Ansiedade em bebês de 0 a 2 anos: o que é normal e quando se preocupar?

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Ansiedade em bebês. Ilustração 3D de um bebê brincando com blocos no tapete e estendendo a mão para sua mãe.

Nos primeiros dois anos de vida, o bebê passa por enormes mudanças na forma como percebe o mundo, reconhece seus cuidadores e reage a situações desconhecidas. Chorar quando os pais saem, estranhar pessoas novas ou buscar colo diante de algo diferente pode preocupar a família — mas, muitas vezes, esses comportamentos fazem parte do desenvolvimento esperado.

Nessa idade, é preciso ter cuidado até mesmo com a palavra “ansiedade”.

Bebês ainda não conseguem descrever pensamentos ou preocupações como crianças maiores. Por isso, suas emoções aparecem principalmente através do comportamento, das expressões, do choro, do sono, da alimentação e da busca de proximidade com os cuidadores.

Além disso, algumas reações que podem parecer ansiedade aos olhos de um adulto são, na verdade, sinais importantes do desenvolvimento socioemocional.

Então, o que é esperado entre 0 e 2 anos e quando uma reação merece ser avaliada com mais atenção?

Bebês podem sentir ansiedade?

Bebês apresentam respostas de medo, alerta e desconforto diante de situações percebidas como ameaçadoras ou desconhecidas.

No entanto, não devemos interpretar essas respostas exatamente da mesma maneira que interpretamos a ansiedade de uma criança maior ou de um adulto.

Durante os primeiros anos, o cérebro ainda está desenvolvendo sistemas relacionados à:

  • regulação das emoções;
  • memória;
  • reconhecimento de pessoas;
  • percepção de segurança;
  • vínculo com os cuidadores;
  • exploração do ambiente.

O bebê também depende intensamente de outras pessoas para regular suas emoções.

Quando está assustado, cansado ou desconfortável, por exemplo, a presença de um cuidador conhecido pode ajudá-lo a recuperar a sensação de segurança.

Essa dependência é esperada.

Um bebê buscar os pais quando está assustado não significa falta de independência. Nos primeiros anos, a segurança proporcionada pelos cuidadores é uma das bases para a exploração progressiva do mundo.

Medo de pessoas desconhecidas é normal?

Sim.

Ao longo do primeiro ano, muitos bebês passam a diferenciar melhor pessoas familiares de desconhecidas. Como consequência, podem demonstrar cautela ou desconforto diante de alguém que não conhecem.

O bebê pode:

  • observar seriamente uma pessoa nova;
  • esconder o rosto;
  • procurar o colo dos pais;
  • agarrar-se ao cuidador;
  • chorar quando um desconhecido se aproxima;
  • precisar de algum tempo antes de interagir.

Isso não significa necessariamente que seja uma criança excessivamente ansiosa.

Na realidade, reconhecer quem é familiar e quem é desconhecido representa uma mudança importante no desenvolvimento social e cognitivo.

A intensidade dessa reação também varia bastante entre crianças. Algumas se aproximam rapidamente de pessoas novas; outras precisam observar por mais tempo antes de se sentirem seguras.

Temperamento importa.

Chorar quando os pais saem também pode ser esperado

Outra situação muito comum é o bebê que começa a chorar quando a mãe, o pai ou outro cuidador importante se afasta.

Essa reação está relacionada ao desenvolvimento do vínculo, da memória e da compreensão progressiva de que o cuidador continua existindo mesmo quando não está visível.

Durante parte da primeira infância, portanto, algum grau de protesto diante da separação é esperado.

O bebê pode:

  • chorar quando o responsável sai;
  • estender os braços para impedir a saída;
  • agarrar-se ao cuidador;
  • ficar inicialmente desconfortável com outro adulto;
  • demonstrar entusiasmo quando o responsável retorna.

Esses comportamentos, isoladamente, não significam transtorno de ansiedade de separação.

Essa distinção é importante porque a ansiedade de separação também é o nome de um transtorno psiquiátrico. Para caracterizar um transtorno, não basta a existência de desconforto durante separações: é necessário considerar a idade, o desenvolvimento, a intensidade, a persistência e o prejuízo causado.

O que costuma ser esperado entre 0 e 2 anos?

Existe grande variabilidade entre bebês, e nenhuma lista deve ser utilizada como calendário rígido do desenvolvimento.

De maneira geral, podem ocorrer:

Nos primeiros meses

O bebê reage principalmente a estímulos intensos e desconfortos.

Barulhos fortes, movimentos bruscos, fome, frio, dor ou afastamento do contato físico podem desencadear choro e respostas de alerta.

O cuidador exerce papel fundamental na regulação.

Ao longo do primeiro ano

Com o reconhecimento crescente das pessoas familiares, pode aparecer maior cautela diante de desconhecidos.

O bebê também pode demonstrar preferência clara pelos cuidadores habituais.

Na segunda metade do primeiro ano e posteriormente

O protesto durante separações pode se tornar mais evidente.

O bebê já reconhece claramente as pessoas de referência, mas ainda está desenvolvendo sua capacidade de compreender e tolerar o afastamento.

