Por Dr. Luis Pimenta
Comportamento esperado ou sinal de alerta? Uma birra, um medo ou uma dificuldade para seguir regras pode fazer parte do desenvolvimento. Vale procurar avaliação quando o comportamento causa sofrimento, risco ou prejuízo importante [1]. Isso acontece, por exemplo, quando a criança deixa de aprender, brincar, conviver ou participar da rotina como antes, ou como seria possível com o apoio adequado. Para entender o que está acontecendo, olhe também para a idade, a frequência, a intensidade, a duração e a situação em que o comportamento aparece. Quatro perguntas ajudam a organizar esse olhar.
O que esse comportamento está atrapalhando?
Pense na escola, em casa, no brincar, nas amizades e na rotina da família. A criança deixou de ir a festas que gostaria de frequentar? A escola precisa interromper atividades repetidamente para ajudá-la? As manhãs ficaram tão difíceis que ela perde aulas e os pais precisam reorganizar o trabalho com frequência?
O Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH) lista motivos para buscar ajuda [1]. Entre eles estão o sofrimento da criança ou da família e o prejuízo na escola, em casa ou com amigos. Também vale perguntar se as exigências do ambiente são razoáveis para aquela criança.
Compare duas situações fictícias. Uma criança prefere organizar os brinquedos por cor. Ela ainda consegue variar a brincadeira, se diverte e participa quando quer. Essa preferência não sugere um transtorno. Outra faz birra, algo que também acontece com muitas crianças. As crises, porém, são tão frequentes e intensas que ela deixou de brincar com amigos, perde atividades na escola e a família evita sair de casa. Nesse caso, o impacto justifica avaliação.
Um prejuízo importante em um único ambiente já merece atenção [1]. Se a dificuldade aparece apenas na escola, por exemplo, vale investigar o que está acontecendo ali. Isso não é um diagnóstico.
A habilidade é esperada para a idade e a fase do desenvolvimento?
Uma criança pequena pode precisar de um adulto para esperar a vez, encerrar uma brincadeira ou se acalmar depois de uma frustração. Com o desenvolvimento, ela costuma ganhar recursos para lidar com essas situações. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) definem marcos do desenvolvimento como coisas que a maioria das crianças consegue fazer até certa idade. Oferecem listas por idade do nascimento até os 5 anos [3]. Os medos também mudam com a idade: diminuem em frequência e intensidade, e muitos são passageiros [4].
Quando uma habilidade ainda não aparece como esperado, a avaliação ajuda a entender o motivo. Pode haver uma diferença no ritmo de desenvolvimento ou uma dificuldade de linguagem ou de aprendizagem. A criança também pode precisar de mais apoio e de oportunidades para praticar. Se a criança perdeu uma habilidade que já tinha, a CDC orienta conversar com o pediatra [3]. Esse caso merece avaliação sem adiar.
Que regra foi quebrada e o que aconteceu em volta?
Crianças aprendem aos poucos as regras de convivência e as noções de certo e errado. Aprendem também limites que protegem a segurança e os direitos de outras pessoas. Uma criança pequena que pega o brinquedo de um colega e um adolescente que ameaça outro estudante pedem respostas diferentes.
Considere se a regra estava clara, se era adequada à idade, se a criança tinha condições de cumpri-la e se houve dano. O Instituto Nacional de Excelência em Saúde e Cuidados do Reino Unido (NICE) tem uma diretriz sobre comportamento antissocial. Ela lembra que atos isolados não bastam para sustentar o diagnóstico de transtorno de conduta. O diagnóstico exige padrões repetitivos e persistentes de comportamento antissocial, agressivo ou de oposição [2].
Brigas, agressões ou violações graves de regras que se repetem merecem investigação. A diretriz recomenda avaliação inicial quando pais, escola ou profissionais se preocupam com comportamento antissocial persistente [2]. Um episódio que coloca alguém em risco exige ação mesmo que seja o primeiro. Quebrar uma regra não define um transtorno.
Está acontecendo em excesso ou está fazendo falta?
