Por Dr. Luis Pimenta
O medo de os pais morrerem pode expressar uma dúvida sobre a morte, uma reação a uma perda ou uma preocupação intensa com a separação. Para saber como ajudar, é preciso entender o que a criança imagina e quanto essa preocupação interfere no sono, na escola e na autonomia.
“E se você sair e não voltar?” Por trás dessa pergunta, pode haver mais de uma preocupação: perder alguém amado, ficar sozinho ou não saber quem cuidaria dela. Responder apenas “isso não vai acontecer” pode deixar a dúvida principal sem espaço.
Por que meu filho tem medo de perder os pais?
A preocupação pode surgir depois de uma morte na família, uma internação, uma notícia ou uma conversa ouvida pela metade. Quando existe doença de um cuidador, o medo também pode estar relacionado a uma incerteza real.
Uma boa abertura é: “Quando você pensa que eu posso morrer, o que mais assusta?” As respostas ajudam a diferenciar necessidades. “Quem vai me buscar?” pede uma explicação concreta sobre cuidado; “não consigo parar de imaginar um acidente” pede atenção à repetição e ao sofrimento.
Evite presumir que esse medo existe porque os pais deram colo demais ou fizeram algo errado. Buscar uma explicação útil é diferente de procurar um culpado.
Quando pode estar relacionado à ansiedade de separação?
Preocupação persistente de que algo grave aconteça aos cuidadores pode acompanhar sofrimento intenso ao se afastar deles, dificuldade para dormir sem sua presença e resistência para sair de casa. A avaliação considera o desenvolvimento, a duração, a intensidade e os prejuízos, conforme o guia de ansiedade da AACAP e da APA.
O medo isolado não confirma o transtorno. Leia também sobre ansiedade de separação em crianças e adolescentes.
Como essa preocupação pode aparecer em casa e na escola?
Imagine estas situações cotidianas, apresentadas apenas como exemplos:
- A criança pergunta várias vezes se a mãe está bem sempre que ela tosse.
- Pede notícias do pai a cada poucos minutos quando ele está trabalhando.
- Fica muito angustiada se o responsável atrasa para buscá-la.
- Só consegue participar de uma atividade se souber que um cuidador ficará ao lado.
- Um adolescente desiste de um passeio porque teme que algo aconteça à família durante sua ausência.
O que diferencia uma preocupação passageira de uma dificuldade que precisa de apoio não é apenas o assunto “morte”. Observe a liberdade que a criança vai perdendo e quanto esforço a família precisa fazer para que o dia aconteça.
Como responder quando a criança pergunta se os pais vão morrer
Seja verdadeiro sem antecipar detalhes assustadores
Você não precisa resolver todas as dúvidas sobre a vida em uma conversa. Uma resposta possível é: “As pessoas não vivem para sempre. Entendo que isso assusta. Hoje estamos aqui juntos, e os adultos são responsáveis por cuidar de você”.
Se a criança perguntar sobre sua saúde, responda de acordo com a realidade. Dizer “estou saudável” só faz sentido se isso for verdadeiro. Evite garantir que uma pessoa doente ficará bem quando esse desfecho ainda é incerto.
Descubra qual informação está faltando
Pode ser que ela tenha ouvido “o papai vai fazer uma cirurgia” sem entender quem ficará com ela nesse período. Explique o que já está definido: quem levará à escola, onde vai dormir e quando poderá receber notícias.
Quando uma morte realmente acontece, informações claras sobre mudanças na rotina e espaço para expressar sentimentos ajudam a criança a se orientar. A Nemours recomenda preparar a criança para o que acontecerá após uma perda.
Não coloque a segurança dos adultos nas mãos da criança
Evite mensagens como “você precisa cuidar de mim” ou “se você sair, vou ficar triste e passar mal”. É possível valorizar o carinho do filho sem torná-lo responsável pela saúde física ou emocional dos cuidadores.
Uma alternativa é: “Eu gosto muito de estar com você. Quando você estiver na escola, os adultos vão cuidar do que precisam cuidar”. Adapte a frase à situação real da família.
