Entre os 6 e 12 anos, a ansiedade costuma mudar de forma.
Os medos mais imaginativos da primeira infância podem continuar presentes, mas, com o desenvolvimento, a criança passa a compreender melhor situações reais e a antecipar acontecimentos futuros. Por isso, preocupações com escola, provas, erros, amizades, saúde, segurança da família e aceitação pelos colegas podem ganhar espaço.
Ficar nervoso antes de uma prova, preocupar-se com uma apresentação ou sentir medo diante de uma situação nova pode fazer parte do desenvolvimento.
O problema não é sentir ansiedade.
A atenção deve aumentar quando o medo ou a preocupação se tornam excessivos, persistentes ou começam a interferir na escola, nas amizades, no sono, na autonomia ou na rotina familiar. A AAP destaca justamente a desproporção da reação e a interferência funcional como elementos importantes para distinguir ansiedade esperada de ansiedade patológica.
Entre 6 e 12 anos, uma das melhores formas de diferenciar ansiedade esperada de um possível transtorno é observar se a criança continua conseguindo aprender, brincar, conviver e enfrentar progressivamente os desafios próprios da idade.
Sumário
- Como a ansiedade aparece entre 6 e 12 anos?
- Quais medos e preocupações são comuns?
- Quais são os principais sintomas?
- Ansiedade escolar e medo de errar
- Dor de barriga e outros sintomas físicos
- Ansiedade pode parecer TDAH?
- Irritabilidade também pode ser ansiedade?
- Ansiedade social e amizades
- Bullying e medo da escola
- Ansiedade normal × sinais de alerta
- Evitação e busca constante por garantias
- O que os pais podem fazer?
- Quando procurar ajuda profissional?
- Perguntas frequentes
Como a ansiedade aparece entre 6 e 12 anos?
Na idade escolar, a criança já possui maior capacidade de reconhecer perigos, imaginar consequências e antecipar situações que ainda não aconteceram.
Isso permite pensamentos mais complexos:
“E se eu errar na prova?”
“E se todo mundo rir de mim?”
“E se minha mãe sofrer um acidente?”
“E se eu passar mal na escola?”
“E se ninguém quiser brincar comigo?”
“E se eu não conseguir?”
Alguma preocupação é esperada. Antecipar consequências, inclusive, faz parte do desenvolvimento cognitivo.
Na ansiedade problemática, entretanto, a criança pode começar a superestimar a probabilidade de algo ruim acontecer ou acreditar que não conseguirá lidar com a situação caso aconteça.
A preocupação deixa de ajudá-la a se preparar e começa a dificultar sua vida.
Quais medos e preocupações são comuns nessa idade?
Não existe uma lista de medos que toda criança obrigatoriamente apresentará. O desenvolvimento varia de uma criança para outra.
Entre 6 e 12 anos, podem surgir ou ganhar importância preocupações relacionadas a:
- desempenho escolar;
- provas e trabalhos;
- cometer erros;
- receber críticas;
- fazer amizades;
- ser aceito pelos colegas;
- falar diante da turma;
- separação dos pais;
- acidentes e doenças;
- morte;
- segurança dos familiares;
- dormir sozinho;
- animais ou tempestades;
- médicos e procedimentos;
- situações desconhecidas.
Com o crescimento, as preocupações acadêmicas e sociais tendem a adquirir maior relevância.
Ter um desses medos, isoladamente, porém, não significa que a criança tenha um transtorno de ansiedade.
O que importa é observar a intensidade, a frequência, a duração e, principalmente, quanto aquilo interfere na vida da criança.
Quais são os sintomas de ansiedade em crianças de 6 a 12 anos?
A ansiedade infantil não aparece apenas como “preocupação”.
Nessa faixa etária, os pais podem perceber uma combinação de manifestações emocionais, comportamentais, cognitivas e físicas.
Sintomas emocionais e cognitivos
A criança pode apresentar:
- preocupações excessivas;
- medo frequente de errar;
- necessidade de fazer tudo “perfeito”;
- medo de críticas ou julgamentos;
- preocupação excessiva com pais e familiares;
- dificuldade para tolerar incertezas;
- pensamentos repetitivos sobre coisas ruins que poderiam acontecer;
- necessidade constante de confirmação.
