Por Dr. Luis Pimenta
A criança começa a guardar os brinquedos, encontra uma peça interessante e passa a brincar. Abre o caderno, resolve uma questão, levanta para buscar água e não retoma a atividade. Para a família, parece que falta vontade: “Você começa tudo e não termina nada”.
Antes de interpretar esse comportamento como preguiça, precisamos entender em qual etapa a criança está encontrando dificuldade. Começar, continuar e concluir uma atividade são habilidades diferentes. Uma criança pode saber fazer a tarefa e ainda precisar de apoio para percorrer todo o caminho.
O que existe entre começar e terminar?
Guardar o quarto exige perceber o que está fora do lugar, escolher por onde começar, manter a proposta em mente e resistir às distrações. Uma atividade escolar acrescenta outras exigências: compreender a pergunta, organizar a resposta e conferir se ficou algo faltando.
Essas habilidades fazem parte das funções executivas, que ajudam a organizar ações para alcançar um objetivo. No TDAH, elas podem estar comprometidas, mas as dificuldades variam entre as crianças. Não existe um único perfil de funcionamento. [1]
Por isso, “ela sabe o conteúdo” não explica tudo. Saber resolver uma conta é diferente de conseguir terminar uma página inteira de exercícios com autonomia.
Como isso pode aparecer no TDAH?
A criança pode perder o objetivo após uma interrupção, abandonar uma tarefa com várias etapas ou chegar quase ao fim e esquecer a entrega. Na adolescência, pode produzir um trabalho, mas não enviá-lo no prazo.
Em atividades interessantes, o desempenho pode ser melhor. Isso não comprova que as dificuldades nas demais situações sejam voluntárias: interesse, novidade, apoio e organização da atividade influenciam o funcionamento. Também não significa que gostar de um jogo e evitar a lição seja suficiente para suspeitar de TDAH. [1]
Exemplo fictício: uma menina consegue organizar suas cartas favoritas, mas trava diante do pedido “arrume o quarto”. Quando o adulto muda a orientação para “coloque primeiro os livros nesta prateleira”, ela começa. O exemplo mostra uma possibilidade de apoio, não um teste diagnóstico.
Nem sempre a explicação é TDAH
Uma tarefa muito difícil, instruções pouco claras, cansaço e receio de errar também podem levar ao abandono. Uma criança que não compreendeu a leitura pode parecer desatenta; outra pode apagar repetidamente por medo de entregar algo imperfeito.
Observe se o problema está em uma matéria, em atividades muito longas ou em diferentes situações. A avaliação considera outras explicações e o impacto na vida da criança. [2]

Como ajudar na prática
- Defina um resultado visível: “Vamos guardar os carrinhos nesta caixa” é mais claro do que “organize tudo”.
- Apresente uma etapa por vez: depois de concluída, mostre a seguinte.
- Combine pequenas pausas: o tamanho do bloco deve acompanhar a capacidade atual da criança, sem impor um tempo universal.
- Ajude na retomada: “Você estava nesta questão; vamos ler a próxima juntos”.
- Reconheça o progresso: “Você voltou depois da pausa e terminou esta parte”.
Essas propostas são exemplos de aplicação de estrutura e reforço positivo. Precisam ser ajustadas à idade e à família. Treinamento parental e estratégias comportamentais podem ajudar a construir esse plano. [1,3]
O apoio deve diminuir gradualmente conforme a criança aprende. Fazer tudo por ela evita o problema naquele dia, mas não ensina como concluir. Exigir autonomia muito acima do que ela consegue também pode ampliar os conflitos.
Quando procurar avaliação?
Procure ajuda quando o padrão é persistente, compromete a aprendizagem ou a rotina e gera conflitos frequentes, mesmo com expectativas adequadas à idade. Leve exemplos do que acontece antes de a atividade ser abandonada e do apoio que ajuda.
A pergunta mais útil é: “O que está impedindo meu filho de chegar ao final?” A resposta permite orientar o cuidado e ensinar uma habilidade, em vez de apenas repetir a cobrança.
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Referências
- Malloy-Diniz LF, Alvarenga MAS, Abreu N, Fuentes D, Leite WB. Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade: tratamento farmacológico e não farmacológico. In: Petersen CS, Wainer R, organizadores. Terapias cognitivo-comportamentais para crianças e adolescentes: ciência e arte. Porto Alegre: Artmed; 2011. Cap. 7.
- Wolraich ML, Hagan JF Jr, Allan C, et al. Clinical Practice Guideline for the Diagnosis, Evaluation, and Treatment of Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder in Children and Adolescents. Pediatrics. 2019;144(4):e20192528.
- Centers for Disease Control and Prevention. Parent Training in Behavior Management. Consultado em 3 de outubro de 2026.