Um comportamento comum pode se tornar preocupante pelo excesso: acontece com muita frequência, dura muito, é difícil de interromper ou tem intensidade muito maior do que a situação costuma exigir. Também pode haver algo fazendo falta. Uma criança que gostava de brincar quase não procura mais os brinquedos, ou participa cada vez menos de atividades que costumava aproveitar.
A NIMH cita como sinais a perda de interesse por coisas de que a criança gostava e o comportamento que dura semanas ou mais [1]. Para entender a mudança, compare com o jeito habitual da criança e veja se ela consegue retomar a atividade com apoio.
O que levar para a consulta?
Anote dois ou três exemplos: o que aconteceu antes, o que a criança fez, quanto tempo levou para se recuperar, o que ajudou e o que ela deixou de fazer. Quando possível, pergunte à escola o que observa e em quais situações a criança vai bem. A avaliação costuma incluir entrevista com os pais sobre o desenvolvimento, o temperamento e as relações da criança, e informações da escola [1].
A pergunta que costumo fazer é: "O que essa criança está deixando de conseguir fazer, e de que ajuda ela precisa?" Ela ajuda a decidir o próximo passo. Vale usá-la quando um comportamento chama atenção, quando a rotina da família está difícil ou quando o sofrimento aparece de um jeito discreto.
Quando procurar o médico?
Procure o pediatra ou um profissional de saúde mental infantil se acontecer alguma destas situações:
- O comportamento dura semanas ou mais [1].
- Causa sofrimento à criança ou à família, ou atrapalha a escola, a casa ou as amizades [1].
- A criança perdeu uma habilidade que já tinha [3].
- Brigas, agressões ou violações de regras se repetem [2].
- A criança fala em se machucar ou machuca outras pessoas. Procure atendimento imediato, no pronto-socorro ou pelo SAMU 192 [1].
Perguntas frequentes
Birra é normal?
Birras ocasionais fazem parte do desenvolvimento de muitas crianças. Vale avaliar quando as crises são tão frequentes e intensas que a criança deixa de brincar, de aprender ou de participar da rotina, ou quando duram semanas ou mais [1].
Se o problema aparece só na escola, precisa de avaliação?
Um prejuízo importante em um único ambiente já merece atenção. A NIMH lista escola, casa e amizades como lugares onde o prejuízo conta [1]. Vale investigar o que acontece ali, sem concluir que existe um transtorno.
Quebrar regras é sinal de transtorno de conduta?
Não necessariamente. Atos isolados não bastam para o diagnóstico, que exige padrões repetitivos e persistentes [2]. A avaliação considera a idade, o contexto e se houve dano.
Meu filho perdeu uma habilidade que já tinha. Posso esperar?
A CDC orienta conversar com o pediatra quando a criança perde habilidades que já tinha [3]. Converse sem adiar.
Leia também: Comportamento Infantil, como o comportamento infantil se desenvolve até os 5 anos e nem toda alteração de comportamento na infância é transtorno.
Se você quiser conversar sobre o comportamento do seu filho, atendo presencialmente em Bauru, no Jardim América, e por teleconsulta, de segunda a sexta, das 8h às 19h. O agendamento pode ser feito pelo WhatsApp.
Dr. Luis Pimenta, Médico Pediatra Pós Graduado em Psiquiatria da Infância e Adolescência · CRM-SP 163.289 · RQE 70.571
Atendimento presencial em Bauru e região, e teleconsulta.
Publicado em 7 de novembro de 2026 · Revisado em 7 de novembro de 2026
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica.
Referências
- National Institute of Mental Health (NIMH). Children and Mental Health: Is This Just a Stage? Página da NIMH
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Antisocial behaviour and conduct disorders in children and young people: recognition and management. Diretriz CG158, 2013, atualizada em 2017. Recomendações 1.3.2 e 1.3.10. Diretriz CG158
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Learn the Signs. Act Early. Developmental Milestones. Página da CDC
- Gullone E. The development of normal fear: a century of research. Clin Psychol Rev. 2000;20(4):429-451. doi:10.1016/s0272-7358(99)00034-300034-3)





