O que é ansiedade infantil? Entenda como ela surge no cérebro da criança

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O que é ansiedade infantil? Entenda por que ela existe e quando pode deixar de ser uma emoção saudável

Você sabia que todas as crianças sentem ansiedade em algum momento do seu desenvolvimento? Essa emoção, essencial para a sobrevivência, ajuda a reconhecer perigos e a se preparar para desafios. No entanto, quando a ansiedade se torna excessiva, pode evoluir para um transtorno que afeta o bem-estar da criança. Neste artigo, vamos explorar o que é a ansiedade infantil, como ela funciona no cérebro e quando é hora de buscar ajuda. Entenda como essa emoção natural pode se transformar em um problema e descubra maneiras de apoiar seu filho nesse processo.

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A ansiedade infantil é uma reação natural do organismo diante de situações percebidas como ameaçadoras, incertas ou desafiadoras. Ela pode aparecer antes de uma prova, durante a separação dos pais, diante de uma mudança de escola ou quando a criança precisa enfrentar algo novo.

Portanto, sentir ansiedade não significa necessariamente que exista uma doença.

Na verdade, a ansiedade é um importante mecanismo de proteção. Ela ajuda a criança a reconhecer perigos, antecipar dificuldades e preparar o corpo para reagir. Sem algum grau de ansiedade, seria mais difícil avaliar riscos e adaptar-se às exigências do ambiente.

O problema começa quando esse sistema de proteção se torna excessivamente sensível. Nessa situação, o organismo pode reagir como se houvesse uma ameaça real mesmo quando o perigo é pequeno, improvável ou inexistente.

Para compreender o que é ansiedade infantil, é necessário entender por que essa emoção existe, como o cérebro identifica ameaças e de que maneira uma resposta saudável pode, em algumas circunstâncias, tornar-se patológica.

O que é ansiedade infantil?

Ansiedade infantil é o conjunto de reações emocionais, físicas, cognitivas e comportamentais que ocorre quando a criança percebe uma ameaça ou antecipa que alguma coisa ruim pode acontecer.

Essa ameaça não precisa estar realmente presente.

Uma criança pode sentir ansiedade ao imaginar que será deixada sozinha, que cometerá um erro, que os pais sofrerão um acidente ou que será julgada pelos colegas. Embora o acontecimento temido ainda não tenha ocorrido, o cérebro e o corpo podem reagir como se precisassem se preparar para um perigo verdadeiro.

A ansiedade pode envolver:

  • sensação de medo ou apreensão;
  • preocupação com acontecimentos futuros;
  • aumento da atenção a possíveis riscos;
  • aceleração dos batimentos cardíacos;
  • mudanças na respiração;
  • tensão muscular;
  • desejo de fugir ou evitar determinada situação;
  • necessidade de buscar proteção ou confirmação de segurança.

Isso acontece porque a ansiedade não é apenas um pensamento. Ela representa uma resposta integrada de diferentes sistemas do organismo.

Em outras palavras, a criança não fica ansiosa apenas “na cabeça”. O cérebro, o sistema nervoso, os hormônios, as sensações corporais e o comportamento participam dessa experiência.

Ansiedade infantil não é frescura, fraqueza, falta de limites ou tentativa consciente de chamar atenção. É uma resposta real do organismo diante da percepção de ameaça.

Qual é a diferença entre medo e ansiedade?

Medo e ansiedade estão relacionados, mas não são exatamente a mesma coisa.

O medo costuma surgir diante de uma ameaça imediata e identificável. Uma criança que vê um cachorro avançando em sua direção, por exemplo, pode sentir medo e tentar se afastar rapidamente.

A ansiedade está mais relacionada à antecipação de uma possível ameaça futura. A criança pode ficar ansiosa antes mesmo de encontrar o cachorro, imaginando que algum animal poderá aparecer durante o caminho.

De forma simplificada:

  • Medo: resposta a um perigo presente ou iminente.
  • Ansiedade: antecipação de um perigo que pode acontecer no futuro.

Na prática, medo e ansiedade frequentemente se misturam. Ambos utilizam circuitos cerebrais relacionados à detecção de ameaças e à preparação do organismo para agir.

Por que a ansiedade existe?

A ansiedade existe porque oferece uma vantagem de sobrevivência.

