Ansiedade de separação em crianças e adolescentes: quando se preocupar?

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Ansiedade de separação. Ilustração 3D de uma menina de mochila segurando a mão do pai, com uma professora à espera na entrada da escola.

Por Dr. Luis Pimenta

“Você vai voltar?” “E se acontecer alguma coisa com você?” Uma despedida pode despertar medo, perguntas repetidas e vontade de ficar perto dos pais. Nos primeiros anos, sentir ansiedade diante da separação pode fazer parte do desenvolvimento. [1]

O transtorno de ansiedade de separação envolve um medo excessivo de ficar longe das pessoas de referência, desproporcional ao estágio de desenvolvimento e associado a sofrimento importante ou limitações na rotina. Pode afetar crianças e adolescentes, interferindo na escola, no sono e nas atividades fora de casa. [2]

Para compreender o que está acontecendo, vale olhar além do choro na despedida: o que a criança teme, como fica depois que os pais saem e quais experiências está deixando de viver?

O que é ansiedade de separação?

É a ansiedade relacionada ao afastamento, real ou antecipado, de pessoas com quem existe um vínculo importante. Geralmente são os pais ou outros cuidadores. A criança pode temer que algo aconteça com eles, que ela própria se perca ou que uma situação impeça o reencontro. [2]

No transtorno, a preocupação pode começar muito antes da despedida. Saber que um responsável sairá à noite, por exemplo, pode ocupar os pensamentos desde a manhã e dificultar outras atividades. [3]

O nome não se refere especificamente ao divórcio dos pais. Trata-se de um dos transtornos de ansiedade na infância e adolescência, cujo foco é o afastamento das pessoas de referência.

Quando a ansiedade de separação faz parte do desenvolvimento?

Bebês e crianças pequenas podem protestar quando o cuidador sai de perto. A reação varia entre crianças e pode ficar mais intensa quando estão cansadas, doentes ou diante de uma situação pouco familiar. [1]

Na adaptação a um novo ambiente, o importante é acompanhar a evolução: a criança começa a aceitar o acolhimento de outro adulto? Consegue brincar ou participar? Está ficando mais familiarizada com a rotina? O sofrimento persistente e a dificuldade de participar merecem atenção. [4]

A idade, sozinha, não separa o esperado do transtorno. Também é necessário considerar o contexto e as expectativas de autonomia da família. Preferir companhia ou dormir no mesmo quarto dos pais, isoladamente, não estabelece um diagnóstico. [3]

Como a ansiedade de separação pode aparecer no dia a dia?

Os exemplos abaixo são ilustrativos. Servem para orientar a observação e a conversa, sem substituir uma avaliação.

Em casa: dificuldade para ficar longe do cuidador

A criança pode seguir o responsável pelos cômodos, pedir que ele permaneça à vista ou demonstrar muita aflição quando precisa ficar com outro adulto conhecido. Também pode perguntar repetidamente se os pais estão bem. [3]

Imagine uma criança que quer brincar na sala, mas interrompe a brincadeira toda vez que o pai vai à cozinha. Quando perguntam o que aconteceu, ela diz que tem medo de ele sair sem voltar. Essa informação ajuda a compreender o comportamento melhor do que simplesmente descrevê-la como “muito grudada”.

Na escola: sofrimento na entrada e pedidos para ir embora

A dificuldade pode aparecer na preparação para sair, no portão ou durante as aulas, com pedidos frequentes para telefonar aos pais. Algumas crianças se acalmam depois de entrar; outras continuam preocupadas e têm dificuldade para participar. [5]

Por exemplo, uma aluna pode gostar da professora e dos colegas, mas passar a manhã pensando se a mãe sofreu algum acidente. Nesse caso hipotético, a preocupação que precisa ser investigada está ligada ao afastamento da mãe.

Recusar a escola não confirma ansiedade de separação. Bullying, dificuldades de aprendizagem, problemas com colegas, depressão e outras condições também podem contribuir. Na adolescência, uma mudança recente na frequência escolar exige investigar cuidadosamente essas possibilidades. [5]

No sono: medo de adormecer ou de dormir fora

Podem surgir resistência para adormecer sem a pessoa de referência e pesadelos envolvendo separação. [2] Para interpretar isso, é preciso entender a razão da dificuldade e os hábitos da família.

