Por Dr. Luis Pimenta
Em casa, a criança conversa, faz perguntas e conta histórias. Na escola, porém, não consegue responder à professora ou pedir ajuda. Essa diferença pode deixar a família confusa: se ela fala em um lugar, por que não consegue falar em outro?
O mutismo seletivo é um transtorno de ansiedade em que a criança ou o adolescente apresenta uma dificuldade persistente para falar em determinadas situações, apesar de conseguir falar em outras. A palavra “seletivo” descreve os contextos em que isso acontece; não significa que a criança esteja escolhendo ficar em silêncio. [1]
Reconhecer esse bloqueio ajuda os adultos a compreender o que está acontecendo e a buscar apoio adequado.
O que é mutismo seletivo?
O mutismo seletivo faz parte dos transtornos de ansiedade na infância e na adolescência. A dificuldade pode depender do ambiente, das pessoas presentes e da atividade: uma criança pode falar com um colega durante uma brincadeira e ficar em silêncio quando um adulto se aproxima. [2]
Não existe uma causa única estabelecida. Características individuais e fatores do desenvolvimento e do ambiente podem participar do quadro. A avaliação não deve partir da ideia de que os pais provocaram o problema ou de que o silêncio comprova a existência de um trauma. [2]
Mutismo seletivo é apenas timidez?
A timidez, isoladamente, não define um transtorno. No mutismo seletivo, a dificuldade para falar se repete em certos contextos e limita a comunicação e a participação. Algumas crianças conseguem dizer poucas palavras quando muito necessário, mas continuam sem conseguir iniciar conversas ou responder espontaneamente. Essas pequenas falas não afastam, por si só, a possibilidade do quadro. [3]
Como o mutismo seletivo pode aparecer no dia a dia?
As situações abaixo são exemplos ilustrativos, não um teste para diagnóstico.
Em casa e com familiares
A família pode conhecer uma criança comunicativa e se surpreender com o relato da escola. Em outros casos, ela fala com os pais, mas não com determinados parentes ou visitantes. A presença de alguém menos familiar pode mudar a maneira como consegue se comunicar. [3]
Na escola
O aluno pode compreender a atividade, acompanhar a turma e ainda assim não conseguir responder oralmente. Também pode sussurrar para um amigo, usar gestos ou parecer paralisado quando alguém lhe faz uma pergunta. Algumas crianças têm dificuldade até para apontar ou acenar. [3]
Imagine uma aluna que termina os exercícios, mas permanece com o lápis quebrado porque não consegue pedir outro. Se o adulto observar apenas a tarefa incompleta, poderá deixar de perceber a dificuldade de comunicação.
Na adolescência
O quadro pode persistir e interferir em apresentações, novas amizades e situações em que o adolescente precisa falar por si. O receio de que todos comentem a primeira vez que ele falar também pode se tornar uma barreira. Por isso, o cuidado precisa respeitar sua privacidade e seu momento de desenvolvimento. [2]
Quando suspeitar de mutismo seletivo e procurar ajuda?
Vale buscar avaliação quando a dificuldade de falar se repete e interfere na aprendizagem, nas relações ou na possibilidade de expressar necessidades. Não é preciso haver queda nas notas para que exista sofrimento ou prejuízo. [2]
Entre os critérios diagnósticos, considera-se uma duração de pelo menos um mês, sem que a dificuldade fique limitada ao primeiro mês de escola. Esse critério ajuda a diferenciar o quadro de uma adaptação inicial, mas não deve ser usado como motivo para adiar ajuda diante de prejuízo importante. [4]
Para conversar com o profissional, a família pode organizar observações simples:
- Com quem a criança consegue falar?
- Em quais lugares a fala fica mais difícil?
- Ela consegue comunicar que precisa de ajuda?
- O que os professores observam ao longo do dia?
Levar exemplos concretos costuma ser mais informativo do que apresentar apenas o rótulo de “muito tímida”.
Como é feita a avaliação do mutismo seletivo?
