Por Dr. Luis Pimenta
“Meu coração está disparado.” “Parece que não consigo respirar.” “Estou com medo de morrer.” Ouvir essas frases de um filho assusta. Entender o que está acontecendo exige acolher o sofrimento e avaliar os sintomas com cuidado.
O transtorno do pânico envolve ataques de pânico recorrentes e inesperados, acompanhados de preocupação persistente com novas crises ou de mudanças no comportamento para tentar evitá-las. Uma crise isolada não confirma esse diagnóstico. [1]
O quadro pode começar na infância, embora seu início seja mais frequente na adolescência. Há tratamento, e reconhecer a dificuldade ajuda a organizar o cuidado. [2]
O que é transtorno do pânico?
O termo síndrome do pânico também é usado para se referir ao transtorno do pânico. [1]
Para o diagnóstico, além dos ataques recorrentes e inesperados, pelo menos um deles deve ser seguido por um mês ou mais de preocupação com novas crises ou suas consequências, ou de mudanças prejudiciais no comportamento relacionadas a elas. Outras explicações precisam ser avaliadas. Não é necessário esperar esse prazo para buscar ajuda. [1]
Qual é a diferença entre ataque de pânico e transtorno do pânico?
O ataque de pânico é um episódio de medo ou desconforto intenso que surge abruptamente e atinge seu pico em minutos. Pode acontecer sem que a pessoa tenha transtorno do pânico. [3]
Já o transtorno envolve o padrão descrito acima. “Inesperado” significa que não há um desencadeante evidente naquele momento; isso não exige que todas as crises aconteçam sem gatilhos reconhecíveis. [1,2]

Quais são os sintomas de uma crise de pânico?
Os sintomas podem incluir:
- Coração acelerado ou palpitações, suor e tremores.
- Falta de ar ou sensação de sufocamento.
- Tontura, náusea, desconforto no peito ou formigamento.
- Sensação de estranhamento em relação ao próprio corpo.
- Medo intenso de morrer ou perder o controle. [4]
A duração varia. O pico rápido dos sintomas não significa que todas as manifestações desapareçam em poucos minutos. Esses sinais também podem ocorrer em outras condições e precisam ser interpretados no contexto clínico. [3,4]
Como o transtorno do pânico pode aparecer no dia a dia?
O medo de uma nova crise pode interferir na escola, nas relações e na participação em atividades. Às vezes, a família percebe primeiro as mudanças na rotina. Os exemplos abaixo são ilustrativos e não funcionam como critérios de diagnóstico. [2]
Em casa: receio de ficar sem ajuda
Uma criança pode passar a pedir que um responsável permaneça por perto porque teme sentir-se mal. Imagine um menino que antes ficava no quarto enquanto os pais preparavam o jantar e agora pergunta repetidamente: “Se acontecer de novo, vocês vão me ouvir?”.
Na escola: vontade de sair ou faltar
Um adolescente pode recear ter outra crise durante a aula. Por exemplo, depois de um episódio, ele começa a pedir para ir embora antes de entrar na sala. Conversar sobre o que teme ajuda a compreender a recusa escolar. [2]
Nos passeios: desistir de atividades desejadas
Imagine uma adolescente que gostaria de ir ao cinema, mas cancela porque teme passar mal longe dos pais. Nesse exemplo, perguntar “O que você imagina que aconteceria lá?” pode abrir uma conversa mais útil do que insistir apenas para que ela vá.
Por que aparece o “medo de ter medo”?
Depois de uma crise, a pessoa pode começar a temer outra e evitar situações associadas ao episódio. Esse ciclo de antecipação e evitação pode ampliar a ansiedade. [4]
Um exemplo ilustrativo: um adolescente percebe o coração acelerar e pensa que uma nova crise está começando. Assustado, presta cada vez mais atenção ao corpo. A interpretação das sensações passa a fazer parte do problema — algo que pode ser trabalhado em terapia.
