Por Dr. Luis Pimenta
A criança levanta durante a refeição, balança as pernas, corre pela sala de espera e sobe nos móveis. A família fica exausta de repetir: “Sente um pouco”. Mas quanto movimento é esperado e quando precisamos investigar?
Ter muita energia não é suficiente para diagnosticar TDAH. Crianças precisam brincar e se movimentar. A interpretação depende da idade, da situação e de quanto aquela agitação compromete a vida cotidiana.
Movimento esperado e dificuldade para regular o movimento
Um pré-escolar não tem a mesma capacidade de permanecer sentado que um adolescente. Uma espera longa, um ambiente sem espaço para brincar ou um dia com poucas oportunidades de movimento podem aumentar a inquietação.
No TDAH, a hiperatividade pode se manifestar como dificuldade persistente para adequar o movimento à situação. Além de levantar e correr, pode aparecer como mexer em objetos ou sentir inquietação. Isso não define sozinho o diagnóstico. [1]
A pergunta não deve ser apenas “ele se mexe muito?”, mas “o que acontece quando precisa acompanhar uma atividade, aguardar ou manter-se em segurança?”
Por que “ficar parado” pode ser uma meta ruim?
Uma criança pode balançar discretamente as pernas e ainda acompanhar a aula. Outra permanece sentada, mas não consegue participar. Imobilidade e atenção não são a mesma coisa.
Exemplo fictício: um menino interrompe a lição para andar pela casa. O adulto passa a combinar partes menores e uma pausa planejada para movimento. Ao retornar, mostra exatamente onde continuar. O objetivo é melhorar a participação na tarefa, e não exigir que o corpo fique imóvel o tempo todo.
Isso não significa liberar qualquer comportamento. Correr perto da rua ou escalar um móvel instável exige intervenção imediata e supervisão. Segurança deve ser preservada enquanto a criança aprende outras formas de agir.
Outras explicações precisam ser consideradas
Ansiedade, sono insuficiente, desconforto físico e sobrecarga ambiental podem contribuir para a agitação. Uma mudança abrupta, diferente do padrão habitual, merece investigação.
Se a inquietação começou ou piorou após introdução ou ajuste de medicamento, informe o médico. Não atribua automaticamente a mudança ao TDAH nem altere a prescrição por conta própria.
A avaliação considera condições associadas e possíveis causas alternativas. [2]

Como ajudar em casa e na escola
- Planeje oportunidades de movimento: brincar e se exercitar devem fazer parte da rotina, sem servir como punição.
- Antecipe as esperas: explique o que vai acontecer e leve uma atividade adequada ao ambiente.
- Defina limites concretos: “Aqui caminhamos; podemos correr no espaço combinado”.
- Alterne atividades quando possível: períodos de esforço sentado podem ser intercalados com pausas.
- Valorize participação e segurança: reconheça quando a criança consegue retornar, esperar ou respeitar um limite.
Essas sugestões são adaptações práticas, escolhidas conforme a necessidade. Organização do ambiente e orientação de cuidadores fazem parte do cuidado no TDAH. [3]
Ferramentas como objetos de manipulação ou assentos diferentes não ajudam todas as crianças. Se forem utilizadas, observe se favorecem a atividade ou se tornam mais uma distração.
Quando procurar avaliação?
Quando a agitação traz risco, dificulta o convívio ou impede a participação em atividades adequadas à idade, procure ajuda. A escola pode contribuir descrevendo situações específicas, sem resumir a criança à palavra “agitada”.
A meta do cuidado é ampliar segurança, participação e autonomia. Uma criança não precisa perder sua espontaneidade para receber limites e apoios que a ajudem a funcionar melhor.
Leia também
Referências
- Centers for Disease Control and Prevention. Symptoms of ADHD. Consultado em 3 de outubro de 2026.
- Wolraich ML, Hagan JF Jr, Allan C, et al. Clinical Practice Guideline for the Diagnosis, Evaluation, and Treatment of Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder in Children and Adolescents. Pediatrics. 2019;144(4):e20192528.
- Malloy-Diniz LF, Alvarenga MAS, Abreu N, Fuentes D, Leite WB. Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade: tratamento farmacológico e não farmacológico. In: Petersen CS, Wainer R, organizadores. Terapias cognitivo-comportamentais para crianças e adolescentes: ciência e arte. Porto Alegre: Artmed; 2011. Cap. 7.