A avaliação reúne a história do desenvolvimento, informações da família e da escola e a observação da comunicação em diferentes situações. O cuidado pode envolver profissionais de saúde mental com experiência na infância e adolescência, fonoaudiólogo e equipe escolar. A investigação também considera audição, compreensão da linguagem e habilidades de fala. [5]
A criança não precisa conseguir falar com o profissional para que a avaliação comece. Gestos, brincadeiras e outras formas de participação oferecem informações. Quando pertinente, registros de fala feitos em situações confortáveis podem complementar o relato familiar, com cuidado para preservar a privacidade e evitar pressão para gravar. [5]
Mutismo seletivo, autismo e dificuldades de linguagem
O silêncio, sozinho, não identifica autismo nem exclui dificuldades de linguagem. Essas condições podem coexistir com mutismo seletivo. Cabe à avaliação verificar se o padrão de bloqueio da fala constitui um problema adicional ou se é mais bem explicado por outra condição. [4]
E quando a criança é bilíngue?
Falar pouco em um idioma que a criança ainda está aprendendo não basta para diagnosticar mutismo seletivo. É necessário considerar sua familiaridade com cada língua e como ela se comunica com diferentes pessoas e em diferentes ambientes. O bilinguismo, por si só, não define o transtorno. [4]
Como é o tratamento do mutismo seletivo?
O tratamento busca ampliar a comunicação e a participação, com redução da ansiedade. O plano precisa considerar idade, intensidade do prejuízo, outras dificuldades presentes e os contextos em que a fala fica bloqueada.
Terapia: intervenções graduais e adaptadas à criança
As intervenções comportamentais e a terapia cognitivo-comportamental (TCC) adaptada ao mutismo seletivo, com exposição gradual às situações de fala, estão entre as abordagens com melhor apoio científico. Uma meta-análise publicada em 2025 encontrou melhora nas medidas de comunicação após tratamentos comportamentais. Entretanto, a quantidade limitada de estudos controlados exige cautela com promessas de resultado. [6]
Na prática, o profissional organiza desafios pequenos e progressivos. Pode começar por uma atividade em que a criança já se comunica com segurança e, gradualmente, incluir outra pessoa ou modificar o ambiente. A família e a escola participam para que os avanços aconteçam também fora do consultório. [7]
Por exemplo, uma etapa pode envolver falar com alguém conhecido durante um jogo, antes de tentar a mesma atividade com uma pessoa menos familiar. A sequência é individual: não existe uma “escada” de exercícios que sirva para todas as crianças.
Quando medicamentos podem ser considerados?
Em alguns casos, principalmente diante de prejuízo importante e resposta insuficiente às intervenções psicológicas e escolares, o médico pode considerar medicamentos como parte do tratamento. Os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) são a classe mais estudada nesse contexto, mas a evidência específica para mutismo seletivo ainda é limitada. [8]
Um estudo observacional publicado em 2026 encontrou associação entre uso de ISRS e maior melhora da fala em crianças atendidas em internação ou hospital-dia. Como não houve distribuição aleatória do tratamento, esse resultado não demonstra, isoladamente, que a medicação tenha causado a melhora nem que seja indicada para todos. [9]
A avaliação médica individual é imprescindível para decidir se há indicação de medicamento. A escolha exige ponderar benefícios, possíveis efeitos adversos e necessidade de acompanhamento. A medicação, quando indicada, integra o cuidado e não substitui o trabalho com a comunicação nos ambientes em que existe dificuldade. [8]
O mutismo seletivo pode melhorar?
Sim. Estudos de acompanhamento mostram que crianças podem apresentar avanços duradouros após tratamento, embora parte delas continue com dificuldades de fala ou ansiedade social. Não é possível prometer um prazo de recuperação. O acompanhamento deve observar também a capacidade de pedir ajuda, participar e se comunicar com diferentes pessoas, além da ansiedade que permanece. [7]
O que os pais podem fazer para ajudar no dia a dia?
Reduza a pressão para falar
Evite insistências como “fale logo” ou “você fala em casa, então consegue aqui”. Castigos, cobranças públicas e tentativas de obter uma fala a qualquer custo podem aumentar a ansiedade. Quando uma palavra aparecer, responda com naturalidade e acolhimento, sem transformar o momento em uma apresentação para outras pessoas. [1]
Uma resposta possível seria: “Obrigado por me contar”, seguida da continuidade da atividade.