Ao longo da evolução humana, perceber riscos rapidamente foi essencial para permanecer vivo. O organismo precisava identificar animais perigosos, ameaças ambientais, conflitos e outras situações capazes de causar dano.

Esse sistema de alerta continua ativo no cérebro moderno.

Imagine uma criança atravessando uma rua movimentada. Um nível adequado de ansiedade faz com que ela pare, observe os carros, segure a mão de um adulto e atravesse com cautela.

A ansiedade também pode ajudar uma criança a:

  • preparar-se para uma prova;
  • prestar mais atenção em uma situação nova;
  • procurar ajuda ao perceber algum risco;
  • evitar comportamentos perigosos;
  • planejar-se antes de uma apresentação;
  • adaptar-se a mudanças importantes.

Nesse contexto, a ansiedade é funcional. Ela aumenta a atenção e prepara o organismo para enfrentar um desafio.

A resposta deixa de ser útil quando é intensa demais, ocorre com frequência excessiva ou permanece ativa mesmo quando a situação não representa um risco proporcional.

Existe um “centro da ansiedade” no cérebro?

É comum ouvir que a amígdala é o “centro da ansiedade”. Essa explicação é útil para simplificar o assunto, mas não é completamente precisa.

Não existe uma única região responsável por produzir toda a experiência de ansiedade.

A ansiedade surge da atividade coordenada de uma rede de estruturas cerebrais. Cada uma participa de uma parte do processo, como detectar ameaças, interpretar sensações corporais, recuperar memórias, organizar a resposta ao estresse e avaliar se o perigo é real.

Entre as principais estruturas envolvidas estão:

  • amígdala;
  • tálamo;
  • hipocampo;
  • ínsula;
  • hipotálamo;
  • tronco cerebral;
  • córtex pré-frontal;
  • córtex cingulado anterior.

O funcionamento dessas regiões não ocorre de maneira isolada. Elas se comunicam continuamente e formam circuitos responsáveis por responder às ameaças e regular as emoções.

Qual é o papel da amígdala?

A amígdala é um conjunto de núcleos localizado profundamente nos lobos temporais do cérebro. Ela participa da identificação de estímulos emocionalmente importantes, especialmente daqueles relacionados a perigo, medo e ameaça.

Quando uma criança percebe algo potencialmente perigoso, a amígdala ajuda a acionar rapidamente o estado de alerta.

Esse processo pode começar antes mesmo de a criança compreender conscientemente o que está acontecendo.

Imagine que ela veja uma forma comprida e escura no chão. Antes de concluir que se trata apenas de uma mangueira, o cérebro pode reagir à possibilidade de ser uma cobra.

Essa reação rápida é importante porque, diante de um perigo verdadeiro, alguns segundos podem fazer diferença.

A amígdala envia sinais para outras regiões capazes de:

  • aumentar os batimentos cardíacos;
  • acelerar a respiração;
  • elevar a vigilância;
  • tensionar os músculos;
  • direcionar a atenção para a ameaça;
  • preparar o organismo para fugir, enfrentar ou permanecer imóvel.

Entretanto, a amígdala não funciona como um simples botão de medo. Ela participa de uma rede muito mais ampla e também responde ao contexto, às experiências anteriores e ao significado atribuído à situação.

O papel do tálamo e do processamento sensorial

O tálamo funciona como uma importante estação de transmissão das informações sensoriais.

Imagens, sons e outras informações do ambiente passam por circuitos cerebrais que ajudam a determinar rapidamente se algo pode representar perigo.

Parte desses sinais pode chegar aos sistemas de alarme antes de uma análise consciente e detalhada. Posteriormente, áreas do córtex cerebral realizam uma avaliação mais precisa.

É por isso que uma criança pode se assustar primeiro e perceber depois que não havia perigo.

Ela pode pular ao ouvir um barulho forte e, alguns instantes depois, compreender que era apenas uma porta batendo.

O papel do hipocampo

O hipocampo participa da formação e da recuperação de memórias, além de ajudar o cérebro a interpretar o contexto de uma situação.

Ele permite relacionar a experiência atual com acontecimentos anteriores.

Se uma criança foi mordida por um cachorro, por exemplo, o cérebro pode associar cães, latidos ou determinados lugares àquela experiência. Posteriormente, esses estímulos podem ativar uma resposta de ansiedade.

O hipocampo também ajuda a diferenciar situações.