Uma pergunta útil seria: “O que preocupa você quando chega a hora de dormir?” Medo de ficar distante dos pais, desconforto físico, receio do escuro e dificuldades na rotina do sono podem exigir abordagens diferentes.

Na adolescência: atividades evitadas e necessidade de contato

A ansiedade de separação também pode limitar passeios, viagens e encontros com amigos. Nem sempre haverá choro ou uma explicação direta sobre o medo. [3]

Imagine um adolescente que deseja participar de uma excursão, mas desiste porque pensa que algo acontecerá ao pai durante sua ausência. Outro exemplo possível é enviar muitas mensagens para confirmar que a mãe está bem e ficar tão angustiado com uma demora que não consegue acompanhar a atividade.

Gostar de ficar em casa não é, por si só, um problema. A pergunta é se essa escolha expressa uma preferência ou se um medo está impedindo algo que o adolescente gostaria de fazer.

No corpo: dor de barriga, náusea e dor de cabeça

Sintomas físicos podem acompanhar a expectativa da separação. São desconfortos reais, que precisam ser escutados. [2]

Melhorar quando a criança fica em casa não prova que ela estava fingindo nem confirma uma causa emocional. A história clínica e o exame físico orientam a investigação de possíveis condições médicas, que também podem coexistir com a ansiedade. [6]

Além do choro na despedida. O que a criança teme?: Escute as preocupações sobre ficar longe das pessoas de referência. Como fica depois?: Observe se aceita apoio, brinca e participa após a despedida. O que está evitando?: Acompanhe o impacto na escola, no sono e nas atividades. A idade, o desenvolvimento e o contexto ajudam a distinguir uma fase esperada de uma dificuldade que merece avaliação.

Quando procurar ajuda?

Vale buscar avaliação quando o medo começa a restringir a vida ou exige mudanças cada vez maiores na rotina para evitar separações. Observe, por exemplo:

  • faltas à escola ou dificuldade recorrente para permanecer nas aulas;
  • abandono de atividades desejadas por medo de ficar longe dos responsáveis;
  • prejuízo importante no sono;
  • sofrimento intenso antes ou durante afastamentos cotidianos;
  • dependência crescente da presença do cuidador para situações antes possíveis. [5,6]

Uma forma de organizar a observação é perguntar: “O que ficou mais difícil ou deixou de acontecer por causa desse medo?”

É preciso esperar quatro semanas para buscar avaliação?

Não. O critério de duração do transtorno de ansiedade de separação em crianças e adolescentes inclui medo, ansiedade ou evitação por pelo menos quatro semanas, além dos outros elementos necessários ao diagnóstico. [2]

Esse prazo ajuda a classificar o quadro; não é uma orientação para adiar o cuidado. Quando já há sofrimento relevante ou comprometimento da frequência escolar, a avaliação e o apoio podem começar antes de uma conclusão diagnóstica. [5]

Como é feita a avaliação?

O diagnóstico é clínico e reúne informações da criança ou do adolescente, dos responsáveis e, quando pertinente, da escola. O profissional considera desenvolvimento, início e intensidade dos sintomas, situações em que aparecem e impacto na rotina. [4]

Algumas perguntas ajudam a esclarecer o foco do medo:

  • “O que você imagina que pode acontecer quando fica longe?”
  • “Como se sente quando está com outro adulto de confiança?”
  • “O que gostaria de conseguir fazer, mas está evitando?”

Mudanças familiares, perdas, doenças e experiências de violência também precisam ser compreendidas. A participação da família na avaliação serve para identificar necessidades de apoio e fatores que influenciam o quadro. [4]

Se as preocupações se espalham por muitos assuntos, o profissional pode considerar outras hipóteses, como o transtorno de ansiedade generalizada em crianças e adolescentes. Mais de um transtorno pode coexistir. [4]

Questionários podem complementar a avaliação, mas não confirmam o diagnóstico sozinhos. Exames são solicitados quando a história e o exame clínico indicam necessidade de investigar outras causas. [6]

Como funciona o tratamento da ansiedade de separação?