Sintomas comportamentais
Também podem surgir:
- evitar provas, apresentações ou atividades;
- não querer ir à escola;
- evitar festas ou situações sociais;
- não querer dormir longe dos pais;
- dificuldade para experimentar coisas novas;
- choro diante de situações temidas;
- irritabilidade;
- crises antes de compromissos;
- desistir de atividades antes mesmo de tentar.
Sintomas físicos
A ansiedade também pode aparecer no corpo:
- dor de barriga;
- náusea;
- dor de cabeça;
- palpitações;
- tremores;
- suor;
- tontura;
- tensão muscular;
- sensação de falta de ar;
- vontade frequente de ir ao banheiro.
Queixas físicas podem, inclusive, ser uma das primeiras formas pelas quais problemas de ansiedade chegam à atenção de pediatras.
Importante: nenhum desses sintomas, sozinho, confirma um transtorno de ansiedade. O diagnóstico depende do conjunto da história, do desenvolvimento da criança e do impacto dos sintomas sobre seu funcionamento.
Ansiedade escolar: quando é normal?
A escola apresenta desafios reais.
Provas, apresentações, trabalhos, mudanças de turma, desempenho acadêmico e relações com colegas podem provocar ansiedade mesmo em crianças emocionalmente saudáveis.
Imagine uma criança antes de uma prova.
Ela fica preocupada, sente um pouco de “frio na barriga”, estuda e pergunta aos pais se conseguirá ir bem.
No dia seguinte, faz a prova.
A ansiedade foi desconfortável, mas não impediu que ela enfrentasse a situação.
Agora imagine outra criança.
Durante vários dias, acredita que irá fracassar. Estuda repetidamente mesmo dominando o conteúdo, não consegue dormir, chora antes de sair de casa e, na manhã da prova, apresenta dor abdominal intensa e pede para faltar.
A diferença não está simplesmente em ter ou não ansiedade.
Está na intensidade do sofrimento e no quanto a ansiedade começa a determinar o comportamento da criança.
Medo de errar merece atenção
A capacidade de perceber o próprio desempenho aumenta durante a idade escolar.
A criança começa a comparar resultados, receber avaliações e perceber mais claramente as expectativas dos adultos e dos colegas.
Por isso, algum receio de errar é esperado.
O problema aparece quando o erro passa a ser interpretado como algo intolerável.
A criança pode:
- apagar e refazer tarefas repetidamente;
- demorar muito mais que o necessário em atividades simples;
- perguntar diversas vezes se fez corretamente;
- evitar responder mesmo sabendo a resposta;
- recusar atividades nas quais não tem certeza de que será bem-sucedida;
- chorar diante de pequenos erros;
- desistir antes de tentar.
Em algumas crianças, o perfeccionismo pode funcionar como uma tentativa de reduzir a incerteza.
Não se trata apenas de querer fazer algo bem.
A criança sente que precisa acertar para evitar crítica, vergonha, fracasso ou desapontamento.
Preocupação excessiva com os pais
Nessa fase, as crianças passam a compreender melhor conceitos como acidentes, doenças e morte.
Essa compreensão pode produzir novas preocupações.
Perguntas ocasionais como:
“Você vai voltar que horas?”
“Você pode sofrer um acidente?”
“Essa doença é perigosa?”
podem aparecer sem indicar um transtorno.
O sinal de atenção surge quando a preocupação se torna repetitiva, intensa e difícil de tranquilizar.
A criança pode:
- telefonar ou mandar mensagens repetidamente para verificar se os pais estão bem;
- não querer permanecer longe deles;
- imaginar acidentes constantemente;
- ter dificuldade para dormir porque teme que algo aconteça;
- evitar escola, excursões ou passeios por medo de ficar separada;
- pedir repetidamente garantias de que ninguém morrerá.
Nesse momento, a preocupação começa a restringir a autonomia e o cotidiano da criança.
Ansiedade pode causar dor de barriga e dor de cabeça?
Sim.
E essa é uma apresentação particularmente importante durante a idade escolar.
Algumas crianças ainda têm dificuldade para identificar ou explicar que estão preocupadas. O corpo pode se tornar a parte mais visível da ansiedade.
