Por Dr. Luis Pimenta
Uma garrafa fica na escola, o casaco desaparece no passeio e o estojo não está na mochila. Quando os objetos precisam ser repostos, a família sente o impacto financeiro e pode se irritar: “Você não cuida de nada”.
Ensinar cuidado com os pertences é importante. Mas perder objetos repetidamente pode envolver dificuldades de atenção e organização, e não apenas o valor que a criança dá a eles. Compreender onde a rotina falha ajuda a escolher uma orientação mais eficaz.
Perder não é sempre esquecer uma informação
O objeto pode ter sido deixado em algum lugar sem que a criança prestasse atenção naquele momento. Pode estar escondido em uma mochila desorganizada ou ter ficado para trás numa mudança de ambiente.
Assim, a pergunta “onde você colocou?” nem sempre resolve: a criança pode não ter registrado o local. A dificuldade está em acompanhar o objeto ao longo da atividade, e não apenas em tentar recordar depois.
No TDAH, dificuldades de organização e acompanhamento das próprias ações podem contribuir para esse padrão. Não estão presentes da mesma maneira em todos os casos. [1]
Os momentos de transição merecem atenção
Observe a saída da sala, a troca de atividade e o retorno de passeios. São momentos em que a criança precisa encerrar uma tarefa, reunir seus materiais e acompanhar outras pessoas ao mesmo tempo.
Exemplo fictício: uma menina retira o casaco durante a educação física e depois corre para acompanhar as amigas. A família e a professora combinam uma checagem simples antes da saída: casaco, garrafa e mochila. A proposta trabalha o momento em que o objeto costuma ser deixado para trás.
Uma orientação geral como “tenha mais responsabilidade” oferece pouca informação sobre o que fazer. A rotina de conferir pertences transforma responsabilidade em uma ação que pode ser aprendida.
Nem toda perda frequente indica TDAH
Crianças pequenas ainda precisam de supervisão. Ambientes sem locais definidos, materiais semelhantes aos dos colegas e uma rotina muito apressada também favorecem perdas.
É importante ouvir a criança sobre trocas acidentais, colegas que pegam seus materiais ou situações de intimidação. Um objeto desaparecido não deve ser automaticamente tratado como falha dela.
Uma dificuldade isolada não confirma TDAH; a avaliação reúne informações de diferentes ambientes. [2]

Estratégias para construir o hábito
- Dê um lugar fixo aos objetos: um gancho para o casaco e um compartimento para o estojo.
- Identifique materiais: nomes e marcas visuais ajudam a reconhecer o que pertence à criança.
- Reduza a quantidade transportada: leve o necessário, evitando objetos extras quando possível.
- Crie uma checagem breve: antes de sair, conferir poucos itens importantes.
- Pratique junto: inicialmente, o adulto acompanha; depois, pede que a criança conduza a conferência.
Esses exemplos aplicam princípios de organização e ensino gradual descritos nas intervenções para TDAH. O sistema precisa ser simples o bastante para ser usado no cotidiano. [1]
Evite expor a criança diante de colegas ou irmãos. Converse sobre reposição e reparação de forma proporcional à idade, sem humilhação. Ela pode participar da procura e da reorganização, mesmo quando necessita de ajuda.
E se continuar acontecendo?
Reveja o apoio antes de aumentar a punição. A lista tem muitos itens? O tempo da saída é suficiente? A criança realmente sabe onde guardar cada coisa? O adulto está esperando uma autonomia que ainda não foi construída?
Quando as perdas são persistentes, ocorrem com outras dificuldades e prejudicam a rotina, procure avaliação. Também vale conversar com a escola para identificar o ponto em que os pertences se perdem.
Cuidar dos objetos é uma habilidade que pode ser ensinada. A meta é tornar a criança mais capaz de organizar e conferir seus materiais, com menos dependência de broncas e buscas de última hora.
Leia também
Referências
- Malloy-Diniz LF, Alvarenga MAS, Abreu N, Fuentes D, Leite WB. Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade: tratamento farmacológico e não farmacológico. In: Petersen CS, Wainer R, organizadores. Terapias cognitivo-comportamentais para crianças e adolescentes: ciência e arte. Porto Alegre: Artmed; 2011. Cap. 7.
- Wolraich ML, Hagan JF Jr, Allan C, et al. Clinical Practice Guideline for the Diagnosis, Evaluation, and Treatment of Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder in Children and Adolescents. Pediatrics. 2019;144(4):e20192528.