Com novas experiências seguras, a criança pode aprender que nem todo cachorro é agressivo e que um animal calmo, acompanhado pelo tutor, representa uma situação diferente daquela vivida anteriormente.

Assim, as memórias podem aumentar a ansiedade, mas também podem participar de novos aprendizados de segurança.

O papel da ínsula

A ínsula participa da percepção das sensações internas do corpo.

É por meio dessa rede que o cérebro reconhece alterações como:

  • coração acelerado;
  • falta de ar;
  • enjoo;
  • tensão;
  • calor;
  • suor;
  • desconforto abdominal;
  • tontura.

Esse processo é chamado de interocepção, ou seja, a percepção do que está acontecendo dentro do próprio organismo.

Em algumas pessoas, determinadas sensações corporais podem ser interpretadas como sinais de perigo. A criança percebe o coração acelerado, fica assustada com essa sensação e passa a acreditar que alguma coisa grave está acontecendo.

O medo das próprias sensações pode aumentar ainda mais a ativação do organismo, formando um ciclo de ansiedade.

O papel do hipotálamo

O hipotálamo ajuda a transformar a percepção de ameaça em uma resposta física.

Quando os circuitos cerebrais identificam um possível perigo, o hipotálamo participa da ativação do sistema nervoso autônomo e de sistemas hormonais relacionados ao estresse.

Essa ativação prepara o organismo para agir rapidamente.

O coração envia mais sangue para os músculos, a respiração se modifica, a atenção se concentra no risco e atividades menos urgentes podem ser temporariamente reduzidas.

Essas mudanças são úteis quando existe uma ameaça verdadeira. O problema ocorre quando são ativadas repetidamente diante de situações seguras ou pouco perigosas.

O papel do córtex pré-frontal

O córtex pré-frontal participa do planejamento, do controle dos impulsos, da tomada de decisões e da regulação das emoções.

Ele ajuda o cérebro a avaliar perguntas como:

  • Esse perigo é real?
  • Qual é a probabilidade de isso acontecer?
  • Existe outra explicação para essa situação?
  • O que posso fazer para lidar com esse problema?
  • Posso desligar o estado de alerta?

Quando uma criança percebe que o objeto no chão é uma mangueira, e não uma cobra, o córtex pré-frontal participa da reavaliação da situação e ajuda a reduzir a resposta de medo.

Entretanto, essa região ainda está amadurecendo durante a infância e a adolescência. As conexões responsáveis pela regulação emocional continuam se desenvolvendo ao longo desse período.

Isso ajuda a explicar por que crianças podem ter mais dificuldade para:

  • colocar os riscos em perspectiva;
  • interromper pensamentos assustadores;
  • controlar reações impulsivas;
  • diferenciar possibilidades remotas de perigos prováveis;
  • acalmar-se sem o apoio de um adulto.

A presença de uma figura de segurança pode funcionar como uma forma de regulação externa. Inicialmente, os adultos ajudam a criança a organizar suas emoções. Com o desenvolvimento, ela aprende progressivamente a realizar esse processo de maneira mais autônoma.

O que acontece no corpo durante a ansiedade?

Quando o cérebro interpreta uma situação como perigosa, o organismo entra em estado de preparação.

Uma das primeiras respostas envolve a ativação do sistema nervoso simpático, parte do sistema nervoso autônomo.

Essa ativação favorece a liberação de substâncias como adrenalina e noradrenalina.

Como consequência, a criança pode apresentar:

  • aumento da frequência cardíaca;
  • respiração mais rápida;
  • suor;
  • tremores;
  • tensão muscular;
  • boca seca;
  • sensação de frio ou calor;
  • desconforto gastrointestinal;
  • aumento da atenção;
  • dificuldade para pensar em outros assuntos.

O corpo passa a priorizar a sobrevivência.

Também pode ocorrer a ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, conhecido pela sigla HHA. Esse sistema participa da resposta hormonal ao estresse e leva, entre outros efeitos, à produção de cortisol.

O cortisol ajuda o organismo a mobilizar energia e a manter-se preparado diante de uma situação exigente.

Quando o perigo termina, os sistemas reguladores tendem a reduzir essa ativação e o corpo retorna gradualmente ao equilíbrio.

Lutar, fugir ou congelar

A resposta de ansiedade costuma ser explicada por três padrões principais:

Luta

A criança tenta enfrentar ou afastar a ameaça. Isso pode aparecer como irritação, gritos, oposição ou agressividade.

