Por Dr. Luis Pimenta
O transtorno de ansiedade generalizada (TAG) em crianças e adolescentes envolve preocupações excessivas sobre diferentes assuntos, difíceis de controlar e associadas a sofrimento ou prejuízo na rotina. Elas podem ocupar o espaço do descanso, das brincadeiras, do convívio e da aprendizagem. [1]
“E se eu não conseguir?” “E se acontecer alguma coisa?” “Você tem certeza de que vai dar certo?” Perguntas assim, isoladamente, fazem parte da vida. Merecem atenção quando voltam repetidamente, atravessam vários momentos do dia e deixam a criança ou o adolescente preso à necessidade de antecipar problemas.
Entender esse padrão ajuda a família a reconhecer quando procurar avaliação e como oferecer apoio.
O que é o transtorno de ansiedade generalizada?
O TAG é um dos transtornos de ansiedade. As preocupações se distribuem por vários temas: desempenho escolar, saúde, segurança dos familiares, compromissos, amizades ou futuro. A intensidade costuma ser desproporcional à situação, e a pessoa encontra dificuldade para interromper os pensamentos, mesmo quando deseja descansar ou fazer outra atividade. [1]
O termo “generalizada” se refere à variedade de preocupações. A ansiedade pode oscilar e aparecer com intensidades diferentes conforme o momento e o ambiente.
Imagine uma criança preocupada com uma prova. Depois de estudar e realizá-la, ela consegue voltar a brincar. Em uma situação hipotética que merece investigação, a prova termina, mas a preocupação continua: primeiro com a nota, depois com a possibilidade de decepcionar a professora e, mais tarde, com algo que pode acontecer à família. O assunto muda; a dificuldade de se desligar permanece.
Uma criança cuidadosa ou um adolescente responsável não recebe esse diagnóstico apenas por se preocupar. A avaliação considera o contexto, o desenvolvimento e quanto esse padrão provoca sofrimento ou limita a vida. Veja também como diferenciar ansiedade esperada de um possível transtorno.

Como o TAG pode aparecer no dia a dia?
As situações abaixo são exemplos ilustrativos, não relatos de pacientes nem critérios suficientes para diagnóstico. Comportamentos semelhantes podem ter outras explicações.
Em casa: perguntas repetidas e dificuldade para relaxar
Os responsáveis podem perceber pedidos frequentes de confirmação, planejamento excessivo e dificuldade para encerrar uma preocupação. São manifestações possíveis de ansiedade, cuja interpretação depende do conjunto do quadro. [2]
Por exemplo:
- Antes de um passeio, a criança pergunta muitas vezes sobre o horário, o caminho, o que acontecerá se chover e quem poderá ajudar caso algo dê errado.
- Ao terminar uma tarefa, pede sucessivas confirmações de que fez tudo corretamente, mas o alívio dura pouco.
- Na hora de dormir, uma dúvida sobre o dia seguinte se transforma em várias perguntas sobre problemas que ainda não aconteceram.
Nessas cenas, vale observar o que ocorre depois da resposta dos pais: a criança consegue seguir adiante ou precisa reiniciar toda a conversa?
Na escola: medo de errar e dificuldade para concluir
O receio de cometer erros, decepcionar alguém e lidar com incertezas pode acompanhar o TAG. Em algumas crianças e adolescentes, isso aparece como uma busca rígida por perfeição. [1]
Uma situação hipotética é a de uma aluna que sabe o conteúdo, mas apaga a mesma resposta várias vezes, demora a entregar o trabalho e passa o recreio revisando detalhes. Outra é a de um estudante que adia uma atividade porque imagina que precisa fazê-la perfeitamente desde o início.
Boas notas, por si só, não mostram quanto esforço emocional a rotina exige. Além do resultado, cabe perguntar: quanto tempo esse estudante perde com preocupações? Consegue descansar depois de estudar? O medo de falhar está reduzindo seu sono ou sua participação em outras atividades?
Ao mesmo tempo, demora nas tarefas também pode envolver dificuldades de aprendizagem, atenção ou compreensão das instruções. A escola ajuda quando descreve situações concretas e as condições em que acontecem.
