O que é ansiedade infantil? Entenda por que ela existe e quando pode deixar de ser uma emoção saudável

Home / Ansiedade / O que é ansiedade infantil? Entenda por que ela existe e quando pode deixar de ser uma emoção saudável

Veja também:

O que é ansiedade infantil? Entenda como ela surge no cérebro da criança

A ansiedade infantil é uma resposta natural do organismo diante de situações percebidas como ameaçadoras. Ela pode surgir antes de uma prova, durante a separação dos pais ou ao enfrentar algo novo. Embora sentir ansiedade não signifique que exista uma doença, é fundamental entender como essa emoção se manifesta no cérebro da criança. Neste artigo, exploramos as diferenças entre medo e ansiedade, o papel das estruturas cerebrais e como a ansiedade pode se tornar patológica. Descubra como ajudar seu filho a desenvolver um sistema de alerta saudável e a lidar com suas emoções de forma eficaz.

Leia mais »

Introdução

Ver uma criança preocupada, insegura ou com medo desperta dúvidas em muitos pais. Será que isso é normal? Crianças realmente podem sentir ansiedade? Ou a ansiedade é um problema que afeta apenas adolescentes e adultos?

A resposta é simples: todas as crianças sentem ansiedade.

Na verdade, a ansiedade é uma emoção essencial para a sobrevivência humana. Ela faz parte do desenvolvimento normal e ajuda a reconhecer perigos, antecipar situações e preparar o organismo para responder a desafios. Sem ansiedade, uma criança poderia atravessar uma rua movimentada sem olhar para os lados, aproximar-se de um animal agressivo sem cautela ou não perceber riscos importantes do ambiente.

O problema não é sentir ansiedade. O problema surge quando esse sistema de proteção passa a funcionar de maneira exagerada, ativando um “alarme” mesmo quando não existe um perigo real.

Neste artigo, você entenderá o que é ansiedade infantil, por que ela existe, como funciona no cérebro e como uma emoção natural pode, em algumas situações, evoluir para um transtorno de ansiedade.


O que é ansiedade?

A ansiedade é uma resposta natural do organismo diante da percepção de uma ameaça, de um desafio ou de uma situação considerada importante.

Ela envolve mudanças simultâneas em diferentes sistemas do corpo:

  • cérebro;
  • sistema nervoso autônomo;
  • sistema hormonal;
  • pensamentos;
  • emoções;
  • comportamento.

Em outras palavras, ansiedade não é apenas uma sensação de preocupação. É uma resposta integrada que prepara todo o organismo para agir rapidamente diante de possíveis perigos.

Do ponto de vista evolutivo, esse mecanismo aumentou significativamente as chances de sobrevivência da espécie humana. Durante milhares de anos, identificar rapidamente uma ameaça significava maior probabilidade de permanecer vivo.

Embora atualmente os perigos sejam diferentes daqueles enfrentados pelos nossos ancestrais, o cérebro continua utilizando praticamente os mesmos mecanismos biológicos.


Por que a ansiedade existe?

Imagine uma criança caminhando por uma trilha e encontrando uma cobra.

Em poucos milissegundos, antes mesmo que ela tenha tempo de pensar conscientemente sobre a situação, seu cérebro inicia uma resposta automática.

O coração acelera.

A respiração fica mais rápida.

Os músculos recebem maior fluxo de sangue.

As pupilas dilatam.

A atenção fica completamente voltada para o possível perigo.

Todo esse processo acontece para preparar o organismo para três possíveis respostas:

  • fugir;
  • enfrentar;
  • permanecer imóvel (“congelamento”), quando essa estratégia oferece maior chance de proteção.

Essa resposta é conhecida como resposta ao estresse ou resposta de “luta, fuga ou congelamento” (fight, flight or freeze).

Sem ela, nossa capacidade de adaptação ao ambiente seria muito menor.


Como a ansiedade funciona no cérebro?

Embora muitas áreas do cérebro participem da ansiedade, algumas estruturas desempenham papéis centrais.

A principal delas é a amígdala, um pequeno conjunto de neurônios localizado profundamente nos lobos temporais.

A amígdala funciona como um detector de ameaças.

Sua principal função é responder rapidamente a estímulos que possam representar algum perigo.

Quando identifica um possível risco, ela envia sinais para diversas regiões do cérebro e do corpo antes mesmo que a situação seja analisada de forma consciente.

Outras estruturas importantes incluem:

  • Hipotálamo: ativa respostas hormonais e autonômicas relacionadas ao estresse.
  • Hipocampo: associa experiências passadas ao contexto atual, ajudando a reconhecer situações semelhantes.
  • Córtex pré-frontal: avalia racionalmente a situação e pode reduzir ou interromper a resposta de ansiedade quando percebe que não existe um perigo real.

Em crianças, esse sistema ainda está em desenvolvimento.

O córtex pré-frontal — responsável por regular emoções, controlar impulsos e reinterpretar ameaças — amadurece lentamente e continua seu desenvolvimento até o início da vida adulta.

Por isso, as crianças tendem a responder de forma mais intensa aos medos e às situações novas do que os adultos.


Como o corpo responde à ansiedade?

Quando o cérebro identifica uma possível ameaça, ele ativa dois sistemas principais.

O primeiro é o sistema nervoso simpático, responsável pelas respostas rápidas.

Em poucos segundos ocorre a liberação de adrenalina e noradrenalina.

