Por Dr. Luis Pimenta
“E se rirem de mim?” “E se eu falar alguma coisa errada?” “Prefiro não ir.” Essas frases podem aparecer antes de uma apresentação, de uma festa ou até de uma conversa com colegas. Para entender o que significam, é importante conhecer o medo que existe por trás delas.
O transtorno de ansiedade social, também chamado de fobia social, envolve medo intenso e persistente de ser avaliado negativamente, constrangido ou rejeitado em situações sociais. A criança ou o adolescente pode evitar essas situações ou enfrentá-las com muito sofrimento. [1]
Reconhecer essa dificuldade permite buscar apoio sem transformar o jeito de ser da criança em um problema.
O que é ansiedade social?
A ansiedade social está relacionada à possibilidade de ser observado ou julgado por outras pessoas. Pode envolver falar diante da turma, iniciar uma conversa, pedir informação, comer perto de colegas ou participar de uma atividade em grupo. O medo pode aparecer antes, durante e depois da situação. [2]
Um exemplo ilustrativo: uma adolescente quer participar de um passeio, mas imagina que ficará sem assunto e que todos a acharão desinteressante. Ela acaba desistindo, embora desejasse estar com os amigos.
Esse exemplo mostra por que é útil perguntar o que a criança teme, em vez de concluir que ela simplesmente não gosta de companhia.
Qual é a diferença entre timidez e ansiedade social?
Sentir vergonha em uma situação nova pode fazer parte do desenvolvimento. Um temperamento mais reservado também não é, por si só, um transtorno. A avaliação considera a intensidade e a persistência do medo, o sofrimento e o quanto a participação fica comprometida. [3]
Por exemplo, duas crianças podem falar pouco em uma festa. Uma está satisfeita brincando com um amigo. A outra quer se aproximar dos colegas, mas acredita que será ridicularizada e passa o encontro inteiro angustiada. A quantidade de palavras, isoladamente, não explica essa diferença.
Quem tem amigos também pode ter ansiedade social?
Sim. O medo pode se concentrar em algumas situações, como apresentações ou contato com pessoas menos conhecidas. Além disso, nem todos evitam completamente: alguns participam apesar de um desconforto intenso. Ter amigos ou conseguir responder em sala não exclui o transtorno. [1]
Como a ansiedade social pode aparecer no dia a dia?
Os exemplos a seguir são ilustrativos e ajudam a organizar a observação. Nenhum deles, sozinho, confirma um diagnóstico.
Em casa: preocupação antes e depois dos encontros
A dificuldade pode se tornar visível antes de sair, com perguntas sobre quem estará presente ou tentativas de cancelar um compromisso. Em crianças menores, o sofrimento pode aparecer como choro, irritação ou necessidade de que um responsável conduza a interação. [2]
Imagine um menino que diz não querer ir ao aniversário de um colega. Em uma conversa tranquila, ele conta que gostaria de ir, mas teme não encontrar ninguém com quem brincar. Essa informação muda a maneira de compreender a recusa.
Na escola: medo de errar diante dos outros
A criança pode evitar levantar a mão, pedir ajuda, ler em voz alta ou participar de apresentações. A ansiedade social também pode dificultar a ida à escola e a convivência com os colegas. [2]
Uma aluna pode saber a resposta e permanecer calada por medo de gaguejar. Outro aluno pode não esclarecer uma dúvida porque imagina que os colegas vão considerá-lo incapaz. Observar apenas o desempenho nas provas pode deixar essas dificuldades passar despercebidas.
Na adolescência: aproximação, conversas e exposição
Conhecer pessoas, iniciar conversas e participar de grupos podem provocar preocupação com constrangimento ou rejeição. [2]
Um exemplo possível é o adolescente que deseja conversar com alguém, mas ensaia tantas vezes a primeira frase que desiste de se aproximar. A mesma preocupação pode aparecer ao escrever uma mensagem: ele a apaga repetidamente porque imagina que será mal interpretado.
Nesse exemplo, o ponto a compreender é o medo que limita a comunicação; usar mensagens ou redes sociais, isoladamente, não define o problema.
No corpo: sinais que também precisam ser escutados
Rubor, suor, tremor, coração acelerado, desconforto no estômago e sensação de “dar branco” podem acompanhar a ansiedade social. Às vezes, o receio de que os outros percebam esses sintomas aumenta ainda mais a tensão. [1]
Sintomas físicos merecem avaliação conforme a história clínica. Não se deve atribuir automaticamente todo desconforto à ansiedade. [3]
Por que o medo pode continuar mesmo quando nada ruim acontece?