Às vezes existe um padrão bastante evidente:
a dor aparece antes da escola, de uma prova ou de determinada situação e melhora quando o evento é evitado.
Isso não significa que a criança esteja inventando o sintoma.
A ansiedade pode produzir manifestações físicas reais. A literatura pediátrica reconhece sintomas somáticos, como dor abdominal e cefaleia, entre possíveis apresentações de dificuldades emocionais em crianças.
Ao mesmo tempo, é importante não cometer o erro contrário.
Sintomas físicos recorrentes não devem ser automaticamente atribuídos à ansiedade. Dependendo do quadro, uma avaliação pediátrica pode ser necessária para investigar outras causas.
Sintoma provocado ou agravado pela ansiedade continua sendo um sintoma real. “Emocional” não significa imaginário.
Ansiedade pode parecer falta de atenção?
Pode.
Uma criança muito preocupada pode estar fisicamente dentro da sala de aula enquanto sua atenção está ocupada por pensamentos como:
“Será que vou errar?”
“Minha mãe vai voltar?”
“E se eu passar mal?”
“O que os outros estão pensando de mim?”
Nesse contexto, ela pode:
- perder partes da explicação;
- parecer distraída;
- demorar para iniciar tarefas;
- esquecer instruções;
- ter dificuldade para terminar atividades;
- apresentar queda no desempenho.
Isso pode ser confundido com desatenção.
Entretanto, ansiedade e TDAH não são a mesma coisa — e também podem coexistir.
Por isso, não é adequado concluir que uma criança tenha ansiedade ou TDAH apenas porque apresenta dificuldade de concentração. É necessário compreender quando a desatenção acontece, em quais ambientes, há quanto tempo está presente e quais outros sintomas aparecem junto dela.
Irritabilidade também pode ser ansiedade?
Sim.
Nem toda criança ansiosa parece tímida, quieta ou assustada.
Algumas ficam irritadas.
Quando antecipam uma situação temida, podem:
- discutir;
- chorar;
- gritar;
- ficar impacientes;
- recusar-se a cooperar;
- apresentar explosões;
- tentar controlar detalhes da situação.
Imagine uma criança que começa a discutir com os pais todas as manhãs antes da escola.
À primeira vista, pode parecer apenas oposição.
Mas, ao investigar melhor, descobre-se que ela está sendo excluída pelos colegas ou sente medo intenso de apresentar um trabalho.
O comportamento visível é apenas uma parte da história.
Isso não significa que toda irritabilidade seja causada por ansiedade. Existem diversas outras possibilidades, e o contexto ajuda a compreender o que está acontecendo.
Ansiedade social e amizades entre 6 e 12 anos
As relações com outras crianças passam a ocupar um espaço cada vez maior durante a idade escolar.
A criança aprende a:
- fazer amizades;
- participar de grupos;
- negociar conflitos;
- competir;
- cooperar;
- perceber como é vista pelos outros.
Alguma preocupação com aceitação é natural.
Uma criança pode ficar tímida ao entrar em uma turma nova ou nervosa antes de falar diante dos colegas.
A preocupação merece maior atenção quando o medo de ser observado, criticado, rejeitado ou passar vergonha começa a determinar suas escolhas.
Ela pode:
- evitar levantar a mão;
- não perguntar quando tem dúvidas;
- recusar apresentações;
- evitar comer diante de outras pessoas;
- não participar de festas;
- falar muito pouco com pessoas fora da família;
- abandonar atividades de que gosta;
- evitar novas amizades.
A avaliação da ansiedade social em crianças deve considerar não apenas sintomas e situações evitadas, mas também amizades, ambiente escolar, grupos de pares, funcionamento educacional e possível vitimização pelos colegas.
Bullying precisa ser investigado
Nem todo medo da escola é um transtorno de ansiedade.
Essa distinção é fundamental.
Uma criança pode não querer ir à escola porque está sofrendo:
- bullying;
- exclusão social;
- humilhação;
- dificuldades acadêmicas;
- conflitos com professores;
- violência;
- problemas de aprendizagem;
- outras dificuldades naquele ambiente.
