorder. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry. 2015;54(4):283–293.
- Strawn JR, et al. Buspirone in Children and Adolescents with Anxiety: A Review and Bayesian Analysis of Abandoned Randomized Controlled Trials. Journal of Child and Adolescent Psychopharmacology. 2018;28(1):2–9.
- McDougle CJ, et al. A randomized double-blind, placebo-controlled pilot trial of mirtazapine for anxiety in children and adolescents with autism spectrum disorder. Neuropsychopharmacology. 2022;47(6):1263–1270.
- DailyMed. Mirtazapine tablets: informações de prescrição, seções de reações adversas e advertências. Consulta em setembro de 2026.
- DailyMed. Pregabalin capsules: informações de prescrição, seções de reações adversas e advertências. Consulta em setembro de 2026.
- DailyMed. Propranolol hydrochloride tablets: informações de prescrição, seções de contraindicações e reações adversas. Consulta em setembro de 2026.





