Por Dr. Luis Pimenta
Levantar antes de terminar uma atividade, responder antes de ouvir a pergunta inteira ou entrar em uma brincadeira sem esperar a vez pode gerar conflitos. Quando isso se repete, a criança pode ouvir que é “malcriada” ou que “não quer obedecer”.
Esses comportamentos têm diferentes explicações. Em algumas crianças, fazem parte do TDAH predominantemente hiperativo-impulsivo. Entender essa apresentação exige distinguir dificuldades de autorregulação de julgamentos sobre caráter — e lembrar que atividade intensa, sozinha, não confirma diagnóstico.
O que caracteriza essa apresentação?
Na apresentação predominantemente hiperativo-impulsiva, são preenchidos os requisitos do grupo de hiperatividade-impulsividade, mas não os do grupo de desatenção, considerando os últimos seis meses. Isso não exige ausência completa de distrações ou esquecimentos. [1]
Portanto, uma criança pode ter essa apresentação e também apresentar dificuldades de atenção. “Predominantemente” não significa “exclusivamente”. O profissional avalia o padrão completo, e não apenas o comportamento mais visível.
Hiperatividade não é apenas correr pela casa
A hiperatividade pode aparecer como movimento excessivo para a situação: levantar repetidamente, mexer mãos e pés ou ter dificuldade para participar de uma atividade tranquila. A impulsividade envolve dificuldade para esperar ou interromper uma resposta imediata. Falar excessivamente e interromper os outros também podem fazer parte do quadro. [2,3]
Veja exemplos ilustrativos:
- Durante um jogo: Gabriel conhece a regra, mas pega a peça antes da sua vez. Depois se arrepende e diz que queria continuar brincando.
- Na sala de aula: Marina responde antes de a professora terminar. Seu comentário pode até estar correto, mas a maneira de participar prejudica a dinâmica da turma.
- Em uma saída familiar: André deixa a fila repetidas vezes e precisa de acompanhamento próximo para não se afastar do grupo.
Esses exemplos ajudam a separar saber o que fazer de conseguir colocar isso em prática de forma consistente. Não são, isoladamente, provas de TDAH.

O que muda conforme a idade?
Crianças pequenas naturalmente se movimentam muito e ainda estão aprendendo a esperar. A comparação precisa considerar o desenvolvimento, as exigências do ambiente e o prejuízo, não a expectativa de que uma criança se comporte como um adulto.
Na adolescência, a hiperatividade pode ficar menos evidente e aparecer como inquietação, enquanto dificuldades para conter impulsos continuam relevantes. A apresentação também pode mudar com o tempo; não é uma identidade definitiva. [2,3]
Uma pergunta útil para a família é: “Estamos oferecendo uma atividade e um tempo de espera adequados à idade?”. Outra é: “Mesmo com ajustes razoáveis, a dificuldade continua atrapalhando muito?”. São observações para compartilhar na consulta, não um teste doméstico.
Não é sinônimo de agressividade ou falta de limites
Agressividade não define essa apresentação. Conflitos, irritação ou desobediência precisam ser compreendidos por seus próprios motivos, inclusive quando coexistem com o TDAH.
Reconhecer uma dificuldade não significa abandonar regras. Uma orientação pode ser firme e acolhedora: “Eu não vou deixar você empurrar. Vamos esperar aqui juntos e depois tentar novamente”. O foco é proteger, ensinar e praticar, sem humilhar.
Se houver episódios perigosos ou mudanças importantes de comportamento, eles devem ser discutidos diretamente com o profissional, em vez de serem automaticamente atribuídos à impulsividade.
Como é feita a avaliação?
O diagnóstico não depende de ver uma criança agitada no consultório. É necessário compreender o que acontece ao longo do tempo e em diferentes contextos. Sono, ansiedade, dificuldades escolares e outras condições podem contribuir para comportamentos semelhantes ou coexistir com o TDAH. [4,5]
Relatos concretos ajudam mais que adjetivos: contar o que aconteceu antes, durante e depois de uma situação permite uma avaliação mais informativa do que dizer apenas “ele é impossível”.
Como ajudar no cotidiano?
O cuidado é planejado conforme idade, prejuízo e necessidades. Nos pré-escolares, intervenções comportamentais com os cuidadores têm papel central. Nas demais idades, estratégias familiares e escolares e a avaliação médica de medicação integram as possibilidades de tratamento. [6]
Como aplicações práticas, podem ser combinadas regras curtas, oportunidades planejadas de movimento e elogios específicos quando a criança consegue esperar. Em uma brincadeira, por exemplo, o adulto pode ajudar a marcar de quem é a vez e reconhecer pequenas conquistas.
O objetivo não é tornar a criança imóvel ou apagar sua espontaneidade. É ajudá-la a participar com mais segurança, menos conflitos e maior autonomia.
A mensagem principal
TDAH predominantemente hiperativo-impulsivo não exclui sintomas de desatenção. O nome descreve uma apresentação clínica; não explica sozinho toda a personalidade ou todo comportamento da criança.
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Referências
- Substance Abuse and Mental Health Services Administration. DSM-5 Changes: Implications for Child Serious Emotional Disturbance. 2016. Tabela 7: DSM-IV to DSM-5 Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder Comparison.
- National Institute of Mental Health. Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder: What You Need to Know. Revisão de 2024.
- Centers for Disease Control and Prevention. Symptoms of ADHD. Consulta em setembro de 2026.
- Centers for Disease Control and Prevention. Diagnosing ADHD. Consulta em setembro de 2026.
- National Institute for Health and Care Excellence. Attention deficit hyperactivity disorder: diagnosis and management. Diretriz NG87.
- Wolraich ML, Hagan JF Jr, Allan C, et al. Clinical Practice Guideline for the Diagnosis, Evaluation, and Treatment of Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder in Children and Adolescents. Pediatrics. 2019;144(4):e20192528.
Conteúdo educativo. Não substitui avaliação profissional individualizada.