O bullying envolve agressões intencionais e repetidas, com desequilíbrio de poder, e pode produzir repercussões emocionais, físicas, sociais e acadêmicas importantes.
Por isso, interpretar automaticamente a situação como “ansiedade da criança” pode fazer com que o verdadeiro problema seja ignorado.
Quando ocorre uma mudança repentina — principalmente em uma criança que anteriormente frequentava a escola sem dificuldade — vale perguntar:
“O que mudou?”
“O que está acontecendo na escola?”
“Tem alguma pessoa ou situação que você está tentando evitar?”
Ansiedade também pode ser uma resposta compreensível a uma situação adversa real.

Ansiedade normal ou transtorno: como diferenciar?
| Ansiedade mais compatível com o esperado | Sinais que merecem maior atenção |
|---|---|
| Fica nervosa antes de provas | Sofre durante vários dias ou evita avaliações |
| Preocupa-se ocasionalmente com notas | Preocupa-se excessivamente mesmo tendo bom desempenho |
| Tem algum medo de errar | Recusa atividades quando não tem certeza de que acertará |
| Fica tímida em situações novas | Evita persistentemente situações sociais |
| Preocupa-se ocasionalmente com os pais | Precisa verificar repetidamente se estão seguros |
| Apresenta desconforto físico ocasional | Sintomas físicos recorrentes interferem na rotina |
| Precisa de apoio, mas consegue enfrentar | Só participa mediante garantias ou estratégias de segurança crescentes |
| A ansiedade diminui depois da situação | Continua preocupada mesmo depois que o evento terminou |
| Mantém escola, amizades e atividades | Escola, sono, lazer, amizades ou autonomia começam a ser prejudicados |
Essa comparação serve apenas como orientação. Ela não substitui uma avaliação clínica.
Um dos principais sinais de alerta: a evitação
Se os pais precisassem observar apenas um comportamento com mais atenção, a evitação estaria entre os mais importantes.
A criança pode começar a evitar:
- escola;
- provas;
- apresentações;
- festas;
- esportes;
- excursões;
- dormir fora;
- ficar longe dos pais;
- falar com adultos;
- experimentar atividades novas.
O motivo é relativamente simples.
Imagine:
Medo: “Vou passar vergonha na apresentação.”
↓
Evitação: a criança falta à escola.
↓
Alívio: não precisa apresentar.
↓
O cérebro pode aprender:
“Evitar me protegeu.”
Na próxima apresentação, a ansiedade pode aparecer novamente — e a vontade de evitar pode ser ainda maior.
Forma-se um ciclo:
medo → evitação → alívio imediato → manutenção do medo
A evitação é reconhecida como um comportamento central na ansiedade infantil, e pais bem-intencionados podem acabar facilitando-a porque retirar a criança da situação produz alívio imediato.
Por isso, observar o que a criança deixou de fazer por causa do medo pode ser tão importante quanto perguntar o que ela está sentindo.
Cuidado com a busca constante por garantias
Outra manifestação frequente nessa idade é pedir repetidamente certeza aos adultos.
“Tenho certeza de que vou passar?”
“Você promete que vai voltar?”
“Minha barriga está normal?”
“Você acha que fiz certo?”
“Tem certeza de que ninguém vai rir?”
Os pais respondem.
A criança sente alívio.
Pouco depois, pergunta novamente.
Buscar apoio ocasionalmente é esperado. Crianças ainda precisam dos adultos para ajudá-las a regular emoções.
O problema aparece quando nenhuma resposta consegue produzir segurança duradoura.
A própria necessidade de certeza começa a fazer parte do ciclo de ansiedade. A busca excessiva por garantias é reconhecida entre as manifestações que podem aparecer em crianças com dificuldades ansiosas.
E se a criança continuar fazendo tudo normalmente?
Esse é um ponto que merece atenção especial.
A ausência de evitação evidente não exclui sofrimento importante.
Algumas crianças continuam:
- frequentando a escola;
- tirando boas notas;
- participando das atividades;
- cumprindo todas as tarefas.
Por fora, parecem funcionar perfeitamente.