Algumas tentativas de evitar constrangimento podem dificultar a descoberta de que a situação seria suportável. O adolescente pode monitorar cada palavra, vigiar se está tremendo ou planejar mentalmente todas as respostas. Parte da atenção fica voltada para como ele imagina estar sendo visto, em vez de acompanhar a conversa. [4]
Essas estratégias são chamadas, no contexto terapêutico, de comportamentos de segurança. Estudos experimentais com adolescentes indicam que o foco excessivo em si e determinados comportamentos de segurança podem contribuir para manter a ansiedade. Isso não significa que qualquer apoio seja prejudicial; é preciso compreender a função de cada comportamento. [4]
Por exemplo, um aluno só aceita conversar se puder responder com uma palavra. Quando a interação termina, pode pensar: “Só não passei vergonha porque falei quase nada”. Assim, continua sem experimentar se conseguiria desenvolver uma conversa com apoio adequado.
Compreender esse processo ajuda a planejar o tratamento, sem responsabilizar a criança pelo medo que sente.

Quando procurar ajuda para ansiedade social?
Vale buscar avaliação quando o medo começa a restringir a vida ou torna atividades comuns muito sofridas. Observe o que a criança ou o adolescente gostaria de fazer, o que precisa fazer e o que está deixando de fazer por receio de julgamento.
O critério de duração do transtorno inclui persistência por seis meses ou mais, junto dos demais elementos necessários ao diagnóstico. Esse prazo não é uma orientação para esperar antes de procurar ajuda. [1]
Algumas perguntas úteis para a conversa com o profissional são:
- Quais situações provocam mais medo e o que a criança imagina que acontecerá?
- Ela está deixando de pedir ajuda, participar das aulas ou encontrar pessoas?
- Consegue participar, mas chega em casa muito abalada?
- Houve mudança recente no comportamento ou na frequência escolar?
Essas perguntas organizam o relato; não funcionam como um teste de ansiedade social.
Como é feita a avaliação?
A avaliação é clínica e reúne informações da criança ou do adolescente, dos responsáveis e, quando pertinente, da escola. Considera desenvolvimento, início dos sintomas, intensidade, contextos e repercussões. Questionários podem complementar esse processo, mas não confirmam o diagnóstico sozinhos. Adolescentes também precisam de espaço para conversar com privacidade. [3]
É importante investigar dificuldades de aprendizagem e comunicação, depressão, outras formas de ansiedade e condições do neurodesenvolvimento. Autismo e ansiedade social, por exemplo, podem coexistir. Dificuldades nas relações não devem ser explicadas por um único rótulo sem uma avaliação abrangente. [3]
Também é necessário compreender a convivência com colegas e investigar bullying, exclusão ou outras ameaças reais. O cuidado deve incluir a proteção e as mudanças necessárias no ambiente. [5]
Ansiedade social e mutismo seletivo são a mesma coisa?
São diagnósticos distintos que podem coexistir. Quando existe dificuldade persistente para falar em certos contextos, apesar de a criança falar em outros, a avaliação também considera o mutismo seletivo em crianças e adolescentes. [5]
Como é o tratamento da ansiedade social?
A avaliação individual é imprescindível para decidir o tratamento. O plano deve considerar idade, gravidade, outras condições presentes e necessidades da criança e da família. As metas precisam ter significado na vida cotidiana, como conseguir esclarecer uma dúvida ou participar de uma atividade desejada.
Psicoterapia: TCC voltada à ansiedade social
A terapia cognitivo-comportamental (TCC) focada em ansiedade social é uma das principais abordagens recomendadas para crianças e adolescentes. Pode ser individual ou em grupo, com participação dos responsáveis conforme a idade e as necessidades. Inclui compreender o medo, trabalhar interpretações e praticar situações sociais de maneira gradual. [5]
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2024 encontrou benefícios da TCC em diferentes formatos para reduzir sintomas de ansiedade social nessa população. As limitações dos estudos não permitem definir um único formato como a melhor escolha para todas as crianças. [6]
Um objetivo possível seria conseguir fazer uma pergunta ao professor. A equipe pode planejar etapas de dificuldade crescente, acompanhar o aprendizado e ajustar o apoio. A exposição terapêutica é combinada e adaptada; não deve ser confundida com colocar o aluno de surpresa diante da turma. [7]
Quando medicamentos podem ser considerados?
Medicamentos não são uma indicação automática. A diretriz britânica NICE prioriza a TCC e não recomenda seu uso rotineiro para ansiedade social em crianças e adolescentes. [5]
A diretriz da Academia Americana de Psiquiatria da Infância e Adolescência também reconhece os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) como opção de tratamento. A associação com psicoterapia pode ser considerada especialmente em quadros intensos e incapacitantes ou diante de resposta parcial a uma abordagem isolada. [7]
Em situações selecionadas, os inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN) podem ser alternativas, conforme a avaliação médica. A escolha da classe e do medicamento depende do caso, e não apenas do nome do transtorno. [7]
O acompanhamento deve observar benefícios, efeitos adversos e mudanças de sono, agitação, humor ou comportamento. Pensamentos de autoagressão exigem atenção imediata. Início, ajustes e retirada precisam de orientação médica. [7]
O que os pais podem fazer para ajudar no dia a dia?
