Por Dr. Luis Pimenta
Remédio psiquiátrico vicia criança? Depende de qual remédio estamos falando. Antidepressivos usados para tratar ansiedade infantil, como os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS), não costumam provocar a busca compulsiva que caracteriza o vício [8]. Eles podem, porém, causar sintomas se forem interrompidos de repente [1]. Estimulantes usados no transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) têm risco de uso indevido e de vício [2]. Já alguns calmantes, como os benzodiazepínicos, também podem causar dependência física mesmo quando usados conforme a prescrição [3]. São riscos diferentes e precisam ser conversados antes de começar.
Em um encontro na clínica, ouvi preocupações bem diferentes sobre medicação. Algumas mães tinham medo do que poderia mudar no filho se ele começasse a tomar um remédio. Outras já o viam sofrer e queriam saber se havia algo a mais que pudesse ajudar. Faz sentido chegar à consulta com qualquer uma dessas preocupações. Para conversar sobre elas, primeiro vale entender o que cada família quer dizer quando pergunta se o remédio "vicia".
O que você quer dizer quando pergunta se vicia?
Às vezes, a pergunta é se a criança pode perder o controle sobre o uso. Em outras, é se ela vai passar mal quando parar ou se o problema que levou à prescrição pode voltar. Na prática, essas situações pedem respostas diferentes.
- Vício envolve perda de controle e uso compulsivo, mesmo quando o uso traz prejuízo. Tomar um remédio todos os dias conforme a prescrição, por si só, não indica vício.
- Sintomas de retirada podem aparecer quando o organismo, que se adaptou ao medicamento, precisa se readaptar após uma redução ou interrupção. Alguns antidepressivos, por exemplo, podem causar tontura, mal-estar ou irritabilidade quando interrompidos de forma abrupta. Isso, por si só, não indica vício [1].
- Retorno dos sintomas é quando a dificuldade que motivou o tratamento volta a aparecer. Se uma criança que evitava ir à escola por ansiedade volta a evitá-la após uma mudança no tratamento, vale investigar o que aconteceu. A sequência dos acontecimentos, sozinha, não explica a causa.
Os sintomas de retirada em crianças e adolescentes foram reunidos em uma revisão sistemática de 2025, com 12 estudos e 690 participantes de 2 a 18 anos. Náusea (de 14,6% a 22%) e dor de cabeça (de 14,6% a 15%) estavam entre os sintomas mais relatados depois de parar o antidepressivo, principalmente os ISRS [6]. Os autores afirmam que o tema ainda é pouco estudado nessa faixa de idade e que esses sintomas podem se parecer com o problema original ou piorá-lo [6]. Uma revisão de 2023 observa que parte do que se sabe vem de relatos de caso e de dados de adultos [7].
O que muda de um medicamento para outro?
Antidepressivos usados na ansiedade. O nome pode estranhar quando a criança tem ansiedade e não depressão. Alguns antidepressivos, como os ISRS, também são usados para tratar transtornos de ansiedade. A Academia Americana de Psiquiatria da Infância e Adolescência (AACAP) considera a terapia cognitivo-comportamental (TCC) e os ISRS tratamentos seguros e eficazes a curto prazo para ansiedade em crianças e adolescentes. Ela aponta que os efeitos do uso prolongado em jovens ainda precisam de pesquisa [1]. A mesma diretriz descreve a síndrome de descontinuação depois de doses esquecidas ou de suspensão abrupta de ISRS de meia-vida mais curta e recomenda retirada lenta, em redução gradual [1]. A possibilidade de sintomas na retirada é um dos motivos para combinar com o médico como a medicação será interrompida, quando chegar a hora. Veja também como são escolhidos os medicamentos para ansiedade infantil.
Estimulantes usados no TDAH. Medicamentos como o metilfenidato e a lisdexanfetamina exigem atenção ao risco de uso indevido. Em 2023, a agência americana de medicamentos (FDA) atualizou os alertas de todos os estimulantes prescritos sobre uso indevido, abuso e dependência. Segundo a revisão da agência, a maior parte do uso indevido vem de familiares e amigos, e não da receita da própria pessoa [2]. Essa é uma pergunta diferente de saber se tratar a criança com estimulante aumenta o risco de usar drogas no futuro. Um acompanhamento de 579 crianças com TDAH, que tinham de 7 a 9 anos no início, avaliou as crianças por 16 anos, até uma idade média de 25 anos. Ele não encontrou associação entre o tratamento com estimulante e o uso posterior de álcool, maconha, cigarro ou outras substâncias. O resultado foi o mesmo para o transtorno por uso de substâncias [4]. Uma meta-análise de 2013, com 15 estudos e 2.565 participantes, chegou à mesma conclusão. O estimulante nem protege nem aumenta o risco de uso de substâncias mais tarde [5]. Em casa, mantenha o medicamento guardado com segurança e nunca o compartilhe.
Benzodiazepínicos. Alguns calmantes, como o clonazepam, pertencem a essa classe. A diretriz da AACAP para ansiedade na infância e na adolescência recomenda a TCC, os ISRS, a combinação dos dois e os inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina. Ela não traz recomendação para benzodiazepínicos [1]. Em 2020, a FDA exigiu que a advertência de destaque na bula de todos os benzodiazepínicos incluísse os riscos de abuso, uso indevido, vício, dependência física e reações de abstinência. Esses riscos existem mesmo com o uso na dose prescrita. A suspensão abrupta ou a redução rápida da dose pode causar reações graves, inclusive convulsões [3]. Se seu filho já usa um medicamento dessa classe, converse com o prescritor antes de mudar o uso.