Mas podem conseguir isso às custas de:
- preocupação constante;
- perfeccionismo;
- horas excessivas de estudo;
- medo intenso de decepcionar;
- dificuldade para dormir;
- sintomas físicos;
- necessidade contínua de confirmação;
- crises quando chegam em casa.
Por isso, nota escolar não é um termômetro suficiente da saúde emocional.
Uma criança pode ter excelente desempenho e, ainda assim, estar sofrendo.
O que os pais podem fazer diante da ansiedade?
O objetivo não deve ser eliminar imediatamente qualquer desconforto.
Ansiedade faz parte da vida, e a criança precisa aprender gradualmente que consegue sentir ansiedade e ainda assim enfrentar situações seguras e adequadas à idade.
1. Escute antes de tranquilizar
Em vez de responder imediatamente:
“Não vai acontecer nada.”
experimente perguntar:
“O que você acha que pode acontecer?”
Isso permite descobrir qual é o medo real.
2. Valide a emoção sem validar a catástrofe
É possível dizer:
“Entendo que você está preocupado com a prova.”
sem dizer:
“Realmente seria terrível se você errasse.”
A emoção pode ser acolhida sem confirmar a interpretação ansiosa.
3. Ajude a criança a colocar o risco em perspectiva
Na idade escolar, a criança já consegue começar a analisar melhor aquilo que está imaginando.
Em vez de simplesmente dizer:
“Isso não vai acontecer.”
pode ser mais útil ajudá-la a pensar:
“Isso já aconteceu alguma vez?”
“O que aconteceu das outras vezes?”
“Qual é a chance de isso acontecer?”
“Se você errar uma questão, o que acontece depois?”
O objetivo não é convencer a criança de que nada ruim jamais acontecerá.
É ajudá-la a perceber que sentir medo de alguma coisa não significa que aquilo necessariamente acontecerá.
4. Valorize o esforço e o enfrentamento, não apenas o resultado
Uma criança ansiosa pode começar a acreditar que só conseguiu lidar com determinada situação porque tudo terminou bem.
Por exemplo:
“Eu consegui apresentar porque ninguém riu.”
“Eu consegui fazer a prova porque estava fácil.”
“Eu consegui dormir fora porque minha mãe ficou perto.”
Os pais podem ajudá-la a perceber outra parte da experiência: ela conseguiu enfrentar uma situação mesmo sentindo ansiedade.
Em vez de elogiar apenas:
“Parabéns, você tirou dez!”
também vale reconhecer:
“Você estava nervoso e mesmo assim fez a prova.”
“Eu percebi que ficou com vergonha, mas conseguiu falar.”
“Foi difícil ficar longe de casa, e você conseguiu.”
Isso ajuda a construir uma mensagem importante:
“Eu não preciso esperar a ansiedade desaparecer para conseguir fazer alguma coisa.”
5. Observe se você está ajudando a criança — ou ajudando a ansiedade
Quando um filho está sofrendo, é natural que os pais queiram protegê-lo.
O problema é que algumas formas de proteção aliviam a ansiedade imediatamente, mas podem fortalecê-la no longo prazo.
Imagine uma criança com medo de apresentar um trabalho.
Os pais pedem à escola que ela seja dispensada da apresentação.
A criança sente enorme alívio.
Naquele momento, parece que o problema foi resolvido.
Mas ela também pode aprender:
“Eu só fiquei bem porque não precisei enfrentar.”
Na próxima apresentação, o medo pode surgir novamente — às vezes ainda mais intenso.
Isso não significa que os pais devam obrigar a criança a enfrentar qualquer situação de qualquer maneira.
O caminho costuma ser acolher o sofrimento e, quando possível, favorecer um enfrentamento gradual e compatível com a capacidade da criança.
6. Cuidado com as garantias repetidas
“Você promete que vai voltar?”
“Tenho certeza de que vou conseguir?”
“Você acha que fiz certo?”
“Tem certeza de que não vou passar mal?”
Responder ocasionalmente faz parte do cuidado.
O problema aparece quando a criança precisa perguntar repetidamente para conseguir se acalmar.
Os pais respondem.
A ansiedade diminui.
Pouco depois, surge outra dúvida.
A criança pergunta novamente.
Pode se formar outro ciclo:
preocupação → busca de garantia → alívio → nova preocupação → nova garantia.