Por esse motivo, nem toda criança ansiosa parece assustada. Algumas parecem irritadas, desafiadoras ou explosivas.

Fuga

A criança tenta escapar da situação ou evitá-la.

Ela pode não querer entrar na escola, conversar com pessoas desconhecidas, dormir sozinha ou participar de uma atividade nova.

Congelamento

A criança fica paralisada, em silêncio ou incapaz de agir.

Ela pode saber a resposta de uma pergunta, mas não conseguir falar. Pode permanecer imóvel diante de uma situação social ou sentir que a mente ficou “em branco”.

Essas respostas não costumam ser decisões totalmente conscientes. Elas fazem parte de mecanismos automáticos de proteção.

Como a ansiedade surge?

Não existe uma única causa para a ansiedade infantil.

Ela resulta da interação entre predisposições biológicas, características psicológicas, experiências de aprendizagem e fatores ambientais.

Esse modelo é chamado de biopsicossocial.

Fatores genéticos

Os transtornos de ansiedade apresentam influência genética, mas isso não significa que exista um único “gene da ansiedade”.

Diversas variações genéticas podem contribuir para características como maior sensibilidade ao estresse, reatividade emocional ou tendência a interpretar estímulos como ameaçadores.

A genética representa uma predisposição, não um destino inevitável.

Uma criança pode ter familiares ansiosos e nunca desenvolver um transtorno. Da mesma forma, uma criança sem histórico familiar conhecido pode apresentar ansiedade significativa.

Temperamento

Algumas crianças demonstram, desde cedo, um temperamento mais cauteloso e sensível diante de pessoas, lugares ou situações desconhecidas.

Uma característica estudada nesse contexto é a inibição comportamental.

Crianças com esse perfil podem:

  • demorar mais para se aproximar de desconhecidos;
  • observar antes de participar;
  • reagir intensamente a novidades;
  • precisar de mais tempo para se adaptar;
  • evitar situações consideradas imprevisíveis.

A inibição comportamental não é uma doença. Muitas crianças cautelosas apresentam desenvolvimento saudável.

Entretanto, em determinadas condições, esse temperamento pode aumentar a vulnerabilidade a problemas de ansiedade.

Aprendizagem por experiência direta

A ansiedade também pode surgir após uma experiência negativa.

Uma criança que passou mal durante uma apresentação pode começar a temer falar em público. Outra que sentiu dor durante um procedimento médico pode ficar ansiosa antes de consultas futuras.

O cérebro aprende a associar determinadas situações ao perigo.

Esse mecanismo de aprendizagem é importante para a proteção. Porém, às vezes, a associação se torna ampla demais.

Após uma experiência negativa com um cachorro, por exemplo, a criança pode passar a temer todos os cães, mesmo aqueles que nunca demonstraram comportamento agressivo.

Aprendizagem pela observação

Crianças também aprendem observando as reações de outras pessoas.

Quando percebem que um adulto reage com medo intenso a determinada situação, podem interpretar que aquela situação realmente é perigosa.

Isso não significa que os pais sejam culpados pela ansiedade dos filhos.

As reações infantis resultam de múltiplos fatores. Além disso, pais e filhos podem compartilhar predisposições biológicas e viver no mesmo ambiente, tornando essa relação complexa.

Informações recebidas

Relatos, notícias, vídeos e conversas também podem influenciar a percepção de ameaça.

Uma criança pode desenvolver medo após ouvir repetidamente histórias sobre acidentes, doenças, assaltos ou outros acontecimentos assustadores, mesmo sem ter vivido diretamente essas experiências.

A forma como ela interpreta essas informações depende de sua idade, de seu nível de desenvolvimento e de sua capacidade de compreender probabilidades.

Estresse e experiências adversas

Mudanças familiares, conflitos, perdas, bullying, violência, doenças, hospitalizações e outras experiências estressantes podem aumentar a ativação dos sistemas de ameaça.

Nem toda criança submetida a estresse desenvolverá ansiedade patológica. A resposta depende da intensidade e da duração das experiências, das características individuais e da presença de fatores de proteção.

Relacionamentos seguros, apoio familiar e acesso a adultos confiáveis podem reduzir parte do impacto do estresse.

Como o cérebro aprende que algo é seguro?