O que acontece se meu filho parar de repente?
Depende do remédio, e por isso a decisão de parar não deve ser da família sozinha. Para os ISRS e para os inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina, a AACAP orienta retirada lenta, em redução gradual [1]. Uma revisão de 2023 recomenda que o médico converse com a família, desde o início, sobre a possibilidade de sintomas na retirada. A suspensão deve ser planejada [7]. Para os benzodiazepínicos, a FDA orienta redução gradual e individualizada e recomenda que o paciente não suspenda por conta própria [3].
O que vale perguntar antes de começar?
Você pode dizer na consulta: "Meu medo é que ele passe mal quando parar" ou "Tenho receio de que ele comece a usar por conta própria". Quanto mais específica a preocupação, mais concreta pode ser a resposta. Vale sair com três coisas combinadas:
- O que queremos melhorar: em que situação da rotina devemos perceber algum benefício?
- O que vamos observar: quais efeitos ou mudanças devem ser comunicados e com quem falar se aparecerem?
- Quando vamos rever: qual é a próxima consulta e o que vai orientar a decisão de manter, ajustar ou, quando for possível, retirar?
Se você já está preocupado com a forma como o remédio está sendo usado, leve essa informação ao prescritor e evite fazer mudanças por conta própria. A pergunta "isso vicia?" merece espaço na consulta. Ela é uma boa porta de entrada para entender o que se espera daquele tratamento e como fazê-lo com segurança.
Quando procurar o médico?
Fale com quem prescreveu o remédio, ou marque uma consulta, em qualquer destas situações:
- Seu filho parou o remédio de repente, ou esqueceu várias doses, e apareceu mal-estar, náusea, dor de cabeça, irritabilidade ou piora da ansiedade.
- O remédio some, está sendo usado por outra pessoa da casa ou por amigos, ou seu filho pede mais do que foi prescrito.
- Seu filho usa um calmante da classe dos benzodiazepínicos e você ou ele querem parar.
- Seu filho fala em se machucar ou em morrer. Procure atendimento imediato.
- Seu filho teve convulsão depois de parar um calmante. Procure um serviço de urgência.
Perguntas frequentes
Tomar o remédio todos os dias significa que meu filho está viciado?
Não, por si só. Tomar um remédio todos os dias conforme a prescrição não indica vício. Vício envolve perda de controle e uso compulsivo, mesmo quando o uso traz prejuízo.
Posso parar o remédio por conta própria?
Não é recomendado. Os ISRS e os inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina pedem retirada lenta, em redução gradual [1], e os benzodiazepínicos também pedem redução gradual e individualizada [3]. Converse com o prescritor antes de qualquer mudança.
O estimulante aumenta o risco de meu filho usar drogas no futuro?
Em um acompanhamento de 579 crianças com TDAH até uma idade média de 25 anos, não houve associação entre o tratamento com estimulante e o uso posterior de substâncias [4]. Uma meta-análise de 2013 chegou à mesma conclusão [5].
Como guardar o medicamento em casa?
Guarde em local seguro e nunca compartilhe o remédio com outra pessoa. Segundo a revisão da FDA, a maior parte do uso indevido de estimulantes vem de familiares e amigos [2].
Leia também sobre TDAH na infância e na adolescência e sobre por quanto tempo uma criança toma medicação.
Se você quiser conversar sobre o tratamento do seu filho, atendo presencialmente em Bauru, no Jardim América, e por teleconsulta, de segunda a sexta, das 8h às 19h. O agendamento pode ser feito pelo WhatsApp.
Dr. Luis Pimenta, Médico Pediatra Pós Graduado em Psiquiatria da Infância e Adolescência · CRM-SP 163.289 · RQE 70.571
Atendimento presencial em Bauru e região, e teleconsulta.
Publicado em 7 de novembro de 2026 · Revisado em 7 de novembro de 2026
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica.
Referências
- Walter HJ, Bukstein OG, Abright AR, et al. Clinical Practice Guideline for the Assessment and Treatment of Children and Adolescents With Anxiety Disorders. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2020;59(10):1107-1124. doi:10.1016/j.jaac.2020.05.005
- U.S. Food and Drug Administration. FDA updating warnings to improve safe use of prescription stimulants used to treat ADHD and other conditions. Drug Safety Communication, 11 de maio de 2023. Página da FDA
- U.S. Food and Drug Administration. FDA requiring Boxed Warning updated to improve safe use of benzodiazepine drug class. Drug Safety Communication, 23 de setembro de 2020. Página da FDA
- Molina BSG, Kennedy TM, Howard AL, et al. Association Between Stimulant Treatment and Substance Use Through Adolescence Into Early Adulthood. JAMA Psychiatry. 2023;80(9):933-941. doi:10.1001/jamapsychiatry.2023.2157
- Humphreys KL, Eng T, Lee SS. Stimulant medication and substance use outcomes: a meta-analysis. JAMA Psychiatry. 2013;70(7):740-749. doi:10.1001/jamapsychiatry.2013.1273
- Wang J, Cosci F. Acute and persistent withdrawal syndromes following discontinuation of antidepressants in children and adolescents: a systematic review. Ther Adv Psychopharmacol. 2025;15:20451253251404780. doi:10.1177/20451253251404780
- Khan YS, Khoodoruth MAS, Albobali Y, Haddad PM. SSRI withdrawal syndrome in children and adolescents: a narrative literature review. Expert Opin Drug Saf. 2023;22(5):381-390. doi:10.1080/14740338.2023.2224557
- Royal College of Psychiatrists. Antidepressants. Seção “Are antidepressants addictive or can you become dependent on them?”.