Nesses casos, mais importante do que fornecer certeza absoluta pode ser ajudá-la a desenvolver tolerância à incerteza.
Por exemplo:
“Eu sei que você gostaria de ter certeza de que a prova será fácil. Não conseguimos saber isso antes. Mas podemos pensar no que você fará se encontrar uma questão difícil.”
A mensagem muda de:
“Nada ruim vai acontecer.”
para:
“Mesmo sem ter certeza de tudo, você pode aprender a lidar com o que acontecer.”
7. Não organize toda a rotina familiar em torno da ansiedade
A ansiedade infantil raramente afeta apenas a criança.
Aos poucos, a família pode começar a fazer adaptações:
um dos pais precisa permanecer até a criança dormir;
ninguém pode se atrasar porque ela teme que tenha ocorrido um acidente;
passeios são cancelados;
a criança deixa de dormir fora;
a família evita restaurantes, festas ou viagens;
os pais falam repetidamente com professores para impedir situações que gerem desconforto.
Algumas adaptações podem ser necessárias em determinados momentos.
A questão é observar quando a ansiedade passa a determinar cada vez mais o funcionamento de toda a família.
Esse é um sinal importante de que pode ser necessário buscar orientação profissional.
O que os pais devem evitar?
Algumas respostas bem-intencionadas podem aumentar o sofrimento ou manter o ciclo da ansiedade.
Evite:
- ridicularizar ou minimizar o medo;
- chamar a criança de “medrosa”, “fraca” ou “dramática”;
- comparar com irmãos ou colegas;
- dizer simplesmente “não pense nisso”;
- exigir que ela se acalme imediatamente;
- fornecer garantias repetidamente sempre que surgir uma dúvida;
- permitir automaticamente que evite tudo aquilo que provoca ansiedade;
- forçar enfrentamentos bruscos ou humilhantes;
- atribuir automaticamente sintomas físicos à ansiedade;
- assumir que toda recusa escolar é um problema emocional.
Existe uma diferença importante entre acolher a criança e obedecer à ansiedade.
Acolher pode significar:
“Eu sei que está difícil. Vou ajudá-lo a passar por isso.”
Isso é diferente de:
“Como está difícil, você nunca mais precisará fazer isso.”
Quando procurar avaliação profissional?
Não existe uma quantidade específica de preocupações que determine se uma criança tem ou não um transtorno de ansiedade.
Na prática, algumas perguntas são especialmente úteis:
Com que frequência isso acontece?
Há quanto tempo acontece?
Qual é a intensidade do sofrimento?
A criança consegue enfrentar a situação ou precisa evitá-la?
A ansiedade está interferindo na vida dela?
Considere procurar avaliação quando a ansiedade:
- acontece com muita frequência;
- é muito intensa ou difícil de controlar;
- persiste por um período significativo;
- parece estar aumentando;
- interfere no desempenho ou na frequência escolar;
- prejudica amizades e atividades sociais;
- compromete o sono;
- provoca sintomas físicos recorrentes;
- leva a faltas ou recusa escolar;
- faz a criança abandonar atividades de que gostava;
- limita sua autonomia;
- exige garantias constantes dos adultos;
- faz a família reorganizar grande parte da rotina;
- causa sofrimento significativo.
A avaliação não serve apenas para responder:
“Meu filho tem um transtorno de ansiedade?”
Ela também procura entender:
“Por que essa criança está ansiosa?”
Essa diferença é importante.
Bullying, dificuldades de aprendizagem, TDAH, transtornos do neurodesenvolvimento, problemas familiares, perdas, situações traumáticas e outras condições podem produzir ou agravar sintomas de ansiedade.
Quando procurar ajuda com maior urgência?
Algumas mudanças não devem ser interpretadas simplesmente como “uma fase de ansiedade”.
Procure avaliação mais rapidamente diante de:
- incapacidade de frequentar a escola;
- perda importante de funcionamento;
- sofrimento emocional muito intenso;
- recusa persistente de alimentos ou líquidos;
- perda significativa de peso;
- autoagressão;
- falas sobre querer morrer, desaparecer ou não estar mais aqui;
- suspeita de violência, abuso ou bullying grave;
- mudanças comportamentais intensas e abruptas.