Nas amizades e na adolescência: preocupação com o futuro
Na adolescência, as preocupações podem envolver escolhas profissionais, desempenho, relações e responsabilidades crescentes. O contexto importa: pensar no futuro é esperado; ficar repetidamente paralisado por possibilidades negativas merece uma conversa mais cuidadosa. [1]
Imagine um adolescente que tenta escolher uma atividade extracurricular, mas passa dias antecipando consequências de cada opção: perder tempo de estudo, decepcionar os pais, não conseguir acompanhar os colegas ou prejudicar uma escolha profissional ainda distante.
Para compreender o que acontece, costuma ser mais útil perguntar “o que você imagina que pode acontecer?” do que concluir que ele está sendo indeciso ou desinteressado.
No corpo, no sono e no comportamento
A ansiedade também pode vir acompanhada de inquietação, cansaço, irritabilidade, tensão muscular, dificuldade de concentração e alterações do sono. Algumas crianças apresentam dores de barriga ou de cabeça. As menores podem ter dificuldade para explicar em palavras o que sentem. [3]
Sintomas físicos precisam ser levados a sério. Sua presença não permite concluir que a causa seja ansiedade. A avaliação pode identificar condições médicas, emocionais ou ambas contribuindo para o desconforto. [2,3]
Quando suspeitar e procurar ajuda?
Procure orientação quando as preocupações forem frequentes, difíceis de controlar e acompanhadas de sofrimento ou mudanças importantes na rotina. Alguns motivos para marcar uma avaliação são:
- dificuldade persistente para dormir ou descansar;
- abandono ou evitação de atividades por antecipar problemas;
- interferência nas tarefas, na frequência escolar ou no convívio;
- necessidade crescente de ajuda para situações antes administráveis;
- conflitos familiares recorrentes em torno dos medos e das dúvidas. [3]
Não é necessário que todas essas situações estejam presentes. Também não é preciso esperar uma crise intensa: a escuta deve incluir o sofrimento que a criança ou o adolescente relata, mesmo quando ele é pouco visível para os adultos.
É preciso esperar seis meses para buscar avaliação?
Não. O critério de duração usado para caracterizar o TAG inclui preocupações presentes na maioria dos dias por pelo menos seis meses, além dos demais elementos diagnósticos. Esse prazo orienta a classificação clínica; não determina quando uma família pode pedir ajuda. [1]
Sofrimento e prejuízo justificam avaliação antes disso. O profissional pode compreender o problema atual, orientar a família e acompanhar sua evolução, mesmo que ainda não seja possível definir TAG. As diretrizes valorizam a identificação e a intervenção precoces. [4]
O pediatra, o psiquiatra da infância e adolescência e o psicólogo podem participar desse cuidado, conforme as necessidades identificadas.
Como é feita a avaliação do TAG?
O diagnóstico é clínico. A avaliação reúne a história das preocupações, sua frequência, duração e intensidade, o impacto na vida e o estágio de desenvolvimento. A criança ou o adolescente precisa ser ouvido, junto das informações dos responsáveis e, quando pertinente, da escola. [4]
Para ajudar na consulta, a família pode levar exemplos como:
- “Antes de dormir, ele pergunta sobre diferentes problemas durante muito tempo.”
- “Ela entende a tarefa, mas fica presa à possibilidade de errar.”
- “Ele deixou de fazer atividades de que gostava porque teme que algo aconteça.”
Esses relatos são mais informativos quando incluem quando começou, com que frequência acontece e o que mudou na rotina.
Questionários podem complementar a avaliação, mas uma pontuação isolada não confirma o diagnóstico. Exames são solicitados conforme a história e o exame clínico, para investigar outras hipóteses quando necessário. [2]
Também é importante distinguir o TAG de preocupações ligadas principalmente à separação dos cuidadores, ao julgamento social ou a uma situação específica. Outros transtornos podem coexistir. [4] Quando a dúvida envolve desatenção, a leitura sobre ansiedade infantil e TDAH ajuda a entender por que os sintomas precisam ser avaliados em conjunto.