O cérebro não aprende apenas o perigo. Ele também pode aprender segurança.

Quando uma criança enfrenta uma situação temida de maneira gradual e percebe que consegue tolerá-la, novas associações podem ser formadas.

Ela pode aprender que:

  • a ansiedade aumenta e depois diminui;
  • nem toda previsão assustadora se confirma;
  • sentir medo não significa estar em perigo;
  • é possível agir mesmo estando ansiosa;
  • determinadas situações são mais seguras do que pareciam.

Esse aprendizado não apaga necessariamente todas as memórias anteriores. Em vez disso, cria novos caminhos e novas interpretações capazes de competir com a resposta de ameaça.

A presença de adultos que acolhem a emoção sem confirmar perigos inexistentes pode favorecer esse processo.

Por que evitar uma situação alivia a ansiedade?

Quando a criança evita aquilo que teme, a ansiedade costuma diminuir rapidamente.

Esse alívio pode parecer positivo, mas também pode ensinar ao cérebro que a fuga foi necessária para impedir uma catástrofe.

Considere uma criança que teme entrar na escola.

Se ela permanece em casa, sente alívio. O cérebro pode interpretar esse alívio como uma confirmação de que a escola era realmente perigosa e de que evitar foi a única maneira de permanecer segura.

Esse mecanismo é conhecido como reforço negativo: um comportamento aumenta porque remove uma sensação desagradável.

Com o tempo, o ciclo pode se repetir:

  1. A criança antecipa uma ameaça.
  2. A ansiedade aumenta.
  3. Ela foge ou evita.
  4. A ansiedade diminui temporariamente.
  5. O cérebro aprende que evitar oferece proteção.
  6. O medo se fortalece para a próxima situação.

Isso não significa que a criança esteja escolhendo ter ansiedade. Trata-se de uma forma automática de aprendizagem.

A influência do desenvolvimento infantil

A ansiedade precisa ser compreendida de acordo com a fase de desenvolvimento da criança.

Crianças pequenas ainda estão aprendendo a diferenciar realidade, imaginação e possibilidade. Elas também dependem mais intensamente dos cuidadores para sentir segurança e organizar as emoções.

À medida que o pensamento se desenvolve, os medos podem se tornar mais abstratos.

Uma criança pequena pode temer monstros ou o escuro. Uma criança em idade escolar pode preocupar-se com notas, doenças ou acidentes. Adolescentes podem apresentar maior preocupação com aceitação social, desempenho e futuro.

O conteúdo da ansiedade muda conforme amadurecem:

  • a linguagem;
  • a memória;
  • o raciocínio;
  • a percepção social;
  • a capacidade de antecipar o futuro;
  • a compreensão sobre doença, morte e outros acontecimentos.

Por isso, a mesma manifestação pode ter significados diferentes conforme a idade.

Quando um mecanismo de proteção se torna patológico?

A ansiedade saudável funciona como um alarme proporcional ao risco.

Ela aparece diante de uma situação importante, prepara a criança para lidar com o desafio e diminui quando o perigo ou a dificuldade passam.

Na ansiedade patológica, o sistema de alarme pode se tornar excessivamente sensível.

É como um detector de fumaça que dispara não apenas diante de um incêndio, mas também quando alguém prepara uma torrada.

O alarme não está “inventando” o sinal. Ele realmente foi ativado. O problema é que sua resposta não corresponde ao nível de perigo presente.

De modo geral, a ansiedade começa a ser considerada patológica quando o medo ou a preocupação:

  • são excessivos em relação ao risco real;
  • não correspondem ao que seria esperado para a idade;
  • persistem por tempo significativo;
  • são difíceis de controlar;
  • provocam sofrimento importante;
  • levam a evitamentos frequentes;
  • interferem na vida familiar, escolar ou social.

Isso não significa que toda ansiedade intensa represente um transtorno.

O contexto, a fase do desenvolvimento, a duração e o impacto sobre o funcionamento da criança precisam ser avaliados em conjunto.

A distinção entre uma ansiedade esperada e um possível transtorno será aprofundada no artigo Ansiedade normal ou transtorno de ansiedade: como diferenciar?

Ansiedade não é falta de coragem

Uma criança ansiosa não é necessariamente menos corajosa.

Coragem não significa ausência de medo. Significa conseguir agir de maneira gradual e segura mesmo diante de sensações desconfortáveis.