Se houver risco imediato à segurança da criança, procure um serviço de urgência.
Como é feita a avaliação da ansiedade em crianças de 6 a 12 anos?
O diagnóstico de um transtorno de ansiedade não deve ser feito a partir de um único sintoma.
Uma avaliação adequada considera o desenvolvimento da criança, a intensidade e duração dos sintomas, os contextos em que aparecem e o impacto sobre seu funcionamento. Em psiquiatria infantil, a avaliação clínica também costuma integrar informações de diferentes fontes, especialmente da própria criança e dos responsáveis.
Dependendo do caso, informações da escola também podem ser muito úteis.
O profissional pode investigar:
- quando as preocupações começaram;
- quais situações desencadeiam ansiedade;
- o que a criança teme que aconteça;
- quais situações passou a evitar;
- presença de sintomas físicos;
- sono e alimentação;
- desempenho e frequência escolar;
- amizades e relações familiares;
- possíveis episódios de bullying;
- desenvolvimento prévio;
- presença de outras dificuldades emocionais ou comportamentais.
Escalas e questionários podem complementar a avaliação, mas não substituem a entrevista clínica nem estabelecem o diagnóstico isoladamente.
Quais transtornos de ansiedade podem aparecer nessa idade?
“Ansiedade infantil” não é um único diagnóstico.
Diferentes transtornos podem se manifestar durante a infância, entre eles:
Transtorno de ansiedade de separação
O medo está relacionado principalmente ao afastamento das figuras de apego ou à possibilidade de que algo aconteça com elas.
A criança pode apresentar preocupação excessiva com acidentes, doenças ou morte dos pais, resistir a ficar sozinha, dormir longe deles ou frequentar a escola.
Transtorno de ansiedade generalizada
Predominam preocupações excessivas em diferentes áreas da vida.
A criança pode preocupar-se muito com desempenho escolar, erros, saúde, acontecimentos futuros, segurança da família e outras situações, frequentemente buscando confirmação dos adultos.
Transtorno de ansiedade social
O medo está relacionado à possibilidade de ser observada, julgada, constrangida ou rejeitada.
Pode aparecer ao falar diante da turma, conversar com pessoas menos conhecidas, participar de atividades em grupo ou realizar determinadas tarefas na frente dos outros.
Fobias específicas
O medo é intenso e relacionado a uma situação ou objeto específico, como animais, tempestades, sangue, injeções, alturas ou determinados ambientes.
Transtorno de pânico
Ataques de pânico também podem ocorrer em crianças, embora o padrão de apresentação e sua interpretação precisem ser avaliados cuidadosamente considerando a idade e o desenvolvimento.
O DSM-5-TR inclui esses quadros entre os transtornos de ansiedade, mas a presença de um medo isolado não é suficiente para estabelecer qualquer um desses diagnósticos.
Como é o tratamento da ansiedade infantil?
O tratamento depende do tipo de ansiedade, da intensidade, do prejuízo funcional, da idade, das características da criança, das condições associadas e do contexto familiar.
Para muitos transtornos de ansiedade na infância, a terapia cognitivo-comportamental (TCC) é uma das intervenções psicológicas com melhor sustentação científica. O tratamento costuma incluir estratégias para reconhecer pensamentos e respostas ansiosas, desenvolver habilidades de enfrentamento e reduzir progressivamente padrões de evitação. Rutter’s inclui a TCC entre as principais intervenções psicológicas utilizadas na infância.
Um componente particularmente importante é a exposição gradual às situações temidas.
Isso não significa simplesmente dizer:
“Enfrente seu medo.”
A exposição terapêutica é planejada de maneira progressiva, permitindo que a criança pratique o enfrentamento e descubra que consegue tolerar a ansiedade sem precisar fugir constantemente da situação.
A participação dos pais também pode ser importante, principalmente quando comportamentos familiares passaram, sem intenção, a reforçar evitação ou busca excessiva por garantias.