Transtorno do pânico e agorafobia são a mesma coisa?
São diagnósticos distintos, que podem coexistir. Na agorafobia, há medo persistente de situações em que escapar ou conseguir ajuda parece difícil, como transporte público, filas ou multidões. A avaliação considera um conjunto de critérios; evitar um passeio isolado não confirma o quadro. [5]
Quando procurar ajuda?
Procure avaliação se as crises se repetem, se o medo de outra crise passa a restringir a rotina ou se a criança ou o adolescente começa a faltar à escola e abandonar atividades. Também vale buscar orientação após um primeiro episódio que tenha causado sofrimento importante. [2]
Quando os sintomas físicos exigem atendimento imediato?
Não atribua automaticamente falta de ar, dor no peito ou desmaio à ansiedade, mesmo quando já existe diagnóstico de transtorno do pânico.
Procure atendimento de urgência diante de dificuldade importante para respirar, perda de consciência, confusão ou dor forte no peito, especialmente quando acompanhada de mal-estar intenso. Dor no peito durante esforço ou associada a desmaio também exige avaliação médica. [6]
Um primeiro episódio ou sintomas diferentes dos habituais precisam ser avaliados. Se houver dúvida sobre a causa de uma alteração respiratória, procure ajuda médica imediatamente. [3]
Como é feita a avaliação do transtorno do pânico?
A avaliação reúne o relato da criança ou do adolescente e da família e, quando necessário, informações da escola. O profissional investiga início, frequência, situações envolvidas, repercussões e outras dificuldades emocionais. Questionários podem complementar a consulta, mas não estabelecem o diagnóstico sozinhos. [5]
Também são considerados medicamentos, cafeína e outras substâncias, além de condições físicas que podem provocar sintomas parecidos, como asma, alterações cardíacas ou da tireoide. Não suspenda medicações prescritas por conta própria. Exames são solicitados conforme a história e o exame físico. [5,6]
Uma crise pode estar relacionada a outra forma de ansiedade?
Sim. Quando o medo está ligado principalmente a ser observado ou julgado, a avaliação pode considerar a ansiedade social em crianças e adolescentes. Quando o centro da preocupação é ficar longe dos responsáveis, pode considerar a ansiedade de separação. Esses quadros também podem coexistir. [5]
Como é o tratamento do transtorno do pânico?
A avaliação individual é imprescindível para decidir o tratamento. Idade, desenvolvimento, intensidade do sofrimento, condições associadas e necessidades da família orientam o plano.
Psicoterapia: TCC adaptada ao pânico
A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é uma abordagem recomendada para os transtornos de ansiedade nessa faixa etária. [7]
No tratamento do pânico, pode trabalhar a interpretação das sensações físicas e a retomada de situações evitadas. Uma técnica é a exposição interoceptiva, que ajuda a lidar com sensações corporais temidas, em condições planejadas pelo terapeuta. [1]
Esses exercícios exigem avaliação e orientação profissional; não devem ser improvisados pelos pais para provocar uma crise ou “provar” que o filho consegue suportá-la.
Há estudos específicos de TCC para adolescentes com transtorno do pânico, mas essa base de pesquisa ainda é menor que a disponível para os transtornos de ansiedade pediátricos em conjunto. [7,8]
Quando os medicamentos podem ser considerados?
Conforme a avaliação, o médico pode considerar inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS). Em situações selecionadas, inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN) podem ser alternativas. Psicoterapia e medicação também podem ser combinadas. [7]
Essa decisão exige discutir benefícios, riscos e acompanhamento. A família precisa receber orientação sobre efeitos adversos e sinais a comunicar ao médico, como agitação importante, mudanças de humor ou pensamentos de autoagressão. A evidência medicamentosa específica para pânico pediátrico é limitada, o que reforça a necessidade de individualizar a indicação. [7]
O que os pais podem fazer para ajudar?