Na adolescência, a avaliação deve oferecer espaço de escuta individual e respeitar a privacidade, explicando seus limites quando há necessidade de proteção. [3]
Como funciona o tratamento da ansiedade generalizada?
A avaliação é imprescindível para a decisão terapêutica. O plano considera idade, desenvolvimento, intensidade dos sintomas, condições associadas, necessidades da família e preferências da criança ou adolescente. Os objetivos incluem aliviar o sofrimento e recuperar participação, autonomia e qualidade de vida. [5]
Psicoterapia: o papel da terapia cognitivo-comportamental
A terapia cognitivo-comportamental (TCC) está entre as abordagens com melhor evidência para ansiedade na infância e adolescência. As diretrizes a recomendam como opção inicial, especialmente em quadros leves a moderados. [2,6]
Adaptada à idade, ajuda a reconhecer pensamentos e sensações, desenvolver maneiras de lidar com as preocupações e enfrentar gradualmente situações seguras que passaram a ser evitadas. No TAG, esse trabalho pode incluir aprender a conviver com dúvidas e com a possibilidade de cometer erros. As habilidades aprendidas são praticadas também fora das sessões. [6]
Por exemplo, uma meta terapêutica pode ser conseguir concluir uma tarefa adequada à idade sem revisá-la indefinidamente, com passos combinados e apoio. As estratégias precisam ser ajustadas às capacidades e às dificuldades de cada criança.
Quando medicamentos podem ser considerados?
Medicamentos podem fazer parte do cuidado quando os sintomas são mais intensos, comprometem significativamente a rotina ou a resposta à psicoterapia é insuficiente. Em algumas situações, o tratamento combinado é considerado desde o início. [5]
As classes que podem ser utilizadas incluem:
- Inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS): geralmente a primeira classe considerada quando há indicação medicamentosa.
- Inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN): possíveis alternativas em situações selecionadas, conforme avaliação especializada. [4,7]
A escolha exige discussão dos benefícios esperados, possíveis efeitos adversos e acompanhamento. Mudanças importantes de sono, agitação, humor ou comportamento devem ser comunicadas ao médico; pensamentos de autoagressão exigem atenção imediata. Início, ajustes e retirada precisam de orientação profissional. [5,7]
O que os pais podem fazer para ajudar no dia a dia?
O apoio familiar pode ser organizado em atitudes pequenas e consistentes. As sugestões abaixo devem ser adaptadas à idade e, quando houver acompanhamento, alinhadas ao plano terapêutico.
Acolha a preocupação e converse sobre o próximo passo
Reconhecer a emoção ajuda a abrir espaço para a conversa. É possível demonstrar compreensão e confiança na capacidade de enfrentar a situação. [5]
Uma forma de dizer isso seria:
“Percebi que você está preocupado com amanhã. Me conta qual parte parece mais difícil. Vamos pensar no primeiro passo juntos.”
Depois de escutar, procure diferenciar algo que precisa de uma providência concreta de uma possibilidade que não pode ser resolvida antecipadamente.
Se falta material para a aula, é possível organizar a mochila. Se a dúvida é “e se alguma coisa der errado?”, a conversa pode se concentrar em quem poderá ajudar e em como lidar com uma dificuldade caso ela apareça.
Observe o ciclo das confirmações repetidas
Às vezes, a família responde à mesma pergunta inúmeras vezes para aliviar o sofrimento. Quando isso se torna indispensável para seguir a rotina, pode fazer parte da chamada acomodação familiar: mudanças que ajudam a evitar a ansiedade no momento, mas podem contribuir para sua manutenção. Há tratamentos voltados aos pais que trabalham apoio e redução gradual desse padrão. [8]
O ajuste deve preservar o acolhimento e ser planejado, especialmente quando provoca muito sofrimento. Uma fala possível, adaptada à situação, é:
“Nós já conversamos sobre essa dúvida. Percebo que a preocupação voltou. Vou ficar ao seu lado enquanto você tenta seguir o que combinamos.”
