Por Dr. Luis Pimenta
A lição que parecia curta ocupa toda a tarde. A criança demora para começar, pede ajuda, se distrai e acaba chorando. O adulto insiste, perde a paciência e termina o dia com a sensação de que o estudo virou uma disputa.
Dificuldade para fazer lição de casa não é sinônimo de preguiça. Antes de aumentar a cobrança, precisamos descobrir o que está tornando aquela atividade tão difícil.
A lição exige mais do que saber o conteúdo
O aluno precisa registrar a tarefa, levar os materiais, entender o enunciado, iniciar, manter o esforço e entregar o que produziu. Há várias oportunidades para o processo falhar, mesmo quando ele conhece a matéria.
No TDAH, dificuldades de organização e autorregulação podem afetar essas etapas. Um apoio eficaz considera onde a criança precisa de ajuda, e não apenas o resultado final. [1]
Mas existe uma diferença importante entre perder-se na rotina da lição e não ter aprendido o conteúdo. Essa distinção orienta tanto o cuidado clínico quanto o pedagógico.
Quando a dificuldade é de aprendizagem?
Uma criança pode evitar leitura porque decodificar palavras exige muito esforço. Outra pode se irritar com matemática porque não compreendeu o conceito trabalhado. Dificuldades persistentes de leitura, escrita ou cálculo merecem investigação, inclusive quando já existe diagnóstico de TDAH.
Ansiedade de errar, cansaço, fome e excesso de atividades também podem pesar. Se a tarefa é desproporcional ao que a criança consegue realizar, insistir por horas tende a ampliar o desgaste.
Exemplo fictício: um menino leva muito tempo em exercícios com textos, mas resolve cálculos apresentados de outra forma. Em vez de concluir que ele “não quer”, família e escola investigam a leitura e a compreensão das instruções.
Uma organização possível para começar
Escolha um momento viável, considerando alimentação, descanso e a rotina familiar. Separe apenas o material necessário e verifique se a criança sabe qual é a tarefa. Depois, combine uma primeira etapa pequena.
“Vamos ler o enunciado e fazer a primeira questão” costuma ser mais concreto do que “só saia quando terminar tudo”. O tamanho das etapas e das pausas deve ser ajustado, sem impor um tempo igual para todas as idades.
Durante a pausa, combine uma atividade que permita retorno. Se a criança tem muita dificuldade para interromper um jogo, talvez ele não seja a melhor opção naquele intervalo.

O adulto pode apoiar sem dar as respostas
Ajude a organizar o caminho: “Qual informação a pergunta está pedindo?” ou “Onde podemos procurar isso?”. Depois, permita que a criança tente. Elogie ações observáveis, como iniciar, pedir ajuda de forma clara ou conferir a resposta.
Há evidência de que intervenções comportamentais voltadas à lição podem melhorar seu desempenho em crianças com TDAH. Isso não significa que uma única estratégia resolva dificuldades de aprendizagem ou substitua o ensino. [2]
Se precisar ajudar constantemente, converse com a escola. O trabalho entregue deve mostrar o que o aluno conseguiu fazer; completar a tarefa por ele pode esconder a necessidade de apoio.
Família e escola precisam compartilhar informações
Relate quanto tempo a atividade demora, quais partes exigem ajuda e como a criança reage. Pergunte sobre instruções mais claras, prioridades e adaptações pedagógicas adequadas. A colaboração entre família e escola pode ser trabalhada de forma estruturada. [3]
Quando a criança usa medicação, dificuldades concentradas no fim do dia devem ser informadas ao médico. A família não deve acrescentar doses ou mudar horários por conta própria.
Quando procurar avaliação?
Quando a lição provoca sofrimento frequente, ocupa tempo excessivo ou revela dificuldades persistentes de aprendizagem, é necessário rever o plano. Pode ser preciso combinar cuidado clínico e intervenção educacional.
O objetivo da lição é favorecer aprendizagem e autonomia. Se ela se transforma diariamente em sofrimento, precisamos compreender o problema e ajustar os apoios, em vez de medir apenas quanto a criança conseguiu suportar.
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Referências
- Malloy-Diniz LF, Alvarenga MAS, Abreu N, Fuentes D, Leite WB. Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade: tratamento farmacológico e não farmacológico. In: Petersen CS, Wainer R, organizadores. Terapias cognitivo-comportamentais para crianças e adolescentes: ciência e arte. Porto Alegre: Artmed; 2011. Cap. 7.
- Merrill BM, et al. Improving Homework Performance Among Children with ADHD: A Randomized Clinical Trial. Journal of Consulting and Clinical Psychology. 2017;85(2):111–122. DOI: 10.1037/ccp0000144.
- Power TJ, et al. A Family-School Intervention for Children With ADHD: Results of a Randomized Clinical Trial. Journal of Consulting and Clinical Psychology. 2012;80(4):611–623.