Entre 1 e 2 anos

Com o aumento da mobilidade, a criança começa a explorar muito mais o ambiente.

É comum observar um movimento interessante: ela se afasta para explorar e depois procura novamente o cuidador.

Essa alternância entre exploração e busca de segurança faz parte do desenvolvimento.

O papel do temperamento

Dois bebês da mesma idade podem reagir de maneiras completamente diferentes à mesma situação.

Um pode chegar a um ambiente desconhecido e começar rapidamente a explorar.

Outro pode permanecer no colo, observar por vários minutos e somente depois demonstrar interesse.

Ambos podem estar apresentando desenvolvimento saudável.

Uma característica estudada no desenvolvimento infantil é a inibição comportamental, relacionada a maior cautela diante de novidades.

Crianças com esse perfil podem apresentar maior:

  • sensibilidade a ambientes novos;
  • cautela com desconhecidos;
  • demora para se aproximar;
  • necessidade de observar antes de participar.

Isso não é, por si só, uma doença.

Embora determinados padrões temperamentais estejam associados a maior vulnerabilidade futura para alguns transtornos de ansiedade, temperamento não é diagnóstico nem determina inevitavelmente o futuro da criança.

Ansiedade esperada × comportamento que merece atenção

Mais compatível com o desenvolvimento esperadoMerece ser observado com mais atenção
Estranha algumas pessoas desconhecidasReações muito intensas e persistentes diante de grande variedade de situações
Chora em algumas separaçõesSofrimento extremo e difícil de regular em separações rotineiras
Busca o cuidador quando sente medoDificuldade persistente para recuperar a segurança mesmo com cuidador disponível
Precisa de tempo para se adaptar a ambientes novosEvita de maneira intensa e persistente praticamente qualquer exploração
Apresenta cautela inicialmente e depois exploraO medo limita significativamente experiências adequadas ao desenvolvimento
Reage a novidades, mas gradualmente se adaptaAs reações tornam-se progressivamente mais intensas ou abrangentes

Essa comparação não estabelece diagnóstico. Seu objetivo é ajudar a observar o desenvolvimento global da criança.

Quando o comportamento merece uma avaliação?

Em bebês e crianças muito pequenas, um comportamento isolado raramente fornece informação suficiente.

É mais importante observar o padrão ao longo do tempo.

Vale conversar com o pediatra ou outro profissional do desenvolvimento infantil quando o medo, o choro ou a dificuldade diante de separações são muito intensos, persistentes ou parecem limitar de forma importante as experiências da criança.

Algumas situações que merecem atenção incluem:

  • sofrimento muito intenso e frequente;
  • dificuldade persistente para ser consolado;
  • medo que impede grande parte das explorações esperadas para a idade;
  • reação extrema a uma ampla variedade de pessoas ou ambientes;
  • mudanças importantes e persistentes no sono ou na alimentação;
  • perda de habilidades previamente adquiridas;
  • mudanças marcantes de comportamento após uma experiência assustadora;
  • preocupação dos cuidadores com outras áreas do desenvolvimento.

O contexto é fundamental.

Uma mudança abrupta de comportamento após hospitalização, perda familiar, violência ou outra experiência adversa precisa ser compreendida de maneira diferente de uma característica presente desde os primeiros meses.

Nem todo choro é ansiedade

Esse ponto é especialmente importante em crianças pequenas.

O choro é uma das principais formas de comunicação do bebê.

Ele pode indicar:

  • fome;
  • sono;
  • dor;
  • calor ou frio;
  • desconforto gastrointestinal;
  • necessidade de contato;
  • excesso de estímulos;
  • cansaço;
  • doença;
  • medo.

Por isso, não é adequado atribuir automaticamente choro frequente à ansiedade.

Da mesma forma, alterações de sono, alimentação, irritabilidade ou desconforto físico precisam ser avaliadas considerando possíveis causas médicas e o desenvolvimento global.

E quando o bebê começa a frequentar a creche?

O início da creche costuma envolver várias novidades ao mesmo tempo:

novo ambiente, novas pessoas, mudança de rotina e separação dos cuidadores.

Algum protesto inicial pode acontecer.

A adaptação deve ser observada ao longo do tempo, e não julgada apenas pelo choro na despedida.

Uma criança pode chorar quando o responsável sai e, poucos minutos depois, aceitar o acolhimento de outro cuidador e começar a brincar. Essa situação é diferente daquela em que permanece em sofrimento intenso durante grande parte do período e não demonstra adaptação progressiva.

Também é importante considerar a qualidade do ambiente, a relação com os cuidadores da instituição e a forma como o processo de adaptação está sendo conduzido.

Bebês: vínculo, adaptação e acolhimento. Pessoas desconhecidas: O estranhamento pode aparecer no desenvolvimento. Separações: Chorar quando o cuidador sai pode ser esperado. Cada bebê tem seu ritmo: Observe o contexto, a evolução e a possibilidade de ser acolhido. Nem todo choro é ansiedade. Dúvidas sobre saúde ou desenvolvimento devem ser conversadas com o pediatra.

O que os pais podem fazer?