Esse exemplo não é uma orientação para ignorar perguntas novas ou interromper apoio de forma abrupta. A proposta é observar quando a busca por certeza se repete e discutir com o profissional como responder.
Combine desafios pequenos e reconheça o esforço
O enfrentamento gradual de situações seguras faz parte das estratégias usadas no tratamento da ansiedade. Os passos devem respeitar o desenvolvimento e ser ajustados à dificuldade apresentada. [7]
Um exemplo hipotético: se a criança consegue fazer uma tarefa, mas pede confirmação a cada linha, um passo combinado pode ser concluir um pequeno trecho antes de pedir ajuda. O reconhecimento pode ser específico:
“Você ficou com dúvida e conseguiu tentar esse pedaço. Depois pediu ajuda no ponto que combinamos.”
A meta deve considerar dificuldades reais de aprendizagem, comunicação ou atenção. Uma exigência incompatível com a capacidade da criança precisa ser ajustada.
Crie espaço para descanso e alinhe o apoio com a escola
Rotinas de sono, oportunidades de atividade física, lazer e atenção ao consumo de cafeína podem apoiar o cuidado. Essas medidas complementam o tratamento indicado. [5]
Na prática, vale olhar a agenda da semana: há tempo para brincar ou descansar sem cobrança de desempenho? As tarefas ocupam um período razoável? O adolescente participa das decisões sobre a própria rotina?
Com a escola, compartilhe observações e combine objetivos concretos. Por exemplo: “Queremos entender em quais tarefas ela demora mais e se a dificuldade é compreender, começar, tolerar um erro ou terminar.” A partir disso, família, escola e profissionais podem planejar o apoio necessário. [7]
Se o contexto envolve bullying, violência ou outra ameaça real, a prioridade é proteger e intervir nesse contexto. Essas situações também precisam fazer parte da avaliação. [3]
Quando as preocupações começam a limitar a vida de seu filho, uma avaliação pode ajudar a compreender o que está acontecendo e definir os próximos passos. Para conhecer a abordagem de cuidado e a trajetória profissional, acesse a biografia do Dr. Luis Pimenta.
Referências
- National Institute of Mental Health. Generalized anxiety disorder: what you need to know [Internet]. Bethesda: NIMH; atualizado em 2025 [citado em 13 set 2026].
- The Royal Children’s Hospital Melbourne. Clinical practice guidelines: anxiety — identification and management [Internet]. Melbourne: RCH; atualizado em abr 2024 [citado em 13 set 2026].
- Klein B, Rajendram R, Hrycko S, Poynter A, Ortiz-Alvarez O, Saunders N, et al. Anxiety in children and youth: Part 1 — Diagnosis. Canadian Paediatric Society; 2022.
- Walter HJ, Bukstein OG, Abright AR, Keable H, Ramtekkar U, Ripperger-Suhler J, et al. Clinical practice guideline for the assessment and treatment of children and adolescents with anxiety disorders. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2020;59(10):1107–1124.
- Bobbitt S, Kawamura A, Saunders N, Monga S, Penner M, Andrews D. Anxiety in children and youth: Part 2 — The management of anxiety disorders. Canadian Paediatric Society; 2022.
- James AC, Reardon T, Soler A, James G, Creswell C. Cognitive behavioural therapy for anxiety disorders in children and adolescents. Cochrane Database Syst Rev. 2020;11(11):CD013162. doi:10.1002/14651858.CD013162.pub2.
- Melbourne Children’s Campus Mental Health Strategy Anxiety Guideline Development Group. Evidence-based clinical practice guideline for anxiety in children and young people. Version 1.1. Melbourne: Melbourne Children’s; 2024.
- Lebowitz ER, Marin C, Martino A, Shimshoni Y, Silverman WK. Parent-based treatment as efficacious as cognitive-behavioral therapy for childhood anxiety: a randomized noninferiority study of supportive parenting for anxious childhood emotions. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2020;59(3):362–372. doi:10.1016/j.jaac.2019.02.014.