A avaliação é imprescindível para decidir o tratamento. O plano precisa considerar idade, necessidades de desenvolvimento, gravidade, condições associadas e possibilidades da família. As metas devem ser concretas, como voltar a participar das aulas ou conseguir ficar com um cuidador conhecido. [6]

Psicoterapia: terapia cognitivo-comportamental e participação da família

A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é uma das abordagens com melhor sustentação científica para os transtornos de ansiedade na infância e adolescência, incluindo a ansiedade de separação. Costuma ser uma opção inicial, especialmente em quadros leves a moderados. [7,8]

O trabalho ajuda a reconhecer o medo, desenvolver maneiras de enfrentá-lo e praticar aproximações graduais a situações seguras que passaram a ser evitadas. As estratégias são adaptadas à capacidade de compreensão e participação da criança. [8]

Um objetivo hipotético pode ser permanecer em uma atividade com outro adulto de confiança. O terapeuta e a família definem passos possíveis, acompanham a resposta e ajustam o apoio. O tamanho de cada passo depende da avaliação, sem um cronograma único para todas as crianças.

Quando a dificuldade envolve a escola, o tratamento deve incluir a equipe escolar e enfrentar os problemas identificados naquele ambiente. [5]

Quando medicamentos podem ser considerados?

Medicamentos podem ser considerados em quadros mais intensos ou incapacitantes, quando há resposta insuficiente à psicoterapia ou conforme outras necessidades identificadas na avaliação. Em algumas situações, o tratamento combinado é indicado desde o início. [7]

Os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) costumam ser a primeira classe considerada quando existe indicação medicamentosa. Os inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN) podem ser alternativas em situações selecionadas; a evidência e a indicação precisam ser avaliadas para cada caso. [7]

O acompanhamento deve observar benefícios, efeitos adversos e mudanças de sono, agitação, humor ou comportamento. Pensamentos de autoagressão exigem atenção imediata. Início, ajustes e retirada de medicamentos precisam de orientação médica. [6,7]

O que os pais podem fazer para ajudar no dia a dia?

Prepare uma despedida previsível

Explique quem ficará com a criança e quando vocês se reencontrarão. Para os pequenos, uma referência da rotina pode ser mais compreensível que um horário: “Vou buscar você depois do lanche”. Um ritual breve, afetuoso e consistente pode facilitar a transição. [1]

Por exemplo:

“Agora você vai ficar com a professora. Vamos dar nosso abraço de despedida. Depois do lanche, eu volto para buscar você.”

Combine um retorno que possa cumprir. Se a rotina mudar, avise de maneira adequada à idade e organize a comunicação com o adulto responsável. [1]

Acolha o medo e demonstre confiança

Acolhimento e incentivo à autonomia podem caminhar juntos. O apoio dos pais pode comunicar que a emoção foi percebida e que a criança terá ajuda para lidar com ela. Essa combinação faz parte de intervenções voltadas às famílias de crianças com ansiedade. [9]

Uma fala possível, diante de uma situação segura e já combinada, seria:

“Eu percebo que ficar longe está difícil. Você vai ter a ajuda da professora e vamos seguir o passo que combinamos.”

Na conversa com adolescentes, dê espaço para que participem das decisões. Pergunte qual mudança gostariam de alcançar e qual apoio seria útil, preservando sua privacidade diante dos colegas.

Pratique passos possíveis e observe o que ajudou

O enfrentamento gradual permite trabalhar situações evitadas de maneira planejada. Quando há um transtorno, essas experiências devem estar alinhadas ao tratamento. [8]

Imagine que a meta seja participar de uma oficina na escola. O plano pode começar pela familiarização com o espaço e com o adulto responsável, seguida de uma experiência de separação compatível com a dificuldade da criança. A duração e os apoios serão ajustados conforme sua resposta.