Essas substâncias aumentam a frequência cardíaca, aceleram a respiração, elevam a pressão arterial e deixam o organismo preparado para agir.

Se o estresse persiste, entra em ação um segundo mecanismo: o eixo hipotálamo–hipófise–adrenal (HHA).

Esse sistema leva à produção de cortisol, um hormônio que ajuda o organismo a manter energia suficiente para enfrentar situações prolongadas de estresse.

Em condições normais, quando o cérebro percebe que o perigo passou, esses sistemas são gradualmente desligados e o organismo retorna ao equilíbrio.


Por que algumas crianças são mais ansiosas do que outras?

Não existe uma única causa para a ansiedade infantil.

Ela resulta da interação entre fatores biológicos, psicológicos e ambientais.

Entre os fatores biológicos, destacam-se características genéticas e diferenças individuais no funcionamento do cérebro. Crianças com um temperamento mais inibido, cauteloso ou sensível costumam apresentar maior predisposição ao desenvolvimento de ansiedade.

O ambiente também exerce grande influência. Experiências de vida, estilo parental, eventos estressantes, bullying, doenças médicas e outras situações podem aumentar ou reduzir essa vulnerabilidade.

Isso significa que ansiedade não é consequência de “falta de limites”, “fraqueza emocional” ou “erro dos pais”. Ela surge da interação complexa entre predisposição individual e experiências vividas ao longo do desenvolvimento.


A ansiedade faz parte do desenvolvimento infantil

Durante o crescimento, é esperado que diferentes medos apareçam em determinadas fases.

Bebês costumam estranhar pessoas desconhecidas.

Crianças pequenas frequentemente apresentam medo de separação.

Na idade pré-escolar, medos relacionados ao escuro, monstros ou animais imaginários são comuns.

Com o avanço da idade, esses medos tendem a dar lugar a preocupações mais abstratas, como desempenho escolar, amizades ou aceitação social.

Essas mudanças refletem o amadurecimento do cérebro e o desenvolvimento cognitivo da criança.

Ter medo nessas fases não significa, por si só, que exista um transtorno.


Quando a ansiedade deixa de ser apenas uma emoção?

Em condições normais, a ansiedade é temporária.

Ela aparece diante de um desafio, ajuda a criança a lidar com aquela situação e depois diminui naturalmente.

Entretanto, algumas vezes esse sistema de proteção torna-se excessivamente sensível.

O cérebro passa a interpretar situações comuns como se fossem perigos reais.

É como um alarme residencial que dispara não apenas quando há um invasor, mas também quando o vento balança uma janela ou um galho toca o telhado.

Nesses casos, uma emoção originalmente adaptativa pode evoluir para um transtorno de ansiedade, caracterizado por medo ou preocupação desproporcionais, persistentes e capazes de causar sofrimento ou prejuízo no funcionamento da criança.

Nos próximos artigos deste guia, explicaremos como diferenciar a ansiedade esperada do desenvolvimento dos transtornos de ansiedade, quais são os principais sintomas, como é realizado o diagnóstico e quais tratamentos apresentam maior eficácia.


Principais pontos

  • A ansiedade é uma emoção natural e necessária para a sobrevivência.
  • Todas as crianças sentem ansiedade em algum momento do desenvolvimento.
  • O cérebro utiliza estruturas como a amígdala, o hipocampo, o hipotálamo e o córtex pré-frontal para identificar e regular ameaças.
  • A resposta de ansiedade envolve alterações no cérebro, nos hormônios, no sistema nervoso e no comportamento.
  • Fatores genéticos, temperamento e ambiente interagem para determinar a vulnerabilidade de cada criança.
  • A ansiedade torna-se patológica quando o sistema de alarme permanece ativado de forma exagerada, mesmo diante de situações que não representam perigo real.

Continue aprendendo sobre ansiedade infantil

Se você deseja aprofundar esse tema, leia também os próximos artigos desta série:

  • Ansiedade normal × transtorno de ansiedade: como diferenciar o esperado do que merece atenção.
  • Sintomas de ansiedade por idade: como a ansiedade se manifesta em cada fase do desenvolvimento.
  • Como é feito o diagnóstico da ansiedade infantil: avaliação clínica, critérios diagnósticos e sinais de alerta.
  • Como é o tratamento da ansiedade infantil: intervenções baseadas em evidências.
  • Ansiedade infantil tem cura? Prognóstico, evolução e fatores associados a uma boa resposta ao tratamento.

Referências

  1. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5-TR). 5th ed. Text Revision. Washington, DC: APA; 2022. 
  2. Thapar A, Pine DS, Leckman JF, Scott S, Snowling MJ, Taylor E, eds. Rutter’s Child and Adolescent Psychiatry.6th ed. Wiley-Blackwell; 2015. 
  3. Kendall PC, Peterman JS. Cognitive behavioral therapy for anxiety disorders in youth: current status and future directions. Dialogues Clin Neurosci. 2015;17(2):165-172.
  4. Walter HJ, Bukstein OG, Abright AR, et al. Clinical Practice Guideline for the Assessment and Treatment of Children and Adolescents With Anxiety Disorders. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2020;59(10):1107-1124.
  5. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Generalised anxiety disorder and panic disorder in adults: management e diretrizes relacionadas aos transtornos de ansiedade na infância e adolescência.

Gostou do post? Compartilhe!

Por:

Foto de Dr. Luis Felipe Pimenta

Dr. Luis Felipe Pimenta

Psiquiatria da Infância e Adolescência – CRM 163289 | RQE 70571