Durante uma crise já avaliada: oferecer presença e seguir o plano
Quando os sintomas correspondem ao padrão já avaliado e não há sinais de alerta, siga as orientações combinadas com a equipe:
- Permaneça próximo e fale com calma, usando frases curtas.
- Reconheça o medo e pergunte o que costuma ajudar.
- Ofereça um ambiente seguro e incentive uma respiração confortável e regular, sem exigir grandes inspirações repetidas.
- Não use saco de papel para respirar: essa prática pode reduzir perigosamente o oxigênio. [3]
Uma frase possível é: “Eu estou aqui. Vamos seguir o que combinamos com o profissional”. Se houver piora ou dúvida sobre os sintomas, procure atendimento.
Entre as crises: apoiar a retomada da rotina
Acolher o medo e ajudar a enfrentar dificuldades em etapas são atitudes que podem caminhar juntas. Combine com a equipe como reduzir as evitações, respeitando as condições clínicas e o desenvolvimento. [9]
Por exemplo, se o objetivo é voltar a participar de passeios, pergunte ao terapeuta qual seria um primeiro passo adequado e que apoio oferecer. Evite transformar a atividade em uma surpresa ou desafio imposto.
Construir um plano com a escola
Família, escola e profissionais podem combinar quem acolhe o aluno, como reconhecer sinais que exigem atendimento e como apoiar sua participação nas aulas. As adaptações devem ser individualizadas e revistas conforme a evolução. [9]
Uma pergunta prática para essa conversa é: “Se ele sentir medo durante a aula, o que faremos para acolhê-lo e ajudá-lo a continuar ou retomar a atividade, quando estiver seguro?”.
Cuidar dos hábitos e reconhecer avanços
Regularidade do sono, refeições, atividades prazerosas e redução da cafeína ajudam no cuidado da ansiedade. Esses hábitos complementam o tratamento. [9]
Observe avanços concretos: conseguir contar o que sentiu, participar de uma atividade combinada ou voltar à escola com o apoio previsto. O acompanhamento deve considerar o sofrimento e a recuperação da participação no cotidiano. [9]
Se o medo de novas crises está limitando a vida do seu filho, uma avaliação pode esclarecer o quadro e orientar os próximos passos. Conheça a formação e a trajetória do Dr. Luis Pimenta.
Referências
- National Institute of Mental Health. Panic disorder: what you need to know. Atualizado em 2025.
- American Academy of Child and Adolescent Psychiatry. Panic disorder in children and adolescents. Facts for Families. Nº 50. Atualizado em outubro de 2023.
- Australian and New Zealand Committee on Resuscitation. Guideline 9.2.8: first aid management of rapid breathing, including panic attack. Aprovado em março de 2023.
- National Health Service. Panic disorder.
- Klein B, Rajendram R, Hrycko S, Poynter A, Ortiz-Alvarez O, Saunders N, et al. Anxiety in children and youth: Part 1 — Diagnosis. Paediatr Child Health. 2023;28(1):45–51.
- The Royal Children’s Hospital Melbourne. Clinical practice guidelines: chest pain.
- Walter HJ, Bukstein OG, Abright AR, Keable H, Ramtekkar U, Ripperger-Suhler J, et al. Clinical practice guideline for the assessment and treatment of children and adolescents with anxiety disorders. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2020;59(10):1107–1124. doi:10.1016/j.jaac.2020.05.005.
- Pincus DB, May JE, Whitton SW, Mattis SG, Barlow DH. Cognitive-behavioral treatment of panic disorder in adolescence. J Clin Child Adolesc Psychol. 2010;39(5):638–649. doi:10.1080/15374416.2010.501288.
- Bobbitt S, Kawamura A, Saunders N, Monga S, Penner M, Andrews D. Anxiety in children and youth: Part 2 — The management of anxiety disorders. Paediatr Child Health. 2023;28(1):60–66.