Depois, converse sobre o que ela conseguiu fazer e como recebeu ajuda:

“Você sentiu saudade e conseguiu participar da pintura. O que ajudou naquele momento?”

Assim, a família acompanha a participação e as habilidades utilizadas, além de observar se houve choro.

Perceba quando a rotina passou a girar em torno do medo

Cancelar todos os compromissos ou manter contato constante pode aliviar a ansiedade no momento. Quando esses ajustes se tornam indispensáveis, podem fazer parte da acomodação familiar: mudanças destinadas a evitar o sofrimento que acabam contribuindo para manter o padrão de ansiedade. [9]

Um exemplo hipotético é a família deixar de permitir qualquer passeio sem os pais, embora a criança queira participar e o ambiente ofereça os cuidados necessários.

O objetivo é identificar esse padrão e combinar mudanças graduais com apoio profissional. Há tratamentos dirigidos aos pais que trabalham justamente o acolhimento e a redução da acomodação. Isso não significa retirar ajuda abruptamente nem ignorar necessidades reais de cuidado. [9]

Combine com a escola como será o apoio

Família, escola e profissionais podem definir quem acolherá a criança, como comunicar dificuldades e quais metas serão acompanhadas. Quando já existem faltas, o retorno precisa de um plano individualizado. [5]

Uma mensagem útil à equipe seria:

“Queremos entender em quais momentos a separação fica mais difícil, o que ajuda depois da entrada e como podemos organizar juntos o próximo passo.”

Se houver bullying, violência ou outra ameaça real, é necessário intervir e garantir proteção. O enfrentamento terapêutico é planejado para situações seguras. [4]

Quando o medo de ficar longe começa a limitar a vida, uma avaliação pode ajudar a compreender suas causas e organizar o cuidado. Conheça a trajetória e a abordagem do Dr. Luis Pimenta.

Referências

  1. Swanson WS. How to ease your child’s separation anxiety [Internet]. HealthyChildren.org; American Academy of Pediatrics; atualizado em 11 maio 2026 [citado em 14 set 2026].
  2. Substance Abuse and Mental Health Services Administration. Table 15: DSM-IV to DSM-5 separation anxiety disorder comparison. In: DSM-5 changes: implications for child serious emotional disturbance [Internet]. Rockville (MD): SAMHSA; 2016.
  3. Figueroa A, Soutullo C, Ono Y, Saito K. Separation anxiety. In: Rey JM, editor. IACAPAP e-Textbook of Child and Adolescent Mental Health. Geneva: IACAPAP; 2012. Capítulo F.2.
  4. Klein B, Rajendram R, Hrycko S, Poynter A, Ortiz-Alvarez O, Saunders N, et al. Anxiety in children and youth: Part 1 — Diagnosis. Canadian Paediatric Society; 2022.
  5. American Academy of Child and Adolescent Psychiatry. School refusal [Internet]. Facts for Families. No. 7; atualizado em ago 2026 [citado em 14 set 2026].
  6. The Royal Children’s Hospital Melbourne. Clinical practice guidelines: anxiety — identification and management [Internet]. Melbourne: RCH; atualizado em abr 2024 [citado em 14 set 2026].
  7. Walter HJ, Bukstein OG, Abright AR, Keable H, Ramtekkar U, Ripperger-Suhler J, et al. Clinical practice guideline for the assessment and treatment of children and adolescents with anxiety disorders. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2020;59(10):1107–1124.
  8. James AC, Reardon T, Soler A, James G, Creswell C. Cognitive behavioural therapy for anxiety disorders in children and adolescents. Cochrane Database Syst Rev. 2020;11(11):CD013162. doi:10.1002/14651858.CD013162.pub2.
  9. Lebowitz ER, Marin C, Martino A, Shimshoni Y, Silverman WK. Parent-based treatment as efficacious as cognitive-behavioral therapy for childhood anxiety: a randomized noninferiority study of supportive parenting for anxious childhood emotions. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2020;59(3):362–372. doi:10.1016/j.jaac.2019.02.014.

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Dr. Luis Pimenta

Psiquiatria da Infância e Adolescência – CRM 163289 | RQE 70571