“Meu filho esquece tudo”: entendendo os esquecimentos na infância

Home / TDAH / “Meu filho esquece tudo”: entendendo os esquecimentos na infância

Veja também:

Criança confere os materiais da mochila com apoio do pai.

Por Dr. Luis Pimenta

“Pegue a mochila, coloque a garrafa e traga o casaco.” Alguns minutos depois, a criança aparece apenas com a mochila. Ela pode ter escutado a orientação e até concordado, mas parte do pedido se perdeu no caminho.

Quando isso se repete, os pais podem pensar que não são ouvidos ou que a criança não se importa. Esquecer uma orientação não revela, por si só, desinteresse ou falta de respeito. É preciso compreender como a informação foi recebida e como seria lembrada na hora certa.

Esquecer pode envolver etapas diferentes

Às vezes, a criança estava envolvida em outra atividade e não registrou bem o recado. Em outras situações, entendeu o pedido, mas perdeu uma parte enquanto executava a primeira etapa. Também pode lembrar do compromisso depois que o momento passou.

A memória de trabalho funciona como um espaço temporário para manter informações enquanto fazemos algo. É ela que ajuda a conservar “pegar o casaco” em mente durante a busca pela mochila. No TDAH, essa habilidade pode apresentar dificuldades, sem que isso signifique uma alteração global da memória. [1]

Por isso, uma criança pode recordar histórias, músicas e assuntos de interesse e ainda esquecer instruções da rotina. Não se trata necessariamente de uma contradição.

O que a família pode perceber?

Recados que não chegam aos responsáveis, materiais que não são separados e compromissos lembrados apenas depois do horário são exemplos possíveis. O problema pode ficar mais evidente quando a escola passa a exigir que o aluno acompanhe várias matérias e prazos.

Exemplo fictício: um menino lembra que precisa levar um trabalho, mas se distrai durante o café da manhã e sai sem ele. Em vez de repetir o aviso cada vez mais alto, a família passa a deixar o trabalho junto à mochila e usa um lembrete na saída. Esse apoio torna a informação acessível no momento de agir.

O que mais pode explicar os esquecimentos?

Sono insuficiente, ansiedade, excesso de demandas e orientações longas merecem atenção. Dificuldades para ouvir ou compreender a linguagem também podem fazer um pedido parecer esquecido quando, na verdade, ele não foi entendido.

Esquecimentos ocasionais são esperados. Para investigar TDAH, o profissional considera a história do desenvolvimento e o conjunto das dificuldades. [2]

Uma mudança importante e recente no funcionamento deve ser avaliada, especialmente se vier acompanhada de confusão, perda de habilidades ou outros sintomas. Nesses casos, não convém presumir que seja apenas distração.

Criança confere os materiais da mochila com apoio do pai.

Como apoiar sem fazer tudo pela criança

  • Conquiste a atenção antes do recado: aproxime-se, chame pelo nome e espere a criança interromper a outra atividade. Não é necessário exigir contato visual.
  • Encurte a orientação: uma etapa de cada vez pode funcionar melhor do que uma sequência longa.
  • Peça que explique o combinado: “O que você vai fazer primeiro?” ajuda a verificar a compreensão, sem transformar a conversa em interrogatório.
  • Use lembretes externos: desenhos, listas curtas e alarmes adequados à idade evitam depender apenas da memória.
  • Coloque o lembrete onde ele será usado: a lista da mochila deve estar perto da mochila.

Esses são exemplos práticos de organização e orientação familiar, não um protocolo único. A meta é descobrir quais apoios a criança consegue utilizar. [1]

Para adolescentes, construa o sistema em conjunto. Uma agenda escolhida pelos pais pode não funcionar se o jovem não sabe quando consultá-la. Ensine também o hábito de conferir os registros.

Quando buscar ajuda?

Quando os esquecimentos atrapalham repetidamente a escola, a segurança ou a autonomia, uma avaliação pode esclarecer as necessidades. Relate exemplos concretos e observe se a dificuldade está em registrar, manter a informação ou lembrar de agir.

Apoios para a memória não são atalhos que impedem o aprendizado. Quando bem utilizados, permitem que a criança pratique a rotina com mais sucesso e menos desgaste.

Leia também

Referências

  1. Malloy-Diniz LF, Alvarenga MAS, Abreu N, Fuentes D, Leite WB. Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade: tratamento farmacológico e não farmacológico. In: Petersen CS, Wainer R, organizadores. Terapias cognitivo-comportamentais para crianças e adolescentes: ciência e arte. Porto Alegre: Artmed; 2011. Cap. 7.
  2. Wolraich ML, Hagan JF Jr, Allan C, et al. Clinical Practice Guideline for the Diagnosis, Evaluation, and Treatment of Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder in Children and Adolescents. Pediatrics. 2019;144(4):e20192528.

Gostou do post? Compartilhe!

Por:

Foto de Dr. Luis Pimenta

Dr. Luis Pimenta

Psiquiatria da Infância e Adolescência – CRM 163289 | RQE 70571