Também não é adequado concluir que a criança apresenta ansiedade porque recebeu “mimo demais”, porque não tem limites ou porque os pais cometeram algum erro específico.

A ansiedade infantil surge de uma interação complexa entre cérebro, temperamento, desenvolvimento, aprendizagem, ambiente e experiências de vida.

Reduzir o problema a uma única causa pode aumentar a culpa da família e dificultar a compreensão do que realmente está acontecendo.

Em resumo: o que é ansiedade infantil?

A ansiedade infantil é uma resposta natural de proteção ativada quando o cérebro da criança identifica ou antecipa uma possível ameaça.

Ela envolve:

  • circuitos cerebrais de detecção e regulação do perigo;
  • ativação do sistema nervoso;
  • mudanças hormonais;
  • sensações físicas;
  • pensamentos sobre possíveis riscos;
  • comportamentos de luta, fuga ou congelamento.

Não existe um único “centro da ansiedade”. A experiência surge da comunicação entre diversas regiões, incluindo amígdala, hipocampo, ínsula, hipotálamo e córtex pré-frontal.

Em níveis proporcionais, a ansiedade protege e ajuda na adaptação. Quando o sistema de alarme passa a reagir de forma intensa, persistente e desproporcional, a ansiedade pode deixar de ser funcional e aproximar-se de uma condição patológica.

O objetivo não é eliminar toda a ansiedade da vida da criança. O objetivo é ajudá-la a desenvolver um sistema de alerta proporcional, flexível e capaz de distinguir perigo real de uma possibilidade assustadora.

Perguntas frequentes sobre ansiedade infantil

Crianças realmente podem sentir ansiedade?

Sim. A ansiedade está presente desde as fases iniciais do desenvolvimento e faz parte dos mecanismos naturais de proteção. Sua forma de manifestação varia de acordo com a idade, o desenvolvimento cognitivo e as experiências da criança.

A ansiedade infantil é uma doença?

A ansiedade, por si só, não é uma doença. Ela é uma emoção normal e necessária. Pode ser considerada patológica quando se torna excessiva, persistente, desproporcional e provoca sofrimento ou prejuízo no cotidiano.

A amígdala é o centro da ansiedade?

A amígdala tem um papel importante na detecção de ameaças, mas não funciona sozinha. A ansiedade é produzida por uma rede que envolve várias estruturas cerebrais, sistemas hormonais e mecanismos de aprendizagem.

Por que uma criança fica ansiosa mesmo quando não existe perigo?

O cérebro reage à percepção de ameaça, e não apenas ao perigo objetivamente comprovado. Memórias, pensamentos, sensações físicas e informações recebidas podem fazer uma situação segura parecer perigosa.

A ansiedade infantil é culpa dos pais?

Não. O comportamento dos adultos pode influenciar a aprendizagem emocional, mas a ansiedade não é causada por um único fator. Genética, temperamento, desenvolvimento, experiências e ambiente interagem de maneira complexa.

Uma criança ansiosa está tentando chamar atenção?

A ansiedade não é uma atuação voluntária. A criança pode buscar proximidade, ajuda ou confirmação de segurança, mas essas atitudes geralmente representam tentativas de reduzir um desconforto real.

Evitar aquilo que causa medo ajuda?

A evitação pode aliviar a ansiedade no momento, mas, quando se torna frequente, pode reforçar a percepção de que a situação era perigosa. O cérebro deixa de ter oportunidades de aprender que a criança poderia lidar com aquela experiência.

Continue lendo

Para compreender os próximos aspectos desse tema, consulte também:

  • Ansiedade normal ou transtorno de ansiedade: como diferenciar?
  • Sintomas de ansiedade infantil por idade
  • Como é feito o diagnóstico da ansiedade infantil?
  • Como é o tratamento da ansiedade infantil?
  • Ansiedade infantil tem cura? Prognóstico e evolução

Perceber que uma criança está ansiosa não significa automaticamente que ela tenha um transtorno. No entanto, compreender como esse sistema funciona é o primeiro passo para observar seu desenvolvimento com mais segurança e procurar orientação especializada quando o medo ou a preocupação começam a limitar sua vida.

Referências

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Foto de Dr. Luis Felipe Pimenta

Dr. Luis Felipe Pimenta

Psiquiatria da Infância e Adolescência – CRM 163289 | RQE 70571