Por Dr. Luis Pimenta
Uma criança pode ficar sentada na sala de aula, conversar tranquilamente e não chamar a atenção pelo comportamento. Mesmo assim, pode se perder nas explicações, esquecer materiais e precisar de ajuda frequente para terminar atividades.
Quando se pensa em TDAH apenas como “não parar quieto”, dificuldades como essas podem passar despercebidas. Na apresentação predominantemente desatenta, o que se destaca são os sintomas de desatenção. Isso, porém, não significa ausência obrigatória de hiperatividade ou impulsividade.
O que significa “predominantemente desatento”?
O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento. Seus sintomas são organizados em dois grupos: desatenção e hiperatividade-impulsividade.
Na apresentação predominantemente desatenta, a avaliação identifica o conjunto necessário de sintomas de desatenção, mas não o de hiperatividade-impulsividade, no período considerado. Podem existir manifestações do segundo grupo, sem preencher o conjunto exigido para a apresentação combinada. Não se trata simplesmente de escolher o sintoma que parece “mais forte”. [1,2]
Por isso, uma criança com essa apresentação pode também interromper conversas, mexer bastante os pés ou ter dificuldade para esperar. Esses comportamentos precisam ser compreendidos no conjunto da avaliação.
O termo “apresentação” é mais adequado que imaginar tipos rígidos: descreve o padrão atual, considerando os últimos seis meses, e pode mudar ao longo do desenvolvimento. [1,3]
Como as dificuldades podem aparecer no cotidiano?
As manifestações podem envolver manter a atenção, acompanhar instruções, organizar atividades e lembrar compromissos. Não se resumem a “olhar para o lado”. [2,3]
Imagine estas situações ilustrativas:
- Na escola: Sofia entende um conteúdo quando alguém explica individualmente, mas perde partes da orientação coletiva. Começa o exercício sem perceber uma segunda etapa.
- Em casa: ao se preparar para sair, Pedro busca o tênis, encontra um brinquedo e abandona a sequência. Precisa que o adulto o ajude a retomar o que estava fazendo.
- Na adolescência: Luísa conclui um trabalho, mas esquece de enviá-lo. A família vê a nota baixa e supõe que ela não estudou; o problema daquele episódio foi a entrega.
Esses exemplos não confirmam TDAH. Servem para mostrar por que vale perguntar em qual etapa a dificuldade acontece, em vez de concluir que faltou vontade.

Ser menos agitado não significa precisar de menos ajuda
Uma dificuldade silenciosa continua merecendo atenção. Em uma conversa com a escola, não basta perguntar se a criança “dá trabalho”. Também é importante entender se acompanha as atividades, quanto apoio recebe e como se sente diante das cobranças.
Considere duas perguntas diferentes: “Ela entregou a tarefa?” e “O que foi necessário para que conseguisse entregar?”. A segunda pode revelar um esforço familiar que a primeira não mostra.
O desempenho não deve ser interpretado por uma nota isolada. Da mesma forma, ser quieto, distraído ou sonhador, por si só, não caracteriza um transtorno.
Como diferenciar TDAH de outras dificuldades?
Sono insuficiente, ansiedade, depressão e dificuldades de aprendizagem podem produzir queixas semelhantes. Algumas condições também podem coexistir com o TDAH. A avaliação considera história do desenvolvimento, persistência, prejuízo e manifestações em diferentes ambientes. Questionários ajudam, mas não fazem o diagnóstico sozinhos. [4,5]
Não é necessário esperar uma reprovação para conversar com um profissional. Dificuldades recorrentes e sofrimento já justificam buscar orientação.
Como ajudar sem transformar a rotina em cobranças?
O plano de cuidado pode envolver orientação familiar, intervenções comportamentais, apoio escolar e medicação, conforme a avaliação clínica. O nome da apresentação não determina sozinho o tratamento. [6]
Como exemplos de aplicação prática, a família pode combinar um lugar para guardar o material, dividir a preparação da mochila em etapas e conferir a agenda junto com a criança. Na escola, pode ser útil verificar se ela compreendeu a orientação antes de interpretar a atividade incompleta como desinteresse.
Trocar “você nunca presta atenção” por “qual foi a última parte que você conseguiu acompanhar?” torna a conversa mais específica. O objetivo é oferecer apoio e desenvolver autonomia, ajustando a ajuda conforme a necessidade.
A mensagem principal
TDAH predominantemente desatento não significa “TDAH sem nenhum traço de hiperatividade”. Significa uma determinada apresentação clínica, que precisa ser compreendida além do rótulo. Reconhecer dificuldades pouco visíveis é uma forma de cuidar, não de reduzir a criança a um diagnóstico.
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Referências
- Substance Abuse and Mental Health Services Administration. DSM-5 Changes: Implications for Child Serious Emotional Disturbance. 2016. Tabela 7: DSM-IV to DSM-5 Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder Comparison.
- National Institute of Mental Health. Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder: What You Need to Know. Revisão de 2024.
- Centers for Disease Control and Prevention. Symptoms of ADHD. Consulta em setembro de 2026.
- Centers for Disease Control and Prevention. Diagnosing ADHD. Consulta em setembro de 2026.
- National Institute for Health and Care Excellence. Attention deficit hyperactivity disorder: diagnosis and management. Diretriz NG87.
- Wolraich ML, Hagan JF Jr, Allan C, et al. Clinical Practice Guideline for the Diagnosis, Evaluation, and Treatment of Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder in Children and Adolescents. Pediatrics. 2019;144(4):e20192528.
Conteúdo educativo. Não substitui avaliação profissional individualizada.