Escute o medo sem transformar a conversa em cobrança
Procure entender o que parece ameaçador para seu filho. Validar a emoção e incentivar o enfrentamento gradual são atitudes que podem caminhar juntas. Comparações, ridicularização e ordens para “deixar de ser tímido” não ajudam a compreender a dificuldade. [8]
Uma fala possível seria:
“Percebi que você quer participar, mas está com medo de errar. Vamos pensar em um primeiro passo e no apoio de que precisa.”
Combine um passo possível, ligado a algo que ele deseja
Escolha com a criança uma situação concreta para trabalhar com a equipe. É mais útil definir uma oportunidade de participação do que estabelecer a meta vaga de “ser mais sociável”. [8]
Por exemplo, se ela deseja participar de uma oficina, o primeiro passo pode envolver conhecer a atividade com um adulto de referência. A etapa seguinte dependerá da dificuldade observada e do plano terapêutico.
O objetivo é ampliar a liberdade de participar e fazer escolhas. Não é necessário transformar uma criança reservada em alguém que goste de ser o centro das atenções.
Observe quando a ajuda passa a impedir qualquer tentativa
Responder sempre pelo filho ou cancelar sistematicamente situações temidas pode aliviar o desconforto imediato, mas também contribuir para manter a evitação. Essas mudanças na rotina são estudadas como acomodação familiar. Há intervenções para os pais que trabalham a redução gradual da acomodação junto do apoio emocional. [9]
Imagine que os responsáveis façam todos os pedidos em uma lanchonete porque o adolescente teme falar com o atendente. Uma mudança pode ser planejada com ele e com o terapeuta, começando por uma tarefa possível. Retirar toda a ajuda de uma vez não é o objetivo.
A participação da família no tratamento serve para construir alternativas e não para atribuir culpa aos pais. A pesquisa sobre essas intervenções abrange transtornos de ansiedade na infância de forma mais ampla, não exclusivamente ansiedade social. [9]
Reconheça a participação e o aprendizado
Valorize ações concretas e evite medir o sucesso apenas pela ausência de ansiedade. [8]
Depois de uma tentativa, você pode perguntar:
“Você conseguiu esclarecer sua dúvida mesmo estando nervoso. O que aconteceu de diferente do que imaginava?”
Essa conversa abre espaço para reconhecer avanços sem prometer que ninguém jamais fará uma crítica ou que toda interação será fácil.
Combine com a escola como apoiar a participação
Família, profissionais e professores podem planejar oportunidades graduais de participação e acompanhar a evolução. Quando há exclusão ou bullying, é necessário intervir no ambiente. [5]
Em uma apresentação, por exemplo, pode-se começar com público menor e combinar a progressão. As adaptações devem acompanhar as necessidades e os objetivos do aluno, preservando sua dignidade.
Cuide também da rotina e dos vínculos
Sono regular, atividade física, momentos em família e oportunidades de convivência compatíveis com os interesses da criança podem apoiar o cuidado. Esses hábitos complementam o tratamento quando há um transtorno. [8]
Se o medo de julgamento está limitando a vida do seu filho, uma avaliação pode ajudar a compreender o quadro e organizar os próximos passos. Conheça a trajetória e as informações de atendimento do Dr. Luis Pimenta e os demais conteúdos sobre ansiedade na infância e adolescência.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui avaliação individual.
Referências
- National Institute of Mental Health. Social anxiety disorder: what you need to know. Revisado em 2025.
- National Health Service. Social anxiety (social phobia). Revisado em 17 maio 2023.
- Klein B, Rajendram R, Hrycko S, Poynter A, Ortiz-Alvarez O, Saunders N, et al. Anxiety in children and youth: Part 1 — Diagnosis. Paediatr Child Health. 2023;28(1):45–51.
- Leigh E, Chiu K, Clark DM. Self-focused attention and safety behaviours maintain social anxiety in adolescents: an experimental study. PLoS One. 2021;16(2):e0247703.
- National Institute for Health and Care Excellence. Social anxiety disorder: recognition, assessment and treatment. Clinical guideline CG159. 2013. Recomendações sobre crianças e adolescentes.
- Xian J, Zhang Y, Jiang B. Psychological interventions for social anxiety disorder in children and adolescents: a systematic review and network meta-analysis. J Affect Disord. 2024;365:614–627.
- Walter HJ, Bukstein OG, Abright AR, Keable H, Ramtekkar U, Ripperger-Suhler J, et al. Clinical practice guideline for the assessment and treatment of children and adolescents with anxiety disorders. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2020;59(10):1107–1124.
- Bobbitt S, Kawamura A, Saunders N, Monga S, Penner M, Andrews D. Anxiety in children and youth: Part 2 — The management of anxiety disorders. Paediatr Child Health. 2023;28(1):60–66.
- Lebowitz ER, Marin C, Martino A, Shimshoni Y, Silverman WK. Parent-based treatment as efficacious as cognitive-behavioral therapy for childhood anxiety: a randomized noninferiority study of supportive parenting for anxious childhood emotions. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2020;59(3):362–372.