Medicamentos podem ser considerados em situações específicas, especialmente diante de quadros moderados a graves, prejuízo funcional importante ou resposta insuficiente às intervenções psicoterápicas adequadas. Essa decisão deve ser individualizada e realizada por profissional habilitado; psicofármacos em crianças exigem atenção especial às evidências disponíveis, benefícios, riscos e monitoramento.
Em resumo: o que observar entre 6 e 12 anos?
Durante a idade escolar, as preocupações se tornam mais complexas.
Provas, erros, amizades, aceitação pelos colegas, saúde, segurança dos pais e situações sociais podem provocar ansiedade sem que exista um transtorno.
O sinal de alerta aparece principalmente quando a ansiedade começa a:
- dominar os pensamentos;
- provocar sofrimento significativo;
- produzir sintomas físicos frequentes;
- gerar necessidade constante de certeza;
- aumentar comportamentos de evitação;
- limitar a autonomia;
- interferir na escola, nas amizades, no sono ou no lazer.
Uma criança emocionalmente saudável não é aquela que nunca sente ansiedade. É aquela que, com apoio adequado, consegue continuar se desenvolvendo e enfrentando progressivamente os desafios próprios da idade.
Perguntas frequentes sobre ansiedade em crianças de 6 a 12 anos
É normal uma criança ficar ansiosa antes de uma prova?
Sim. Algum grau de ansiedade diante de avaliações é esperado e pode até favorecer a preparação. Merece atenção quando a preocupação é muito intensa, prolongada, provoca sofrimento importante ou leva a criança a evitar provas ou faltar à escola.
Ansiedade infantil pode causar dor de barriga?
Sim. Ansiedade pode produzir sintomas físicos reais, incluindo dor abdominal, náusea e dor de cabeça. Entretanto, sintomas recorrentes não devem ser automaticamente considerados emocionais; dependendo do quadro, é importante investigar possíveis causas médicas.
Criança ansiosa pode ter boas notas?
Sim. Bom desempenho acadêmico não exclui ansiedade. Algumas crianças mantêm notas elevadas às custas de perfeccionismo, estudo excessivo, medo intenso de errar e grande sofrimento emocional.
Ansiedade pode parecer TDAH?
Pode. Preocupações constantes podem prejudicar a concentração e fazer a criança parecer distraída. Entretanto, ansiedade e TDAH são condições diferentes e também podem coexistir. A diferenciação exige avaliação do padrão dos sintomas, início, contextos e prejuízos associados.
É normal uma criança ter medo de que os pais morram?
Perguntas sobre doença, acidentes e morte podem surgir nessa fase do desenvolvimento. A preocupação merece maior atenção quando se torna excessiva, repetitiva, difícil de tranquilizar ou começa a interferir nas separações, no sono, na escola e na autonomia.
Não querer ir à escola significa ansiedade?
Não necessariamente. Ansiedade é apenas uma das possibilidades. Bullying, dificuldades de aprendizagem, conflitos interpessoais, problemas com professores, transtornos do neurodesenvolvimento e outras situações também precisam ser investigados.
Quando a ansiedade infantil deixa de ser normal?
Não existe um único sintoma que determine essa diferença. Idade, intensidade, duração, proporcionalidade, sofrimento, evitação e impacto sobre o funcionamento da criança devem ser considerados em conjunto.
Continue acompanhando o desenvolvimento
Com a chegada da adolescência, a ansiedade pode mudar novamente.
A maior necessidade de autonomia, as transformações corporais, a imagem pessoal, as relações sociais, o desempenho acadêmico e as preocupações com o futuro passam a ocupar espaço crescente.
No próximo artigo desta série, vamos abordar como a ansiedade se manifesta na adolescência, quais mudanças podem fazer parte dessa fase e quais sinais merecem maior atenção.
Leia também:
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- Ansiedade em crianças de 3 a 5 anos: medos comuns e sinais de alerta
- Ansiedade em adolescentes: sintomas, sinais de alerta e quando procurar ajuda (em breve)
Referências
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- Petersen CS, Wainer R, organizadores. Terapias cognitivo-comportamentais para crianças e adolescentes: ciência e arte. Porto Alegre: Artmed; 2011.
- Papalia DE, Martorell G. Desenvolvimento Humano. 14ª ed. Porto Alegre: AMGH; 2022.





