Baixa tolerância à frustração: como ajudar a criança a lidar com erros e limites?

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Ilustração de criança frustrada com uma torre de blocos e apoio acolhedor do pai.

Por Dr. Luis Pimenta

Perder um jogo, ouvir “agora não” ou não conseguir montar uma peça pode provocar uma reação intensa. Alguns pais passam a evitar qualquer contrariedade, enquanto outros acreditam que a criança precisa enfrentar tudo sozinha.

Aprender a lidar com frustração exige experiências possíveis de suportar e apoio adequado. A criança precisa ter oportunidades de errar, esperar e tentar novamente, sem ser humilhada ou colocada diante de desafios muito acima de sua capacidade.

O que significa tolerar frustração?

Não significa gostar de perder ou deixar de sentir raiva. Significa conseguir atravessar a emoção e encontrar um próximo passo: pedir ajuda, fazer uma pausa, aceitar uma alternativa ou tentar outra estratégia.

Uma criança pequena precisa de mais apoio do adulto. Mesmo entre crianças da mesma idade, há diferenças de temperamento, desenvolvimento e experiências anteriores.

No TDAH, dificuldades para conter respostas imediatas e organizar a própria ação podem tornar algumas situações mais difíceis. Isso não quer dizer que todas as crianças com TDAH tenham baixa tolerância à frustração. [1]

Nem toda desistência é falta de persistência

Antes de insistir, pergunte se a criança entendeu a atividade e se possui as habilidades necessárias. Frustrar-se repetidamente com uma leitura que não consegue acompanhar não é a mesma coisa que precisar aprender a perder num jogo adequado à idade.

Medo de errar, autocobrança, pouco sono e experiências de crítica podem aumentar o sofrimento. A família não deve presumir que toda reação intensa seja “manha” ou prova de um transtorno.

Exemplo fictício: um menino desiste de montar um quebra-cabeça e diz que é “burro”. O adulto reconhece a dificuldade, propõe uma parte menor e ajuda a separar as peças. Depois, destaca a estratégia utilizada. O objetivo é ensinar como tentar, e não apenas exigir persistência.

Acolhimento e limite podem caminhar juntos

“Eu sei que você queria continuar. O horário terminou” reconhece a emoção sem retirar o combinado. Quando for possível, ofereça uma escolha dentro do limite: “Você prefere guardar primeiro os blocos ou os carrinhos?”

Evite longas negociações quando a criança já está muito alterada. Se houver crise com risco, a prioridade passa a ser proteção e redução da escalada. A aprendizagem pode ser retomada depois.

Criança tenta montar novamente uma torre de blocos com apoio da mãe.

Como praticar no cotidiano

  • Comece com desafios alcançáveis: atividades em que haja alguma dificuldade, mas também chance real de progresso.
  • Ensine formas de pedir ajuda: “Está difícil; preciso de uma dica”.
  • Mostre como adultos lidam com erros: reconheça um erro seu e explique como vai corrigi-lo.
  • Reconheça a tentativa e a estratégia: “Você ficou frustrado e conseguiu pedir uma pausa”.
  • Amplie gradualmente: aumente a espera ou a complexidade conforme a criança consegue lidar com o passo anterior.

Esses exemplos aplicam princípios de metas graduais, apoio e reconhecimento de comportamentos úteis. Não são uma promessa de que a criança deixará de se frustrar. [1]

O que costuma atrapalhar?

Comparar com irmãos, ridicularizar o choro e dizer “isso não é nada” pode tornar mais difícil falar sobre o sofrimento. Por outro lado, retirar automaticamente todo limite também reduz oportunidades de aprendizagem.

Não provoque sofrimento deliberadamente para “endurecer” a criança. Situações comuns já oferecem oportunidades de prática. É diferente ajudá-la a suportar perder uma partida e obrigá-la a permanecer numa situação de violência ou humilhação.

Quando procurar ajuda?

Quando erros e contrariedades levam a desistência constante, conflitos importantes ou falas repetidas de desvalorização, procure avaliação. Dificuldades emocionais podem coexistir com TDAH ou ter outras explicações. [2]

Também vale buscar orientação se a família passou a organizar toda a rotina para evitar qualquer reação. O plano de cuidado pode incluir apoio aos responsáveis, à criança e à escola.

Tolerar frustração é conseguir seguir adiante com apoio e ferramentas. O objetivo não é uma criança que aceita tudo em silêncio, mas alguém que aprende a reconhecer sua emoção e escolher o próximo passo.

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Referências

  1. Malloy-Diniz LF, Alvarenga MAS, Abreu N, Fuentes D, Leite WB. Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade: tratamento farmacológico e não farmacológico. In: Petersen CS, Wainer R, organizadores. Terapias cognitivo-comportamentais para crianças e adolescentes: ciência e arte. Porto Alegre: Artmed; 2011. Cap. 7.
  2. Shaw P, Stringaris A, Nigg J, Leibenluft E. Emotion Dysregulation in Attention Deficit Hyperactivity Disorder. American Journal of Psychiatry. 2014;171(3):276–293.

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Psiquiatria da Infância e Adolescência – CRM 163289 | RQE 70571