Crie oportunidades de convivência que não dependam da fala
Brincadeiras, desenhos e atividades compartilhadas podem facilitar a aproximação. A criança precisa continuar sendo incluída, mesmo quando ainda não consegue falar. Evite defini-la diante dos outros como “a que não fala” e converse com os adultos sobre formas de acolher sua participação. [10]
Em uma visita, por exemplo, montar algo junto pode ser uma forma de aproximação mais confortável do que reunir várias pessoas para fazer perguntas à criança.
Combine com a escola como ela poderá pedir ajuda
É importante estabelecer meios acessíveis para comunicar necessidades, como ir ao banheiro, beber água ou avisar que algo dói. Dependendo da criança, podem ser usados gestos, cartões, escrita ou um adulto de referência. Se ela também tiver dificuldade com essas alternativas, a equipe precisa verificar suas necessidades de forma discreta e ativa. [10,11]
Esses apoios permitem a participação enquanto o tratamento trabalha a ampliação da fala. Devem ser revistos conforme a evolução, sem retirar abruptamente um recurso de que a criança ainda precisa. Necessidades básicas não devem depender de conseguir responder oralmente. [11]
Planeje desafios com a equipe, sem surpresas
Apresentações e outras atividades orais podem precisar de adaptações, como começar com um público menor ou uma situação previamente combinada. Família, professores e profissionais devem compartilhar os objetivos e acompanhar o que está funcionando. [11]
Para um adolescente, vale perguntar — inclusive por escrito, se necessário — quais situações ele gostaria de conseguir enfrentar primeiro. Participar dessas escolhas é uma forma de respeitar sua autonomia.
Prepare mudanças de turma, professor ou escola
Conhecer o espaço e aproximar-se de um adulto de referência antes da mudança pode ajudar na transição. A nova equipe precisa conhecer as formas de comunicação já possíveis e os apoios necessários. Também é importante prevenir rótulos, provocações e exclusão pelos colegas. [10]

Qual é o próximo passo para a família?
Se você reconheceu situações parecidas, reúna as observações de casa e da escola e procure uma avaliação. O objetivo é compreender o que dificulta a comunicação e construir um plano que faça sentido para aquela criança ou adolescente.
Para conhecer minha trajetória profissional e as informações de atendimento, acesse a página do Dr. Luis Pimenta.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui avaliação individual.
Referências
- National Health Service. Selective mutism. Revisado em 17 fev. 2023.
- Oerbeck B, Manassis K, Overgaard KR, Kristensen H. Selective mutism. In: Rey JM, Martin A, editors. JM Rey’s IACAPAP e-Textbook of Child and Adolescent Mental Health. Geneva: IACAPAP; 2019. Capítulo F.5.
- Royal College of Speech and Language Therapists. Selective mutism: overview. 2018.
- American Speech-Language-Hearing Association. Selective mutism. Practice Portal. Consultado em 14 set. 2026.
- Communication Health Support Association. Selective mutism. Consultado em 14 set. 2026.
- Iimura D, Tsujita N, Aoki M, Hagihara H. Meta-analysis of behavioral treatments for selective mutism: findings from selective mutism questionnaire (SMQ) and school speech questionnaire (SSQ). Child Adolesc Psychiatry Ment Health. 2025;19:40.
- Oerbeck B, Overgaard KR, Stein MB, Pripp AH, Kristensen H. Treatment of selective mutism: a 5-year follow-up study. Eur Child Adolesc Psychiatry. 2018;27:997–1009.
- Manassis K, Oerbeck B, Overgaard KR. The use of medication in selective mutism: a systematic review. Eur Child Adolesc Psychiatry. 2016;25(6):571–578.
- Sachs C, Platte S, Chiocchetti AG, Freitag CM. Effectiveness of selective serotonin reuptake inhibitors in inpatients with selective mutism compared to social anxiety disorder: an observational study. Eur Child Adolesc Psychiatry. 2026;35:1533–1544.
- Selective Mutism Information & Research Association. Information for professionals. Consultado em 14 set. 2026.
- Selective Mutism Association. 504 plan suggestions. Consultado em 14 set. 2026.