O objetivo não é impedir que o bebê experimente qualquer desconforto.

Os cuidadores podem oferecer uma base segura para que a criança, progressivamente, explore o ambiente.

Algumas atitudes são úteis:

  • manter rotinas relativamente previsíveis;
  • avisar e realizar despedidas de maneira tranquila;
  • evitar desaparecer escondido sempre que possível;
  • permitir aproximação gradual de pessoas e ambientes novos;
  • acolher o medo sem ridicularizar;
  • oferecer contato e segurança quando necessário;
  • estimular exploração compatível com a idade;
  • observar e respeitar diferenças de temperamento.

A autonomia não surge porque o bebê é forçado a deixar de precisar do adulto.

Ela se desenvolve progressivamente a partir de experiências repetidas nas quais a criança explora, encontra dificuldades e percebe que possui uma figura de segurança disponível.

O que evitar?

Também não é necessário transformar todo comportamento cauteloso em problema.

Evite rotular precocemente a criança:

“Ele é muito ansioso.”

“Ela tem ansiedade.”

“Ele tem medo de tudo.”

Esses rótulos podem levar os adultos a interpretar qualquer comportamento futuro pela mesma lente.

Também não é recomendado forçar bruscamente a criança a permanecer em uma situação que provoca medo intenso apenas para que “aprenda”.

A exposição a novidades faz parte do desenvolvimento, mas deve ocorrer de maneira compatível com a idade, o temperamento e a capacidade de regulação da criança.

Quando procurar ajuda?

Procure orientação quando houver uma combinação de intensidade, persistência e interferência no desenvolvimento.

O primeiro profissional costuma ser o pediatra, que poderá avaliar saúde física, desenvolvimento e contexto familiar e, quando necessário, indicar avaliação especializada.

Dependendo da situação, podem participar profissionais de saúde mental e desenvolvimento infantil.

A avaliação precoce não significa que a criança receberá necessariamente um diagnóstico.

Às vezes, sua principal função é justamente esclarecer para a família que determinado comportamento está dentro do esperado e orientar como lidar com aquela fase.

Nos primeiros dois anos, a pergunta mais útil não é simplesmente “meu bebê tem ansiedade?”. É observar se ele consegue, com apoio dos cuidadores, recuperar a segurança e ampliar progressivamente sua capacidade de explorar o mundo.

Perguntas frequentes

Bebê pode ter ansiedade?

Bebês apresentam respostas de medo, estresse e alerta. Entretanto, essas manifestações precisam ser interpretadas dentro do desenvolvimento infantil e não devem ser automaticamente equiparadas aos transtornos de ansiedade observados em crianças maiores.

É normal o bebê chorar quando a mãe sai?

Pode ser. O protesto diante da separação é frequente em determinadas fases do desenvolvimento. Intensidade, duração, capacidade de ser consolado e adaptação progressiva ajudam a compreender se a reação está dentro do esperado.

Medo de pessoas desconhecidas é normal?

Sim. Maior cautela diante de desconhecidos pode aparecer durante o primeiro ano e faz parte do desenvolvimento socioemocional de muitas crianças.

Meu bebê não gosta de pessoas desconhecidas. Isso significa que será ansioso?

Não. Temperamento cauteloso não é um transtorno e não permite prever individualmente que a criança desenvolverá ansiedade patológica.

Chorar na creche significa ansiedade de separação?

Não necessariamente. Algum protesto durante a adaptação pode ser esperado. É importante observar o que acontece depois da despedida e se existe adaptação progressiva.

Quando devo me preocupar?

Quando as reações são muito intensas, persistentes, difíceis de regular ou interferem significativamente na exploração e no desenvolvimento, ou quando existem outras preocupações relacionadas ao sono, alimentação, comportamento ou aquisição/perda de habilidades.

Continue acompanhando o desenvolvimento

Conforme a criança cresce, sua capacidade de imaginar perigos aumenta — e os medos também mudam.

Entre 3 e 5 anos, por exemplo, podem ganhar destaque o medo do escuro, personagens imaginários, animais, separação e outras situações que acompanham o desenvolvimento da imaginação.

Leia também: Ansiedade em crianças de 3 a 5 anos: o que é normal e quando se preocupar?


Referências

  1. Thapar A, Pine DS, Leckman JF, Scott S, Snowling MJ, Taylor E, editors. Rutter’s Child and Adolescent Psychiatry. 6th ed. Chichester: Wiley-Blackwell; 2015. 
  2. Papalia DE, Martorell G. Desenvolvimento Humano. 14ª ed. Porto Alegre: AMGH; 2022. 
  3. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: DSM-5-TR. 5th ed, text rev. Washington, DC: American Psychiatric Association Publishing; 2022. 
  4. Beesdo K, Knappe S, Pine DS. Anxiety and anxiety disorders in children and adolescents: developmental issues and implications for DSM-V. Psychiatr Clin North Am. 2009;32(3):483-524.

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Por:

Foto de Dr. Luis Pimenta

Dr. Luis Pimenta

Psiquiatria da Infância e Adolescência – CRM 163289 | RQE 70571