Meu filho interrompe conversas: como ensinar a esperar a vez?

Home / TDAH / Meu filho interrompe conversas: como ensinar a esperar a vez?

Veja também:

Criança aprende a esperar a vez numa conversa com os pais.

Por Dr. Luis Pimenta

Dois adultos conversam e a criança entra no meio para contar algo. Na escola, responde antes que a pergunta termine. Num jogo, toma a vez do colega. Os responsáveis podem pensar: “Ela conhece a regra, por que continua fazendo isso?”

Conhecer uma regra e conseguir aplicá-la no momento são capacidades diferentes. Esperar exige perceber a vez do outro, manter a própria ideia em mente e conter o impulso de agir imediatamente.

Como a impulsividade pode participar?

No TDAH, interromper e ter dificuldade para aguardar a vez podem fazer parte das manifestações de impulsividade. Isso não significa que a criança queira desrespeitar as pessoas. Também não retira a necessidade de aprender limites. [1]

Algumas crianças contam que têm medo de esquecer o que queriam dizer. Outras parecem responder antes de avaliar a situação. Entender essa experiência ajuda a escolher o apoio, sem justificar qualquer atitude.

O foco deste artigo é a troca de turnos: uma criança pode falar pouco e ainda interromper, enquanto outra fala bastante quando chega sua vez. São dificuldades relacionadas, mas diferentes.

A idade e a situação fazem diferença

Uma criança pequena precisa de ajuda para esperar. Longas conversas entre adultos podem exigir uma capacidade que ela ainda não tem. Além disso, nem toda interrupção deve ser adiada: dor, medo, risco e necessidades urgentes precisam de resposta.

Exemplo fictício: um menino interrompe a mãe várias vezes para mostrar um desenho. Eles combinam um sinal para pedidos que podem esperar, e ela responde: “Eu vi seu sinal. Vou terminar esta frase e olhar”. A mãe cumpre o combinado. O menino tem uma referência concreta de espera e a garantia de que será ouvido.

Essa é uma possibilidade, não uma técnica obrigatória. Para funcionar, o intervalo precisa ser adequado à capacidade atual da criança.

Outras explicações também importam

Ansiedade, dificuldade para compreender as regras da conversa, excitação e necessidade de ajuda podem aumentar as interrupções. Se ela interrompe principalmente quando precisa fazer uma atividade sozinha, investigue se consegue realizá-la.

Um único comportamento não estabelece TDAH; o diagnóstico exige uma avaliação mais ampla. [2]

Criança aprende a esperar a vez numa conversa com os pais.

Como ensinar a vez de cada um

  • Combine a regra antes da situação: explique quando é possível esperar e quando deve chamar imediatamente.
  • Reconheça o pedido: ignorar completamente pode fazer a criança aumentar a insistência.
  • Comece com esperas curtas: amplie de forma gradual, conforme houver sucesso.
  • Ofereça uma forma de guardar a ideia: adolescentes podem anotar uma palavra; crianças menores podem usar um apoio combinado.
  • Pratique em situações leves: brincadeiras com turnos permitem ensinar fora do momento de conflito.

Esses exemplos traduzem princípios de instrução clara, prática e reforço positivo. Podem integrar um plano de orientação parental. [3]

Na escola, um sinal discreto ou uma combinação prévia pode ajudar mais do que chamar a atenção diante de toda a turma. Quando a criança interromper, redirecione de modo breve e dê oportunidade de tentar novamente.

E quando ela sabe a regra, mas continua?

Observe se o tempo de espera é viável, se o adulto cumpre os combinados e se a criança tem apoio suficiente. Repetir a regra com mais intensidade não resolve necessariamente a dificuldade de aplicá-la.

Quando o padrão prejudica amizades, participação escolar ou relações familiares, procure avaliação. Treinamento parental, estratégias escolares e o tratamento do TDAH, quando confirmado, podem fazer parte do cuidado.

Ensinar a esperar não precisa significar deixar a criança sem voz. O objetivo é ajudá-la a ser ouvida e a reconhecer que outras pessoas também precisam de espaço.

Leia também

Referências

  1. Centers for Disease Control and Prevention. Symptoms of ADHD. Consultado em 3 de outubro de 2026.
  2. Wolraich ML, Hagan JF Jr, Allan C, et al. Clinical Practice Guideline for the Diagnosis, Evaluation, and Treatment of Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder in Children and Adolescents. Pediatrics. 2019;144(4):e20192528.
  3. Malloy-Diniz LF, Alvarenga MAS, Abreu N, Fuentes D, Leite WB. Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade: tratamento farmacológico e não farmacológico. In: Petersen CS, Wainer R, organizadores. Terapias cognitivo-comportamentais para crianças e adolescentes: ciência e arte. Porto Alegre: Artmed; 2011. Cap. 7.

Gostou do post? Compartilhe!

Por:

Foto de Dr. Luis Pimenta

Dr. Luis Pimenta

Psiquiatria da Infância e Adolescência – CRM 163289 | RQE 70571