O que fazer quando ele pede garantias o tempo todo?
Comece registrando o padrão, sem repreender: em quais momentos a pergunta aparece, o que o adulto responde e quanto tempo dura o alívio. Isso pode revelar, por exemplo, que a preocupação cresce na saída para a escola ou depois de assistir a notícias.
Com esse registro, é possível discutir com o profissional como oferecer apoio sem transformar cada despedida em uma negociação cada vez maior. Não retire todo o contato ou a presença de forma abrupta para “ensinar a superar”.
Um combinado prático pode ser: “Vou te buscar depois da atividade. Se houver uma mudança, a escola vai avisar”. Prefira referências que a criança compreenda e compromissos que você realmente possa cumprir.

Quando procurar ajuda?
Procure avaliação se a preocupação estiver prejudicando a participação na escola, o sono, as relações ou a possibilidade de ficar com outros adultos de confiança. Também vale buscar apoio quando a família já tentou acolher, mas a dificuldade continua crescendo. O NHS destaca o impacto no cotidiano como um motivo para procurar ajuda para a ansiedade infantil.
Se existe doença grave, luto recente ou uma experiência assustadora, conte isso na consulta. O plano precisa considerar o que a criança vive, sem tratar toda preocupação como um medo sem fundamento.
Como é o tratamento?
O tratamento depende da avaliação. Pode envolver orientação familiar e terapia cognitivo-comportamental, com trabalho gradual sobre separações e situações evitadas quando isso for apropriado. Após uma perda, o apoio precisa respeitar a experiência de luto.
Medicamentos, como os ISRS, podem ser considerados em transtornos de ansiedade selecionados, com avaliação médica e acompanhamento. Não são indicados automaticamente para uma criança que pergunta sobre a morte dos pais. O guia da AACAP e da APA apresenta as opções de cuidado para ansiedade.
Como os pais podem ajudar no dia a dia?
Uma forma de organizar o apoio é escolher ações pequenas e observáveis:
| Situação | Uma resposta que pode ajudar |
|---|---|
| A criança ouviu uma informação incompleta | Perguntar o que entendeu e esclarecer apenas o necessário. |
| O responsável ficará ausente | Explicar quem estará com ela e como receberá informações. |
| Há saudade de alguém que morreu | Oferecer espaço para falar ou lembrar, sem exigir uma reação específica. |
| Ela se preocupa durante uma atividade | Avisar o adulto responsável sobre a dificuldade e combinar como acolher. |
Permita que a criança participe das conversas sem fazê-la acompanhar discussões médicas detalhadas ou decisões que cabem aos adultos. Com adolescentes, pergunte quanta informação desejam e ofereça oportunidades de conversar novamente.
Perguntas frequentes
Posso prometer que nunca vou morrer?
É melhor oferecer presença e informações verdadeiras. Uma promessa impossível pode exigir novas garantias e deixa a família sem uma resposta honesta quando o assunto reaparece.
Dormir com os pais comprova ansiedade de separação?
Não. Os hábitos de sono precisam ser entendidos no contexto da família. Observe o sofrimento e o conjunto das dificuldades, não apenas onde a criança dorme.
E quando um dos pais está realmente doente?
Converse com a equipe de saúde sobre como explicar a situação. Compartilhe o que é conhecido, reconheça o que ainda não se sabe e apresente o plano de cuidado da criança. Não é necessário inventar uma certeza para acolher.
Devo envolver a escola?
Se a preocupação aparece nas despedidas ou durante as aulas, vale compartilhar o necessário e combinar um adulto de referência. Evite expor informações íntimas da família para pessoas que não precisam delas.
Se esse medo está tornando as separações muito difíceis, uma avaliação pode ajudar a organizar o apoio. Conheça o Dr. Luis Pimenta e visite a página sobre ansiedade na infância e adolescência.
Conteúdo educativo. A avaliação individual é indispensável para diagnóstico e decisão terapêutica.





